Comecei a ensaiar outra vez

Sobre a liberdade de criação.

“…é o que faz a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos. e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigênio e usarmos os pulmões. não nos hão de convencer que volte a censura, qualquer tipo de censura, isso seria uma desumanidade…” Valter Hugo Mãe

Nós não vamos parar.

Ensaiamos. Fazemos viagem no espaço tempo. Nos comprometemos. Mergulhamos para dentro de nós para buscar todos os aspectos mais escondidos das nossas personalidades, para deixar submergir. Queremos ser os espelhos desses afetos. Mas para isso a pesquisa é árdua. Ritualizamos. Criamos nossa realidade. Dançamos, gritamos, criamos, nascemos.

Hoje estávamos ensaiando no terraço de um de nós. Moramos na zona sul. Pagamos condomínio caro. Estamos na cidade. Mas não podemos ocupar. Não podemos mais ensaiar no terraço, porque um vizinho nos ameaçou. Ele não gosta de um grito que ouviu, a música também incomoda e mais, tem velas e pessoas se movimentando livremente. Liberdade. Incomoda.

Nada acontece por acaso, não nos abatemos e nem nos enganamos. Não é o pior problema do mundo, perder um espaço de ensaio e criação. A cidade assusta, mas vai amanhecer.

Como nosso processo é sobre olhar pras situações e buscar o espelho, nós nos perguntamos. O que essa situação está querendo nos ensinar? Arrisco a dizer que esse acontecido vem nos ensinar sobre política, sobre ocupação, sobre reinventar a cidade. As pessoas estão mais violentas do que nunca. Não é pra menos, o Rio está mais violento. Isso porque nem vivemos a realidade por dentro das favelas. Essa dimensão de arte — cidade vem cada vez mais ganhando lugar nas nossas pesquisas, mesmo que esse não fosse nosso intento inicial. Aí que está o poder da arte, ela não é sobre o produto final. Ela é sobre o que movimenta durante a criação, sobre que entranhas ela é capaz de mexer. Para então, dar a ver. E REVER. A cidade e seus atravessamentos, desvios e tiros nos alcançam.

“Eu precisaria de alguém que me ouvisse.

Mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Cada palavra e seu significado sangrento”.

ARIANO SUASSUNA

A cidade grita através das pessoas. As pessoas são a cidade. Ela quer ser ouvida.

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