Trinta Segundos

Em qual lugar e em qual época do ano você levaria um estrangeiro se você quisesse que ele conhecesse o seu país? Você o levaria para uma partida de futebol clássica entre dois times rivais? O levaria para dançar nas ladeiras do Carnaval de Olinda ou para uma sessão da Câmara dos Deputados? Talvez, a um almoço de domingo com sua própria família — um típico churrasco gaúcho. Agora, adicione a esse pensamento a condição de que este estrangeiro poderá ficar aqui por apenas 30 segundos.

photo credit: Edgardo W. Olivera

A princípio, parece impossível tomar uma decisão; afinal, em apenas 30 segundos você não consegue nem provar um belo pedaço de picanha, nem dar uma caminhada na praia para molhar os pés, nem mesmo esperar pela jogada decisiva que irá levar ao gol decisivo da partida. Você se sente desconfortável e confuso. E isto é compreensível.

No entanto, este é o mesmo período de tempo que tomamos para formar opiniões sobre pessoas de outras culturas e nacionalidades quando lemos, dia após dia, notícias sobre eventos aleatórios que aconteceram em diferentes países ou pequenas regiões. E isto fica ainda pior quando ouvimos notícias sobre lugares em que o sofrimento e a opressão são uma expressão de uma guerra que, aparentemente, nunca acabará. Os trens da cultura de Lévi-Strauss são ainda mais rápidos e barulhentos nestes momentos específicos.

Isto deveria ficar ainda mais claro quando nós refletimos sobre o modo como julgamos pessoas e práticas do Oriente Médio, cuja cultura, linguagem, religião e estilos de vida não apenas diferem dos nossos, como são absorvidos em uma imagem monolítica e uniforme. A experiência de emigração da escritora Ahdaf Soueif para a Inglaterra é paradigmática. Ao comentar sobre o modo como a mídia representava o mundo árabe, ela afirma o seguinte: “Eu me acostumei com o que, na época, era um claro suporte à Israel pela mídia britânica. Porém, o que me deixou triste é que, em quase todo livro, artigo, filme, programa de TV ou de rádio, que afirmava ser sobre a parte do mundo na qual eu vinha, eu nunca conseguia reconhecer a mim mesma ou alguém que conhecia. Eu estava constantemente exposta à distorções de minha realidade”. Qual a representação comum de Soueif que possuímos? Qual o estereótipo de uma mulher egípcia nós possuímos?

Se olharmos seu perfil na Wikipedia, nós podemos aprender que sua trajetória de vida é inspirado e mostra uma mulher forte e determinada, com um talento para escrita fora do comum e uma luta admirável pelos direitos humanos no Egito. Suas ações e ideais vão além das generalizações usuais que realizamos das culturas árabe e muçulmana. Não seriam estas trajetórias que deveriam prevalecer como memórias de uma região tão distante como essa?

Mergulhados nestas questões, Zakat é um grupo de estudantes dispostos a buscar um modo de quebrar os padrões comuns de compreensão e argumentação sobre diferentes culturas e religiões. Normalmente baseados em acusações mútuas de estereótipos e caricaturas distorcidas, este tipo de engajamento tende a favorecer apenas narrativas de grupos extremistas — de ambos os lados. Nesse sentido, buscamos oferecer e tornar disponível informações sobre a trajetória de vida de pessoas que podem nos inspirar a encontrar mudanças na relação com outras culturas, como entre a cultura árabe e a ocidental. Afinal, a falta sistemática de comunicação entre diferentes grupos de pessoas e seu resultado perverso — a polarização extrema de opiniões e o isolamento de indivíduos — , como Albert Hirschman já nos alertou uma vez, é um problema radical para a estabilidade de nossas próprias sociedades.

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