Fórmula 1 e cultura: uma analogia

É sabido que nada caracteriza mais a fórmula 1 do que o esmero das equipes na produção de tecnologia que resulte em aumento de velocidade. Cada segundo a menos encurta o árduo caminho para o supremo triunfo: o pódio. Assim sendo, pode-se afirmar que a fórmula 1 é o grande laboratório da indústria automobilística.
A busca por melhores motores, pneus, suspensão, “design” comprova que a corrida começa muito antes dos carros irem para a pista. Afinal, como também é de conhecimento geral, testes e estudos intensos são feitos na procura de algo que faça a diferença.
O grande benefício é que nos servimos dessa tecnologia quando esta chega até nós, depois de sua eficácia nas pistas comprovada, agregando valores aos nossos veículos. Mesmo o modelo mais básico de um carro de passeio incorpora tecnologias experimentadas nos circuitos. Em relação à aerodinâmica, por exemplo, quando Colin Chanman projetou, em 1970, o primeiro carro com bico afilado e traseira larga, estava estabelecendo sem saber o paradigma do moderno Fórmula 1. De lá para cá, os carros de corrida subsequentes foram tão somente variações desse projeto.
Assim como a Fórmula 1 trouxe benefícios para os carros de passeio, a alta cultura traz para o conjunto da sociedade. É bastante pertinente, portanto, traçar uma analogia que explique a importância da cultura superior, e o quão devastador é para uma nação o seu desaparecimento.
A grande cultura é a nossa fómula 1; e nós, indivíduos, os carros de passeio. Mesmo o mais humilde dos cidadãos recebe influências da alta cultura, sobretudo no aspecto da moral, que, obviamente, norteará suas decisões na vida prática.
É a alta cultura que nos fornece a imagem da experiência do que somos enquanto nação e o real sentimento de pertença no seio de nosso povo. É a herança do esforço de milhares de pessoas, povos, civilizações, que tomamos como base para uma vida melhor, para a vida virtuosa.
Para o filósofo inglês Roger Scruton, a alta cultura é a autoconsciência de uma sociedade. Para ele, “ela é uma realização precária, e dura somente se apoiada por um senso da tradição e pelo amplo endosso das normas sociais circundantes. Quando essas coisas evaporam, a alta cultura é substituída por uma cultura de falsificações. A falsificação depende, em certa medida, da cumplicidade entre o perpetrador e a vítima, que conspiram juntos para acreditar no que não acreditam e para sentir o que são incapazes de sentir. Há crenças falsificadas, opiniões falsificadas, competências falsificadas. Há também falsas emoções, que aparecem quando as pessoas degradam as formas e a linguagem nas quais o sentimento verdadeiro tem raízes, de modo que elas já não têm plena consciência da diferença entre o verdadeiro e o falso”.
No Brasil dos nossos dias, as falsificações pululam em decorrência de tudo que Scruton afirma acima, e do completo desaparecimento da cultura superior em nosso país. Basta lembrar daquilo que um dia foi a nossa literatura, e porque hoje é tão difícil compreender a não renovação de uma safra que contou com pessoas do quilate de Machado de Assim, Aloísio Azevedo, Lima Barreto, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e “tutti quanti”. Uma plêiade de literatos que nunca mais se viu igual.
Na própria seara acadêmica, é difícil encontrar quem possa ladear um Gilberto Freyre, um Otto Maria Carpeaux, um Mario Ferreira dos Santos ou um Miguel Reali. Salvo em pequenos “guetos” de pesquisas, a academia também decaiu — e muito -, por conta da falta de investimento adequado e do descaso.
Exames como o PISA dão o doloroso diagnóstico sobre o sistema educacional brasileiro. A educação básica, pautada na alfabetização socioconstrutivista para atender à falácia da “Educação para todos”, foi reduzida ao menor denominador comum. Neste trecho de seu artigo, o filósofo Olavo de Carvalho dá um parecer preciso desse estado de coisas: “Todo idioma compõe-se de uma parte mais ou menos fechada, estável e mecânica — o alfabeto, a ortografia, a lista de fonemas e suas combinações, as regras básicas da morfologia e da sintaxe — e de uma parte aberta, movente e fluida: o universo inteiro dos significados, dos valores, das nuances e das intenções de discurso. A primeira aprende-se eminentemente por memorização e exercícios repetitivos. A segunda, pelo auto-enriquecimento intelectual permanente, pelo acesso aos bens de alta cultura, pelo uso da inteligência comparativa, crítica e analítica e, last not least, pelo exercício das habilidades pessoais de comunicação e expressão. Sem o domínio adequado da primeira parte, é impossível orientar-se na segunda. Seria como saltar e dançar antes de ter aprendido a andar. É exatamente essa inversão que o socioconstrutivismo impõe aos alunos, pretendendo que participem ativamente — e até criativamente — do “universo da cultura” antes de ter os instrumentos de base necessários à articulação verbal de seus pensamentos, percepções e estados interiores.”.
Reerguer a cultura superior no Brasil é imperativo, assim como é imperativo reformar nosso sistema educacional, de modo que a educação volte a capacitar as pessoas no sentido de discernirem as coisas de real valor. A perda desse discernimento levou-nos a perda da medida da grandeza humana. Portanto, restaurar a Língua, a Literatura e o senso daquilo que realmente importa é a grande missão de todos nós.
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