O voo e a possível despedida
Ontem enquanto estava no saguão de embarque, tentei não me concentrar em nada. Sentei em um cantinho e ouvi uma música repetidas vezes. Meu portão de embarque foi modificado, andei até o outro portão. Sentei mais quieta do que da primeira vez.
Faltava pouco dessa vez. Faltavam poucos minutos e eu estaria oficialmente desistindo de nós dois. Pensar sobre isso, me causava sintomas de pânico. Mas não pensar sobre isso, eu simplesmente não conseguia.
Era pra ser só mais um voo, só mais uma viagem, só mais uma vez que eu mudo do nada pra outro lugar além daquele conhecido. O problema dessa vez é que não era só mais um voo, nem só mais uma viagem.
Eu estava fugindo da tristeza profunda que os últimos meses me trouxeram.
Eu estava fugindo de você.
Fugindo de nós.
Fugindo do que eu sou quando você está perto.
E eu nunca fugi de nada na vida. Nunca dei pra trás. Nunca mudei de ideia. Nunca desisti do que eu quero. Nunca fui assim…
Mas ficar onde eu estava seria continuar chorando pelo mesmo machucado e atestando que morrer, por mim, não faz diferença.
Então eu vim embora. Pra um novo lugar. Tentar uma nova coisa.
Vim fugindo. Vim me arrastando. Vim com o peito mais apertado do que eu posso explicar em algumas palavras. Vim com uma certeza absurda de que dessa vez, eu preciso te deixar ir pra longe e que isso, só isso, vai me tirar da inércia que essa tristeza toda me trouxe.
Entrei no avião, poltrona 26A. Sentei na janela, graças a Deus. Mais duas moças estavam ao meu lado. Uma aparentemente aterrorizada com o voo e a outra, como eu, estava desconfortável em sua própria pele.
Aquilo me fez pensar em quantas pessoas estão andando por ai sem se sentirem vivas e isso me levou de volta a pensar em você. Escrevi um texto qualquer, pelo celular mesmo. Nem título coloquei, mas falei sobre perder pedaços e deixar pedaços.
De forma clichê, estava chovendo no momento em que o avião começou a partir e Lauryn Hill se fez presente. Umas lágrimas apareceram e o choro fez um nó na minha garganta. Doía ir embora. Doía muito mais do que eu achei que doeria.
Abri nossa conversa, reli as coisas que disse. E percebi pela primeira vez em anos que você não entende como me fez mal. Não notou o quanto me destruiu. E nem sequer percebeu que arrebentou meu coração em milhares de pedaços.
Você me perguntou se eu estava seguindo meu coração e eu te respondi que tava tentando fazer ele ficar inteiro.
Isso te deixou triste, isso me deixou triste.
Nossa última conversa nos deixou triste. Eu por estar com o coração partido e você por entender que partiu meu coração mais de uma vez. E eu disse que eu te amo. Disse que parti pra me recuperar. Disse tudo que eu achei que eu precisava dizer.
O avião levantou voo. Chorei um pouco, agradecendo a baixa luz da cabine.
Cheguei no meu destino, vi uma mensagem sua.
Chorei mais um pouco.
Não dormi ainda… Mas ao ver hoje cedo o seu “como foi a viagem?”, só consegui lembrar de uma música chamada Make you feel my love da Adele. Só consegui gritar internamente que, pra variar, o dia seguinte me trouxesse uma paz maior do que essa agonia inteira que eu tô sentindo nesse momento.