Sobre Gatografias

O gato que era ontem a brincar na rua
já não o sou
Nem mesmo na cama me deito
Brinco na lama, fazendo gatices birrentas,
feias, turvas e egoístas
É uma lama consciência.

Fiz muitas voltas à toa
e persegui coisas inúteis pelo brilho de suas superfícies
É isto mesmo o que gatos fazem
vivem a ir atrás das coisas
e são felizes porque não sabem que são gatos

Eu, no entanto, sei
Sou este felino estranho de dedos e dados
Como já ouvi certa vez um miado
conheço-me e não sou eu
Ora, é mesmo difícil ser gato nessa carcaça de gente
É um tanto quanto perverso ser gato
num mundo de bípedes que latem e rugem
Gatos como eu que só querem roçar as costas
lentamente
nos sofás da casa das gatas
lamber dedos
e comer e beber e depois sorrir

Mas nos chamam vagabundos se formos gatos

— Priscilla Acioly

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