À beira do rio
O esquilo estava mesmo ansioso. O combinado era “às duas horas, na margem mais estreita do rio”. Havia dito isso para si mesmo pelo menos setenta vezes naquele dia. Era o medo de esquecer algum detalhe, de errar o ponto de encontro, de se atrasar para a viagem. Durante a manhã tinha comido todas as castanhas que podia, e arrumado todas as suas pequenas coisas para a aventura planejada: era um esquilo prestes a atravessar o rio que nenhum outro da sua espécie havia tentado atravessar.
Mas aquelas águas eram um obstáculo aos seus sonhos miúdos: nadar não era uma capacidade sua, e por isso vinha em boa hora a promessa de ajuda da dona raposa. Ela, que deixava toda a bicharada em dúvida, que às vezes assumia a luta dos outros e outras vezes zelava só pelo próprio rabo, era a única em toda a floresta que sabendo da intenção inédita do esquilo, oferecera-se como seu barco. Era a dona um canídeo elegante, de pelagem avermelhada, focinho longo e sorriso triunfante. Bastante ágil e de fala eloquente, a raposa convencia toda a gente nas reuniões em que estava; e nas decisões mais importantes, como sobre as feras que o perigo levantavam, era pródiga em ideias e armadilhas. Por essa razão, mesmo que o dúbio despertasse, era a dona raposa a última segurança da bicharada: a salvar-lhes sempre o couro, resolver-lhes os enigmas, ser-lhes o clarão na mata escura. E o esquilo, que de bobo teve pouco, considerou sua travessia certa quando então a esperta dona, em promessas e sorrisos, dissera poder nadar o rio mais fundo que todos tinham por conhecido.
Nosso roedor-protagonista era jovem demais quando a conheceu. Foi numa assembleia sobre as leis da fauna, escritas pela vetusta tartaruga e destinadas a quem quisesse ali dividir a vida ordeiramente. Havia um rebuliço naquela noite, e nem mesmo o rei leão estava conseguindo conter toda a discussão que quase levou aos arranhões os macacos e os tamanduás. Foi memorável o momento em que a raposa tomou a palavra, e diante de jacarés e lobos, pardais e ursos, onças e impalas, falou por quinze minutos sobre a necessidade das normas no convívio dos diferentes. Era um silêncio só o tempo do seu discurso. O esquilo, jovenzinho e romântico, encheu seus olhos de admiração por aquela presença tão penetrante, e sob o céu da nova lei estrelada, voltou para casa bendizendo a senhora luminosa que ouvira.
Dali em diante, nos poucos anos que se passaram, o esquilo sempre perto esteve da raposa, seguindo suas preleções, ouvidos atentos aos seus conselhos — deixando de lado, é preciso dizer, também seus maus feitos. Era fiel escudeiro, primeiro aluno, maior admirador: onde vai a raposa, vai o esquilinho atrás, faziam graça os répteis e as aves. E até seus pais se preocuparam, pois não era coisa natural dois bichos tão afastados celebrarem horas tão íntimas.
Mas nada era incômodo o suficiente para nosso ansioso viajante, que diante do rio de sua passagem, lembrava de toda esta trajetória. Era ali que o ensinamento se tornaria vivo e outros caminhos se abririam ao seu destino. Aquilo de que precisava, repetia seu coração, era uma carona da raposa, a maioral de toda a floresta!
O Sol apontava duas horas. O plano era atravessar o rio a nado e chegar ao outro lado onde nenhum esquilo jamais ousara. Então, partir sozinho em descobertas, encontrar árvores novas, viver experiências outras que apenas a raposa, na sua sabedoria hipnótica, gozara certas vezes. Daí a ansiedade enquanto sentado naquela relva fresca, batendo sua pequena cauda sobre umas pedrinhas à volta, roendo um bocadinho de madeira que trouxera ainda de casa — como se fosse um amuleto da sorte para a longa jornada.
- Será que ela vem?
Nada da raposa. Também era verdade que pontualidade não a qualificava. Suas aulas começavam sempre atrasadas e seu sono era mesmo bom a partir da alta madrugada. Por isso o esquilo respirou fundo; e chilreou de novo aquele credo de quem conhece a mestra e perdoa suas sombras.
- Ela prometeu, e sabe que não posso atravessar sozinho este rio que me separa.
Era isso e muito mais que passava no já aflito coração do nosso esquilo. Tentou se acalmar cantando velhas canções; passou mais algum tempo a contar nuvens no céu, a fazer desenhos na terra, a lembrar de bons tempos de infância. Tudo emergia em profusão, agitado desde o fundo pelo calor da sua empreitada — feita de sonhos tão puros e desejos tão sinceros de felicidade sem igual. Sentia-se o esquilo desbravador a quem fronteiras não existiriam! Seria ele o fundador de outros sítios, teria quem sabe seu nome nos livros!
Mas naquele instante, ameaçava desfazer-se em espuma os deleites da aventura; se a raposa não aparecesse, se sua palavra não cumprisse, se o rio com ele não atravessasse.
Já eram três horas. Fazia muito calor e foi à beira da água — que por todo tempo esteve à frente — matar a sede sua que engolia. Foi antes surpreendido pela própria imagem, refletida naquele leito de passagem necessário para seus intentos juvenis. Olhou seu rostinho pequeno e frágil, seus olhos saltados em negro, sua boca do tamanho de um graveto dez vezes já partido. Por um segundo esqueceu-se da vontade de beber. A mente esvaziou-se em angústia, e uma só coisa valia saber: assim piscou três vezes — como parte de um rito que começava a perceber — e num suspiro a meia voz (com algum medo de sofrer), granjeou lhe perguntar:
- E a raposa? Vem?