Parabéns, você não é um empreendedor
Sérgio Spagnuolo
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Acabei virando um programador. Com muita experiência e competência comprovada em vários projetos entregues no ar. Tenho um emprego top, mexo com coisas incríveis, vou ao cliente, almoço com gerentes de empresas grandes, falo diretamente com diretores e gerentes. Eu consegui. Cheguei a uma situação invejável de carreira e salário que muitos não alcançarão.

Eu consegui tudo. Mas tudo o que o mundo queria de mim e não o que eu queria do mundo. Eu sempre fui apenas um garoto que sonhava em ter um piano, um gravador, uma bicicleta e a possibilidade de viajar para onde quisesse. Nunca quis muito da vida. Mas fui forçado a ser um bom programador, a estudar, a fazer faculdade pra aprender coisas fodas, a ter empregos que paguem bem, a trabalhar em projetos arriscados e etc. Eu fui engolindo cafés, chás, comidas, gorduras, faltas de sono e tédio.

Há um tempo, nessas crises de 30 anos, eu vi que minha vida não foi feliz. Se eu morrer amanhã, irei para a cova cheio de arrependimentos, tristezas e um certo orgulho por ter conseguido fazer tudo certo e ter sido homem para ter uma família, filho, casa e condições de vida confortáveis para nós.

Eu sempre quis uma liberdade! Eu sempre quis poder ir e vir quando quisesse. Nunca pensei para mim uma vida CLT de 44 horas semanais. Nunca quis isso. E cheguei àquela fase tensa, do “everybody else is doing it, so why can’t I?”. Se todos estão empreendendo, por quê não posso também? E nisso, venho tentando fazer um projeto por fora para tentar ter um segundo varal para me segurar e quem sabe, para alcançar a liberdade que tanto venho sonhando. Mas tá difícil. Não consegui achar ninguém com um bom nível de desenvolvimento para poder me ajudar. Não consegui ter energia sobrando para fazer as coisas com a mesma garra que eu faço no trabalho principal. A criança chora. A mulher conversa. O corpo cansa. Os olhos pesam. O espírito desanima. Aí você começa a olhar as empresas que deram certo e vê que você está seguindo uma estratégia que não vai dar certo. Ninguém vai saber que meu produto existe sem investimento. Sem um bom marketing. Sem um bom produto. Sem um produto acabado. Ninguém vai comprar nada de mim. E nunca vou sair deste ciclo destrutivo.

O grande fato é que não quero ser mais um programador de banco, seguradora, telecom ou o que quer que seja. Cansei de fazer coisas para outros terem PLR, terem lucros absurdos ou mesmo, coisas irrelevantes para o mundo. Eu sinto que minha energia deveria ser usada para coisas realmente significativas para o povo em geral, e é nisso que pretendo usar minha energia. Não é só questão de liberdade e independência financeira, mas é uma questão também de querer sair deste planeta deixando ele um pouco melhor do que encontrei.

O que quero dizer é que mesmo possa não dar em nada, eu não vou desistir de começar e TERMINAR algo feito por mim mesmo, sozinho, com meu tempo e minha energia. Por mais que possa parecer um esforço ilógico, este tipo de empreendimento é importante para todo mudo que é programador profissional. Todos os programadores deveriam ter um projeto por fora para aprender coisas novas. Todo mundo merece ter um sonho para sonhar. Todo mundo merece tentar a sorte um dia. Todo mundo merece conseguir se dar bem após investir em algo que vá ser útil para a coletividade.

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