Planeta Diário — Edição 6

Festival de asneiras

Hoje eu estou sem muita inspiração. Tive umas ideias ao longo do dia, mas acabei perdendo-as, como quem quer matar um pernilongo e assim que ele passa bate palmas para o vazio.

Vou falar um pouquinho então das bobagens que a Fernanda Torres falou na coluna dela na Folha, só pra não passar batido. Não tô batendo palma pra essa maluca dançar não, só fazendo um registro mesmo, porque ela falou merda demais, fica difícil não comentar.

A Fernanda é um excelente exemplo de como: 1. talento e inteligência não são genéticos; 2. mulheres tidas como “cultas”, letradas, “formadoras de opinião” também podem formar uma concepção totalmente distorcida e preconceituosa do que seja feminismo. Para mim está claro pelo texto dela que ela não faz a mínima ideia do que está falando e comete erros muitos comuns, como por exemplo confundir assédio com paquera. Ela também acredita ingenuamente, como muitas mulheres, que machismo seja apenas algo elogioso e inofensivo. Ela até acredita que ser assediada na rua seja algo empoderador. Não sei se sinto pena, se ela é desconectada da realidade assim mesmo, não sei se ela agiu de má fé.

Fato é que ela não é como a maior parte das mulheres brasileiras. Ela cresceu numa realidade extremamente protegida e burguesa. É preciso levar isso em consideração. Quando ela fala da geração de “machões gloriosos”, a gente fica sem palavras, tamanha a asneira que ela tá dizendo. Ela é da geração que nega o feminismo, em oposição à geração da mãe dela, que foi a que trouxe as grandes mudanças para as mulheres brasileiras por meio do feminismo. Muitas mulheres negam o feminismo por acreditarem que ele seja negativo, por puro desconhecimento mesmo. Mas a verdade é que votar, dirigir, usar calças jeans, trabalhar, ter direito a ter uma poupança em seu nome, ter direito a receber uma herança, poder sair sozinha para tomar um ônibus, todas essas coisas só nos foram possibilitadas pelo feminismo. E se ela gosta de ser assediada na rua, bom para ela! Mas impor como regra a todas algo que você gosta é muito egoísta. É uma visão muito reducionista do mundo. Se as campanhas contra o assédio existem, é porque ele não é visto como positivo pela maior parte das mulheres. E ela deveria sair um pouco do próprio umbigo e se tocar disso.

O lado bom desse festival de asneiras foi a hashtag #SouFeministaPq, uma resposta às coisas que ela ponderou e que trouxe mais depoimentos e mais mobilização na rede. E, para mim, quanto mais nós, mulheres, nos mobilizarmos, melhor. Juntas somos mais. E não devemos jogar pedras nas mulheres como Fernanda. Devemos sim trabalhar para educá-las. Pois todas nós já fomos machistas e achamos que isso era algo bom para nós. O sistema é feito para funcionar dessa forma. É preciso desconstruir. Desconstruir sempre.

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