Khaled

Em 2011, Khaled viu um menino de apenas 11 anos ser brutalmente assassinado em sua rua. Khaled relata que, inicialmente, o sentimento de revolta era muito forte e o levou a cogitar unir-se a grupos extremistas para libertar seu povo da violência da guerra.

Contudo, a morte e a destruição eram inevitáveis na pequena cidade de Deir al-Zour a leste da Síria. O mundo de Khaled desmoronava dia após dia, seus entes queridos estavam sob constante ameaça.

Durante um ataque contra o exército de sua cidade natal, Deir Al-Zour, os combatentes mataram seu tio e primo e deixaram diversas pessoas feridas. Alguns meses depois, Khaled houviu falar de um novo grupo, que mais tarde seria conhecido como Daesh.

Khaled diz, com tristeza, que a princípio o discurso do Daesh era baseado na libertação do povo Sírio através da Revolução, e que no início muitos acreditaram que os combatentes eram pessoas gentis. Era uma grande mentira. Após sua traumática experiência, ele afirma categoricamente que juntar-se ao Daesh “não é o caminho certo para o povo Sírio”.

Khaled pôde se juntar ao Daesh e foi levado até o campo de treinamento em d’al-Tibni, campo que fica a alguns quilômetros de Raqqa, o bastião do Daech, conhecida por ser o local onde o Exército do grupo caminha livremente pelas ruas, e, também onde o grupo pratica crucificações e decapitações de prisioneiros. Ele recebia 7000 libras sírias (pouco mais de 32 euros) por participar da divisão de combate do Daesh.

O menino recebeu um treinamento intensivo, e, em pouco mais de duas semanas, aprendeu a manejar armas como fuzis, metralhadoras AK-47 e pistolas, participou de eventos e esportes de resistência e também participou de cursos de religião para se tornar “um bom mulçumano”. Khaled conta que ficou chocado com o extremismo que lhe ensinavam, e que as lições que aprendia em nada tinham a ver com o Islã que ele conhecia antes de se juntar ao grupo extremista. Ele era impedido de manifestar qualquer opinião em desacordo com a doutrina extremista, sob pena de receber 20 chibatadas pela rebeldia. Essa dinâmica servia para todas as crianças soldados. Alguns combatentes são chicoteados com mangueiras e os reincidentes são torturados, relatou.

“Eu vi muitas pessoas sendo torturadas… Todos os dias alguns eram chicoteados. Ninguém tem o direito de deixar o grupo”

O treinamento era terrível e o menino conta que se sentia muito sozinho. Quando questionado se ele gostava de algum de seus superiores, Khaled citou apenas Abu Musab al-Fransi.

“Sentia falta de meus pais. Eu tinha o desejo de escapar, mas eu estava muito longe de casa. Eles não me deixavam falar com eles, meus pais não sabiam onde eu estava. Minha família pensava que eu estava morto”

Khaled afirma que os recrutas passam de um a três meses recebendo treinamento. Mas em razão do baixo contingente de combatentes, ele foi enviado ao front com apenas duas semanas. Ele conta que foi ferido já em sua primeira troca de tiros. De acordo com Khaled, seus superiores diziam que eles estavam indo lutar contra “ladrões e gangues orgnizadas”. Após ter sido ferido, Khaled ouviu de outros combatentes que o inimigo com quem havia lutado era o próprio Exército da Síria Livre. Mais tarde ele descobriu que alguns de seus primos, que haviam se alistado em outros grupos, haviam sido mortos pelo Daesh. Khaled acrescenta que às crianças não é permitido falar com seus familiares. A partir do momento em que pegam em armas eles não são mais autorizados a partir, mesmo que os pais queiram.

Khaled conseguiu uma chance de escapar, após três meses, tentando convencer seus superiores, juntamente com sua mãe, a deixá-lo ir para casa por alguns dias. Meses mais tarde, quando o Daesh começou a perseguir os outros grupos rebeldes, a mãe de Khaled decidiu levar seus filhos para longe, com medo que viessem buscá-los. Khaled relata que temia pela segurança da sua família e que eles voltassem para obrigá-lo a combater. Ele não demonstrou nenhum interesse em retornar ao grupo, que conforme afirma era responsável por massacrar civis.

Pouco tempo depois, Khaled conseguiu uma identidade falsa, e, em novembro, deixou sua cidade com outra familia, se passando por um de seus filhos. Foi assim que conseguiu ultrapassar as fronteiras protegidas pelo Daesh. Sua mãe ficou na cidade, juntamente com aqueles que não podiam pagar para fazer uma viagem tão perigosa. Khaled conseguiu atravessar a fronteira graças a um contrabandista. Mas quando eles se separaram, o menino de 15 anos se viu totalmente sozinho em um país que não era o dele e no qual não conhecia ninguém.

Fontes: Huffington Post

Like what you read? Give Zakat a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.