As duas faces da indústria da moda

Por Priscilla Souza

A produção da moda se reinventou e as coleções tradicionais, que apresentam as tendências de primavera/verão e outono/inverno, atualmente interagem com “mini coleções” desenvolvidas regularmente por lojas de Fast Fashion.

Esse modelo do mercado de vestuário, como o próprio nome indica, oferece uma moda rápida. Desta forma, a produção e venda de tendências de moda são feitas em um período muito curto se comparado ao modelo tradicional.

Outro aspecto importante a ser considerado no Fast Fashion é o grande volume de produção e o aumento no controle sobre os processos produtivos.

O Especialista em Design de Moda, Reginaldo Silva, atribui o surgimento do Fast Fashion à “demanda de mercado por produtos disponibilizados com maior rapidez e com valores mais acessíveis do que os praticados por grandes grifes.”

Consumo Desenfreado

Cena do filme “Delírios de consumo de Becky Bloom”

As novidades constantes das lojas Fast Fashion, aliadas ao preço reduzido, são o chamariz para o consumo. Entretanto, o fator determinante para a compra é a durabilidade programada dos produtos. “[O tempo de uso de uma peça] varia muito do hábito de cada pessoa, cultura ou região ou, mesmo, da qualidade do produto. Mas sabe-se que tem vida muito curta, pois a ‘modinha’ da estação é desenvolvida para durar exatamente aquela estação”, esclarece o especialista.

Quem assistiu “Delírios de consumo de Becky Bloom”, viu a personagem de Sophie Kinsella suspirar apaixonadamente ao explicar a atração que sente por lojas de roupas. Para ela as lojas “fazem despertar em você o desejo por coisas que você nem sabia que precisava”. Certamente, a frase deve ter feito muitas pessoas sentirem empatia.

Becky ou Rebecca Bloomwood, em menor ou maior grau, é o retrato de boa parte dos consumidores atuais que, incentivados pela indústria, compram mais do que devem, adquirem o que não precisam ou se endividam atendendo necessidades irrelevantes.

Não por acaso, até março de 2017, 50,2% das famílias paulistanas, quase dois milhões de pessoas, encontravam-se endividadas e, desse total, 17,5%, mais de 600 mil, estão com contas em atraso — segundo dados divulgados pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio/SP), obtidos por meio da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC).

Por trás dos bastidores
Diversos escândalos envolvendo redes de Fast Fashion foram noticiados. Um dos mais conhecidos foi o caso da marca Zara, que em 2014 teve o nome ligado a trabalhadores mantidos sob condições análogas a trabalho escravo. Esses funcionários eram subcontratados, ou seja, trabalhavam diretamente para uma empresa que prestava serviços a Zara.

Muito comum no Fast Fashion, a terceirização é uma forma de redução de custos e os países subdesenvolvidos são os que oferecem os valores mais baixos. Essa relação muitas vezes é associada a exploração do trabalho, contudo, Reginaldo Silva afirma que a responsabilidade não pode ser depositada apenas sobre o modelo Fast Fashion. “Qualquer marca está sujeita a ter seu nome envolvido em trabalhos ilegais, pois praticamente todas as empresas hoje terceirizam sua produção (ou parte dela)”, ressalta.

Além das questões relativas às condições de trabalho, também se discute sobre os cuidados com o meio ambiente, tanto no processo de fabricação, quanto no destino dos produtos que, na lógica Fast Fashion, são pouco usados e logo descartados.

O modelo reverso
Nadando contra a corrente, em direção às práticas sustentáveis, há o Slow Fashion, que propõe repensar os hábitos de consumo. As três palavras que podem definir esse conceito são: reduzir, reciclar e reutilizar. Mais conhecidas como os três R’s da sustentabilidade, são ações desenvolvidas em busca de uma relação mais saudável entre quem consome e o meio ambiente, servindo também como norteador para quem se identifica com o Slow.

“Há marcas que já perceberam esse movimento e estão investindo em produtos mais ‘atemporais’ e usam isso como forma de se posicionar e nos fazer dar atenção ao nosso tipo de consumo”, conta Reginaldo.

Aluna do curso de moda do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), Suellen Pereira da Silva, junto com algumas colegas de turma, desenvolveu um projeto de moda sustentável. A intenção foi elaborar uma coleção de roupas com peças produzidas de maneira a amenizar os impactos ambientais. “Usamos tecidos naturais como sarja e algodão, as estampas são feitas à mão com tinta de tecido e reutilizamos roupas que já tínhamos”, diz Suellen.

Longe de pensar em uma produção lenta, Reginaldo Silva diz que, as marcas adeptas desse modelo, devem se apropriar da ideia de “devagar” no “sentido de aproveitar melhor a vida, as condições, os momentos, as coisas ao nosso redor.” O especialista cita a Apple como uma das marcas que têm adotado essa nova filosofia. “A moda vem apontando nessa direção, mostrando que mais importante que os produtos, são as experiências proporcionadas por eles.”

Colocando na balança os dois modelos, Slow e Fast fashion, Reginaldo diz que há mercado para ambos, mas acredita no crescimento maior do consumo consciente.

“O movimento Slow trata, no fim das contas, de uma certa mudança de hábitos, uma postura mais esclarecida, diria até mais educada, pois trata-se de termos responsabilidade pelo ambiente que nos cerca. A medida que as pessoas começarem a ter maior consciência sobre a origem dos produtos, a forma como foram feitos, as condições de produção, uso, reuso e descarte, pode-se pensar numa maior ampliação do Slow. Há boas perspectivas disso acontecer.”