Meu abuso sexual

priscilavanti
Aug 28, 2017 · 3 min read

Hoje, ler o relato da Clara Averbuck sobre seu estupro por um motorista de Uber me fez reviver minha dor. Faz quase dez anos, mas ainda arde, queima, incomoda. Faz quase dez anos de um abuso engolido, internalizado, sufocado dentro de mim. Faz quase dez anos e quase nunca falei sobre isso. Chegou a hora.

Meu abusador não era motorista, mas fui violentada em um meio de transporte. E este tipo de abuso é extremamente comum. Viajava da cidade em que trabalhava para a casa dos meus pais em um ônibus daqueles cheios de mordomia. Uma passagem caríssima. Setecentos quilômetros até São Paulo. Depois, mais quase duzentos até a casa deles.

Viagem noturna. Toda mulher que viaja sozinha sabe o que isso representa. Um medo constante. Não se dorme tranquila. Como uma das vacinas para que nada ocorresse, viajava com aquele uniforme do passar despercebida: jeans, camiseta e tênis.

*

Eu vestia jeans e camiseta. Eu estava sóbria. Eu paguei passagem e deveria estar segura. Me sentir segura. Eu fui violentada.

Ele estava à serviço do Estado. Ele vestia uniforme. Ele estava armado. Ele deveria prezar pela minha segurança. Ele era um Policial Militar. Ele viajava gratuitamente às custas dos impostos pagos por todos nós. Ele me violentou.

Eu fui abusada durante 700 quilômetros. Eu senti cada metro daquela rodovia passando e querendo morrer, me jogar pela janela. Ele passou a mão por todo o meu corpo, ele avançava sobre mim, eu o empurrava de volta para o seu “território”. Uma briga silenciosa e desgraçada. É claro que a arma na cintura era cuidadosamente encostada em meu quadril a cada vez que eu conseguia me livrar.

Eu fiquei catatônica. Muda. Perdi a voz. Só o empurrava e dizia não. Queria gritar, mas a voz não saia. O estado de fragilidade que fica uma mulher nesta situação só quem já passou por isso consegue entender. É uma mistura de culpa e paralisia. De nojo e raiva de si.

Sequer consegui me mexer na parada da metade do caminho. Não havia lágrimas nos meus olhos. Pensei em buscar outro banco, as pernas travaram. Já era uma jovem adulta, bem-resolvida; contudo me tornei uma garotinha indefesa. Vulnerável.

Ninguém percebeu (ou ninguém quis “se meter”). Eu não quis causar “problemas” aos outros passageiros. Eu me senti culpada. Talvez não devesse usar um jeans tão justo. Talvez não devesse ter sido simpática quando ele puxou assunto ainda antes do ônibus partir. Talvez. Talvez. A culpa sempre era minha. Jamais pensei em registrar BO. Não queria reviver aquilo ainda que fosse para que o desgraçado fosse punido.

Engoli a culpa. Engoli a dor. Dói todo dia, é fato. Mas segui vivendo. Por anos sequer lembrei desse dia, ainda que a dor se fizesse presente. Fiz questão de esquecer.

Desde então, evitei viajar; quase nunca peguei táxi à noite; estou começando a usar os sistemas de transporte a la Uber, mas sempre de dia. A gente abre mão de tantas coisas apenas por ser mulher. As pessoas pensam que não queremos sair, mas a gente prefere não correr riscos, sabe? Não, não sabe.

Com a chegada do feminismo na minha vida, consegui me lembrar do fato e a começar a me abrir com algumas pessoas.

*

Mas chega. É preciso falar. Eu fui abusada. Eu fui estuprada. Hoje eu sei que a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima.

Toda mulher estará sujeita a isso enquanto nosso corpo for visto como uma mercadoria, um objeto, uma propriedade. Eu estava ali à disposição dele. Por que não usar meu corpo? E ele o fez.

Mulheres são estupradas no Brasil todos os dias. De calça, vestido, shortinho, bêbada, sóbria, no ônibus, no Uber, na escola, em festas, na rua, no trabalho. Estupro não é questão de sexo. É questão de poder. E só se combate isso com o fim da cultura do estupro.

Hoje minha dor bateu forte. Mas serei maior que ela. Por mim, pela Clara, por todas.

#MeuMotoristaAbusador

)

priscilavanti

Uma péssima assassina de advérbios. Obviamente.

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