poço fundo

recordo-me de estar na frente da firma fumando um cigarro, e muito bem fumado, quando instaurou-se uma tosse estilo Mac Demarco no fim do clipe de ode to viceroy depois de fumar uma bisnaga de mais ou menos uns 30 crivos, só que a minha não parava nunca. minhas pernas começaram a bambear e num ato, que eu pensei que poderia ser o último da minha breve existência, tão breve como a vida útil de uma gíria na boca de galera cool da cidade, sem conseguir respirar direito, abri a porta da firma e caí. mas caí para série c da vida. tinha recém acabado de terminar (com o perdão da redundância) com a mina que eu gostava e que eu tava morando junto. na noite anterior me afundei em tudo que se afunda quando quer bancar o mártir do pós-amor. fui ao trabalho sem dormir por causa de uma crise de ansiedade das fortes oriunda de tudo que pode provocar-lá. não consegui produzir nada, óbvio. mas fumei muito. no momento da queda, que deve ter durado uns 2 segundos, ou até menos na leitura temporal que fazemos diariamente, eu tive um flash da última vez que vi a minha mãe, antes de ser expulso de casa. eu e a minha mãe morávamos num apartamento de um bairro mais ou menos da cidade, perto de um viaduto e do boteco seu Elias. E foi nesse bar que eu me encontrava momentos antes de receber o cartão vermelho da tranquilidade maternal de morar com a família. eu bebi ele inteiro (o bar, ou a cerveja/cachaça que tinha lá), bebi muito por algo que me deixou incomodado e que agora eu preciso fazer esforço pra lembrar. cheguei em casa podre de bêbado, abri a porta, acendi um cigarro (ela não gostava que eu fumasse e odiava que eu fumasse dentro de casa) e a velha ficou puta a ponto de desferir um tapa na minha cara e falar: já chega. depois disso, eu peguei os meus mijados e fui morar com a minha ex-namorada. a parte do tapa e a primeira vez que a mãe disse pr’eu não fumar foram os flashes que vieram na minha mente na hora tombo. pelo que me contaram no hospital, eu fui socorrido pelo cara eu xinguei no início do dia no trabalho por ele ter sido o primeiro a chegar na firma e não ter feito o café que eu contribui com 3 reais na caixinha mensal destinada à compra desse grãozinho que causou a escravidão e o sofrimento de tanta gente ao longo da patética história da humanidade. quase no mesmo momento, lembrei que eu tinha dado um soco na cara do meu melhor amigo na noite anterior porque ele disse que eu iria superar fácil a garota e que eu podia ir morar com ele até achar um novo lugar pra morar. e seria ali que eu perceberia que estava chegando no fundo do poço. em seguida comecei a pensar que teria de largar o cigarro e ia ser uma merda. no hospital, me falaram que havia sido apenas um susto, uma queda de pressão brusca, mas que eu deveria me cuidar e, o mais rápido possível, fazer um check up. falei que ia fazer “certo”, mas quem eu estava engando? eu acho que queria morrer mesmo, mas me faltava coragem pra tentar contra a minha própria vida. o cigarro poderia acabar com ela gradativamente e, além disso, me dar pequenos momentos de prazer cotidiano.

será que Deus não reservou nada de bom pra mim? Vinte e sete anos, com um emprego de merda, sem amor, distante da família, sem sonhos, sem perspectiva de me afundar menos no poço e depositando minhas esperanças de felicidade nos jogos de futebol do meu time. hoje tem final e ganhamos o primeiro cotejo fora do nosso estádio. vou no estádio com o ingresso caro pra caralho que comprei anteontem (morte à elitização do futebol) e vou fazer amigos de estádio e, evidentemente, beber muito antes do jogo porque agora não se pode mais consumir bebidas alcoólicas nas arenas padrão fifa.

porra, ganha essa merda e me faz esquecer da minha vida fada ao marasmo e ao esquecimento durante noventa minutos de puro êxtase e adrenalina que culminem num levantamento de troféu que eu não vejo há anos.

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