Uma Carta Para Meu Pai

Fotografia meio “borrada” do meu pai e eu de braços dados. Estávamos entrando no culto ecumênico da minha formatura. Ele é negro, alto, cabelos grisalhos, usa óculos de grau e roupa social. Eu estou à direita com os cabelos soltos e vestido colorido. Sorrimos.

Essa foi nossa última foto juntos. Não tínhamos muitas, afinal, a gente quase não se via, né? Esse foi um momento especial pra mim. E dessa vez você tava lá.

Hoje lembrei do convite pra um almoço na tua casa nova. Almoço que nunca chegou. Até almocei lá hoje… mas sem você. Foi estranho. Era pra estarmos todos juntos… mas eu negligenciei a “reconciliação”.

Da infância juntos lembro muito pouco, pouquíssimo. Na adolescência passei pela raiva e indiferença. Se tu não tava comigo e meu irmão era porque não queria estar, certo? Não sei. Nunca perguntei.

Há pouco tempo entrei numa fase de cultivar o querer estar bem com as pessoas. Com todas as que são importantes pra mim. Não sabia muito bem se tu era uma delas. Tive muitas dúvidas. Agora vejo que era. E a tristeza que me bate hoje é por isso. Pela oportunidade perdida. Logo eu que falo e tento tanto viver aproveitando as oportunidades. Mas essa eu deixei passar. Eu adiei. Não esperava nunca que tu fosse ter um infarto aos 58 anos de idade. Como assim? Sinto-me incompleta agora. Falhei em uma missão pessoal. Pensei em tentar nos reaproximar, mas esqueci que não teria todo o tempo do mundo. Achei que podia ser ano que vem. Ou quando tu se aposentasse. Ou quando eu não tivesse tanta coisa pra fazer. Sei lá.

Não sei se começo pedindo desculpas ou dizendo que, de coração, te desculpo. Por tudo. Por não ter participado no meu aniversário de 15 anos (e em tantos outros), por não ter estado fisicamente presente em outros momentos, por não aparecer nos almoços de domingo em família, por nunca termos conversado sobre esse vazio. Me desculpa também?

Hoje não carrego mágoa. Só acho que errei em esperar tanto pra (re)construir nossa relação. Não tenho ideia da cor que tu mais gostava, da comida preferida, do que te fazia sorrir ou chorar. E é uma pena que eu não tenha mais tempo pra descobrir. Desculpa por não ter marcado o almoço com tua nova família. Eu realmente queria ir. Desculpa por não ter ligado no último dia dos pais. Eu não queria mais uma ligação de um minuto, onde nenhum de nós dizia absolutamente nada de novo. Eu queria te conhecer de verdade. Saber quem era o homem por trás do pai, sabe?

Também não sei o que tu esperava de mim. Não sei o quanto (ou se) sofreu por estar longe de mim e de Alexandre. Não sei se isso te doía e em que nível de evolução você tava. Será que era difícil também pra tu falar sobre isso? Sentir isso? Ou tava tudo bem? Desculpa. De novo… eu nunca te perguntei. E queria muito ter perguntado. Queria saber.

Não sei em que tu acreditava, mas EU acredito que tu continua vivo. Só não mais nesse plano terreno. E agora nossa comunicação fica mais difícil. Mas daqui eu faço preces pra que tu aceite essa “nova” condição e fique bem. Voltasse pra o estado natural de todos nós. Que a Espiritualidade te receba bem. E que tu esteja preparado pra isso. Desejo MESMO que esteja.

Se cuida, pai. Não sei o quanto de tu tem em mim, mas eu sei que tem alguma coisa. Fica com Deus. Obrigada por tudo. Te amo.

Que a consolação chegue às famílias. Seguimos na evolução.

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