Retrofuturismo: O Passado Alternativo

Priscilla Souza
Aug 27, 2017 · 4 min read

Por Priscilla Souza

Cena do filme “A liga Extraordinária”

Logo na abertura de “A liga extraordinária”, filme lançado em 2003 e baseado no livro homônimo de Alan Moore e Kevin O’Neill, o espectador se depara com uma pequena introdução sobre a época em que a história é contada. O ano é 1899 e as nações europeias vivem em uma frágil relação de paz.

A abertura explicativa torna-se importante para que a relação entre invenção e tempo seja percebida. No desenrolar da trama, o aparecimento de armas potentes e tecnologias avançadas é uma contradição, já que na realidade surgiram muito tempo depois do final do século XIX.

Utilizando a surpresa dos personagens, o filme enfatiza o quão deslocado está, por exemplo, um automóvel com design de décadas à frente, em um ambiente onde o veículo ainda é a carruagem ou o uso de tanque de guerra — arma, historicamente, utilizada a partir da Primeira Guerra Mundial (1914–1918).

O ESTILO
Todo esse cenário mostra a integração entre passado e futuro, criando uma nova realidade e trazendo a reflexão de como isto poderia modificar a história. Esta intenção artística faz parte do chamado Retrofuturismo, termo criado por volta dos anos 1980, que serviu como unificador de diversos subgêneros de ficção científica derivados da Cultura Punk.

“Retrofuturismo seria o que abarca aspectos ‘retro’, antigos. Indo desde a idade da pedra, até a era atômica, a premissa de repensar o passado usando alta tecnologia possível para aquele cenário, mas criticando o aspecto social ocasionado por aquela tecnologia. A diferença maior entre os vários galhos da árvore ‘punk’ seria a premissa tecnológica: Stonepunk, artigos de pedra; Bronzepunk, artigos da época da Idade do Bronze; Medievalpunk, com tecnologia medieval e um pouco de fantasia e misticismo…”, esclarece o historiador e professor André Felipe Wielgosz Leite.

PARTICULARIDADES
Duas tendências caracterizam o Retrofuturismo, a primeira cria uma perspectiva do futuro inserido no passado, é o caso do filme “A liga extraordinária”; já a segunda trabalha de forma inversa, ou seja, o passado é resgatado e atualizado com novas tecnologias. André diz que “a proposta retrofuturista é recuperar o antigo, mas refinando-o, tirando as camadas e cargas negativas próprias do passado.”

Seguindo essa ideia, quando se trata de vestuário, por exemplo, o historiador cita o retorno dos espartilhos. “Antigamente, essa peça de roupa era um marco de significados de restrição, adequação feminina a um ideal masculino, uma forma de limitar a condição feminina. Atualmente, temos a recuperação da peça. Se antes ela estava escondida, hoje é usada sobre todas as demais roupas, um sinal de reconhecimento do valor sensual e de empoderamento feminino e das formas femininas.”

INFLUÊNCIA NO DESIGN
Aliando saudosismo e criatividade, o Retrofuturismo é um prato cheio para quem se interessa por história e gosta de trabalhar a capacidade inventiva. Não à toa, designers de várias áreas vêm trabalhando com o tema e produzindo desde jogos e ilustrações a ambientes decorados, totalmente inspirados no Retrofuturismo.

Imagem retirada da internet.

Entre os subgêneros do estilo de ficção científica retrofuturistica, o mais conhecido e que gera maior volume de produções é o Steampunk. Considerado o primeiro subgênero a ser pensado dentro do que propõe o Retrofuturismo, o Steampunk cria um mundo fantasioso sobre a Era Vitoriana baseando-se no uso da tecnologia a vapor.

A aparência do ambiente e de tudo que faz parte dele acompanha a época, entretanto, a tecnologia por trás é extremamente desenvolvida, de maneira que homem e máquina se fundem. É comum, por exemplo, ver imagens ligadas ao Steampunk em que pessoas usam uma espécie de braço biônico ou um óculos repleto de bugigangas.

Imagem retirada da internet.

Assumindo essa estética há o projeto do designer de interiores Haldane Martin. Incumbido de redefinir a aparência da cafeteria sul-africana “Truth Cafe”, Haldane criou um cenário de casa de máquinas, evidenciando os equipamentos e expondo cada peça que os compunha. Utilizou, inclusive, tampos de mesas em formato de engrenagem. O toque Vitoriano ficou por conta de placas entalhadas com arabescos distribuídas em algumas paredes e pela bancada do café.

MULTIPLICIDADE
O Retrofuturismo manifesta-se em diversas áreas. Além dos meios já mencionados, ainda podemos ver suas referências na música, com bandas como Abney Park, que também integra o subgênero Steampunk. “Em maiores ou menores graus, de formas assumidas ou discretas, há elementos retrofuturistas em áreas demais para destacar somente uma”, conclui o historiador.

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Priscilla Souza

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Jornalista em formação, leitora sem preconceitos e apaixonada por trabalhos manuais.

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