[sobre salivas]
Sabe aquela saliva que você salivava
quando me via subindo a escada de vestido preto?
Então
Eu tinha nojo dela
Eu salivava pra você também
mas como um cão
Sobre o dia que você cruzou comigo na rua:
– Ah se eu fosse 20 anos mais novo
– Ah se eu fosse um cacto
Mas nunca respondi
só salivei
A mão que você passou pela fenda que até então eu nunca tinha olhado no espelho
– porque só tinha 11 anos –
É do mesmo tamanho da que eu usuaria pra te estrangular
Também olhei pra você
e medi cada centímetro
do que você chama de masculinidade
sua bola esquerda teima em ser maior que a direita
Foda-se que meus seios são assimétricos,
eles estão pendurados em mim
e eu. sou. uma. árvore.
Sinto muito: amendoeira
Nada que você consiga comer ou mastigar
Você salivou por uma árvore que não devia
que só estava plantada e só fazia parte da calçada
Já mencionei que suas bolas são tortas?
A única forma das nossas salivas se encontrarem
é nesse poema e, fora dele,
num cuspe
— Priscilla Acioly, 20/07/2017
