Majd Ibrahim

Majd Ibrahim nasceu e viveu toda sua adolescência em Homs, cidade a oeste da Síria, conhecida por sua localização estratégica no país: é ponto central para a rota para cidades importantes, como Damasco e Aleppo, além de ser rota das tubulações da indústria do gás e da refinaria de óleo. Isto, contudo, foi seu ponto vulnerável diante da guerra civil no país, pois era considerada um ponto valiosíssimo para os grupos militares insurgentes. Não é à toa que Homs ficou conhecida como a “Stalingrado da Síria” ou a “capital da revolução síria”.

Ao mesmo tempo, a região possuía um clima ecumênico e cosmopolita, na medida em que pessoas de diferentes religiões e nacionalidades podiam conviver com certa harmonia. Majd, por exemplo, estudou em um colégio católico, estudando tanto a Bíblia quanto o Alcorão. A orientação ideológica de sua criação estava mais próxima de um liberalismo secular, sem a exigência de seguir costumes ou rituais islâmicos e a possibilidade de consumir produtos ocidentais, como roupas, músicas e filmes. Seu pai trabalhava em um dos hotéis mais famosos de Homs, o Hotel Safir, como engenheiro elétrico. Porém, com notas baixas no exame nacional, Majd não pôde frequentar os cursos mais concorridos como engenharia e medicina. Escolheu o curso de administração de hotel na Universidade de Al-Baath, que ficava em Homs. Com o diploma, Majd planejava conseguir algum emprego em Damasco, lugar que representava a possibilidade de ter uma vida melhor.

A princípio, Majd manteve-se distante dos acontecimentos políticos e pretendeu não se envolver em conflitos ou manifestações. Mesmo em março de 2010, com o crescente protesto solidário, conhecido como Dia da Dignidade, que aconteceu no centro de Homs, Majd acompanhou através de relatos de amigos ou das redes sociais. Apenas na semana seguinte, fez-se presente, quando milhares de pessoas se reuniram a favor de reformas políticas e aumento de direitos civis. Contudo, o clima de insegurança e incerteza acerca do futuro próximo foi intensificado e eclodiu em abril de 2011. Um pequeno grupo de protestantes foi assassinado à queima-roupa por policiais. Naquela mesma noite, milhares de protestantes seguiram para a praça central de Homs. Policiais oficiais e a shabiha esconderam-se na cobertura de edifícios próximos à praça assassinando diversos manifestantes. De acordo com a lembrança de Ibrahim, “foi quando tudo mudou; o que eram protestos, a partir de 17 de abril tornaram-se uma insurreição”. Com a escalada progressiva da resistência, o exército nacional volta-se para Homs para tentar acabar de vez com os protestos. Ibrahim sentia um misto de receio e alívio com a chegada do exército.

A Guerra Civil Síria começara e não apenas o exército nacional, como diferentes grupos militares começaram a tomar corpo e a disputar territórios, como o Exército Livre da Síria, o Estado Islâmico, entre diversos outros. Majd e sua família buscavam diversos abrigos, como Damasco ou apartamentos alugados nos limites de Homs.

Entre idas e vindas, Majd resolveu continuar seu curso superior para fugir do recrutamento militar, já que uma lei síria prevê essa isenção para estudantes universitários. Isso quase lhe custou a vida: em meio a um passeio com amigos, foi capturado pelo Exército Livre da Síria e, vendado, levado para uma sala de interrogatório sob a suspeita de ser espião do governo. Porém, por um lance de sorte, um dos soldados que lhe interrogava verificou seu celular e descobriu uma foto de Majd com um conhecido dos comandantes do Exército. Era uma foto com seu melhor amigo, que pôde confirmar aos militares sua identidade e sua falta de comprometimento político.

Homs encontra-se em ruínas e em um ambiente de guerra, com diferentes grupos militares disputando seu controle. Majd termina o curso de administrador de hotéis com uma sensação mista: torna-se, agora, candidato fácil ao recrutamento do exército sírio. Dias após obter o diploma, aceita dinheiro da poupança da família para deixar o país. Era uma questão de vida ou morte. Viaja para Turquia e, como não conseguia emprego no país, decide ir mais adiante na rota migratória. Termina em Dresden, na Alemanha, onde conseguiu as documentações necessárias para viver e trabalhar por um tempo no país.

Fontes: The New York Times Magazine

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