O perigo da minha mente

Eu não tenho problema em enxergar algo novo e continuar olhando. Se tem alguém ensinando algo a qual eu nunca tive acesso, e esse alguém acredita no que faz eu me cavo um buraco para receber um pouquinho mais do outro. Mesmo que o outro esteja anos-luz à minha frente e que meus ouvidos e olhos ainda não estejam preparados. Eu estico e esfolo meu intelecto para caber dentro de mim o Outro. O outro saber, o outro olhar, o outro caminho, o outro idioma, o outro embate, o outro sexo. E precisa caber sempre mais um pouquinho também a Outra. A outra curva, a outra luta, a outra face, a outra dor, a outra bibliografia, a outra mulher, a outra cor, a outra verdade. É muito buraco pra cavar, é muita alma pra preencher e nada disso faço com peso. É natural.

Como disse, não tenho problema em
enxergar algo novo e continuar prestando atenção. O novo não me causa rejeição à primeira vista. Eu não vou concordar com tudo, porque na alma não se cabem todas as coisas (anote, essa informação de que na alma não se cabem todas as coisas é importante). Também não vou entender tudo, muito que longe disso. Mas todas as coisas — as que me servem ou não, as que eu entendo ou não — , todas as coisas para as quais eu voltei meu coração ou interesse me chegarão um dia à luz da janela, sentarão comigo à mesa e me farão companhia. Todas elas farão sentido em algum segundo ou não demarcação de tempo da minha vida (e morte).

Convivo com esse perigo, com a vontade de comer o que é exterior a mim, o que vem depois de mim, ou antes: o que não sou.