A expectativa que mexeu com toda Conceição

e com os leitores, 52 anos depois

Conceição de Mato Dentro — MG

Em “Nossa Cidade”, de José Carlos Marão, conhecemos a história da cidade Conceição de Mato Dentro, interior de Minas Gerais. Na verdade, uma amostra da vida diária de quem vive afastado e nos anos 60, onde ainda não existia nem televisão. Escrita para a Revista Realidade, edição nº 07 de 1966, a reportagem retrata um dia comum da vida de muitos moradores, ou nem tanto. Já que estavam se preparando para “o sábado”, assim é retratado pelo autor com muito suspense, um dia especial na pequena Conceição.

A trama aborda aspectos do dia a dia de personagens principais e importantes para o funcionamento da cidade. Não só contar como vivem e os costumes, mas entrar na vida íntima de cada morador, como se fosse um próprio contador de histórias, ou até mesmo aquela vizinha que cuida da vida de todos no bairro. O autor decidiu retratar como um conto aquela sexta-feira intrigante. Detalhadamente, ordena suas falas pela cronologia, adjetivando aspectos como, por exemplo, o soldado Geraldo que estava na avenida, “gordo, bigodudo e imponente, andando para baixo e para cima, policiando, preocupado com o sábado, se daria muito serviço ou não”.

O conto de Marão, podemos assim dizer, é uma obra jornalística de jornalismo que demonstra o quão aguçado é o seu perceber. Viver aquele dia de sexta na cidade o fez conhecer muitos personagens. O autor percorre um trajeto pela cidade e a cada momento importante faz uma parada para citar algum morador interessante, na verdade a sociedade faz a imagem do seu local. A literatura lhe concedeu a oportunidade de gerar aspectos importantes sobre cada um deles, do mestre Zé Júlio que acordada cedinho todos os dias para ver se o relógio da matriz funcionava direito, ao senhor prefeito da cidade que provocou o maior tumulto de sexta para sábado.

A narrativa perpassa um trajeto diário de pré-evento, cada subtítulo possui grande significado para que os leitores possam seguir o mesmo caminho. É como se o autor fosse aceito pela cidade e junto com as palavras escritas por ele, todos aqueles que leriam sua reportagem. Todos tão bem recebidos pela Conceição de Mato Dentro. Quem lê se entrega ao dia de sábado, expectativa é a palavra para descrever a história e a sensação que ela provoca. Até parece ficção, o autor nos convidou para essa sensação, todo leitor gostaria de ter vivenciado essa data, o casamento de Eliana, filha do prefeito com Zanoni, funcionário da agência local do Banco do Brasil.

É muito interessante como nos anos 60 existiu história tão bem contada. Transpassa o jornalismo habitual de 2018. Uma reportagem contada em forma de conto, a própria literatura em uma Revista. O texto serve de auxílio para aqueles que possuem problemas ao retratar com mais literalidade, uma fala mais teatral, a história de alguém. Um relatório jamais fixaria leitor algum como este.

Percebe-se um ato de representatividade, não só apenas contar, mas vivenciar, existir no que você mesmo está propondo aos outros. O papel de José Carlos Marão é um ensinamento aos próximos jornalistas, construa uma história em que você seja personagem também.