Luciana Corrêa
Sep 9, 2018 · 7 min read
Todos se reúnem no tapete para compartilhar dificuldades e descobertas, ao final das classes

A avaliação das crianças, da educadora e a aprendizagem digital no Brasil

Nossa experiência nesta classe, em uma escola fundamental nos EUA, chegou ao fim. Em oito publicações abordamos relacionamento, equipamentos, softwares, conceitos da aprendizagem digital e o passo a passo na construção dos aplicativos. Nesta última, nós focaremos na análise geral. Segue o nosso habitual roteiro:

O que: Percepção e avanços a serem considerados para uma próxima atividade

Por que: O retorno do aluno, e a reflexão a partir de conceitos e dados é fundamental para pensar o futuro das TICs na escola

Onde: Janney Elementary School (Washington DC)

Como: Coleta de testemunhos, análise do resultado final e outras fontes

Quem: Alunos do 5 ano

Quando: 2017/2018

“Com o aprendizado para o desenvolvimento de aplicativos, nós pudemos descobrir como educar outras crianças a se sensibilizarem com questões sociais”, destacou um dos alunos da professora Shana Zallman.

O tempo e a complexidade da pesquisa

Iniciaremos por um aspecto mencionado por muitos alunos em relação ao tempo restrito para realizar todo o processo. Muitos deles não conseguiram, inclusive, finalizar o aplicativo. Um depoimento cita:

“A parte mais difícil foi a bibliografia. Leva-se muito tempo para encontrar a informação, e temos poucas aulas para desenvolver tudo em menos de um semestre”.

Já outra criança afirma ter gostado pois realizou a pesquisa de forma independente. Mas destacou sua dificuldade em memorizar todas as informações técnicas para desenvolver o aplicativo. De fato, 45 minutos para todo o processo de explicação, discussão entre as duplas, uso dos computadores na pesquisa e criação, retorno ao tapete para coleta de impressões pela professora, é muito restrito. Apesar dos computadores serem relativamente novos, temos que considerar que alguns travavam, e a própria educadora que sanava o problema pois não há um profissional de informática nas dependências da Janney todo o tempo.

Fica a reflexão para que a disciplina possa ser desenvolvida no decorrer de todo o ano letivo. Ainda, o processo da formação para uso das tecnologias ser programático, de forma interdisciplinar com os demais conteúdos. Afinal, ela promove o desenvolvimento de inúmeras competências transversais ao currículo. E estes aspectos merecem um tópico todo seu!

A interlocução com outras disciplinas, sujeitos e esferas do ensino

A troca de conhecimentos e práticas é fundamental no ambiente da aprendizagem. E quando pedimos a educadora para elencar suas dificuldades, ela destaca o fato de ainda não ter uma rede de educadores no ensino básico, na rede pública municipal, com foco no uso das TICs nas escolas. Ainda, a falta de oportunidades de desenvolvimento profissional promovidos pelo órgão correspondente à nossa Secretaria Municipal de Educação para preencher lacunas em capacitação na área de informática.

Shana também aponta que tenta fazer uma conexão do conteúdo com o que seus alunos estão aprendendo em outras salas de aula, mas não é fácil. Ela conseguiu conectar o que os alunos da 3ª série aprendem em Estudos Sociais, e o que alunos da 5ª série discutem em suas aulas de leitura. Ainda, como melhorar a escrita na 1ª e na 2ª série usando aplicativos divertidos que permitem a publicação do trabalho. Para tal, sempre que possível, a professora se reúne com outros professores para descobrir mais sobre suas unidades de estudo e quais são suas expectativas para que ela possa dar continuidade ao seu trabalho pelo mundo digital. Mas percebe-se que não é uma prática planejada e incorporada na rotina da escola e no programa curricular.

A importância da transversalidade nas TICs com a Matemática, Português, Ciências, Geografia, Línguas Estrangeiras, História e demais conteúdos, vai além do aumento da interação em tempo real, sem deslocamento físico. Estas tecnologias aplicadas ao ensino podem apresentar diversas vantagens em relação aos métodos convencionais ao permitir a visualização de subtarefas como parte de tarefas mais globais, a adaptação da informação aos estilos individuais de aprendizagem, o encorajamento à exploração, maior e melhor organização das idéias, maior integração e interação, agilidade na recuperação da informação, maior poder de distribuição e comunicação nos mais variados contextos.

E a exploração e apropriação das TICs pode tanto promover o intercâmbio de informações com estudantes de outras classes, como se reunir à outras fontes de conhecimento advindas de outras disciplinas, ou fora da escola. Como os centros culturais, as comunidade dos entorno, locais públicos, empresas, e outros espaços de fala.

Um exemplo seria a exploração do tema saneamento em matérias como Ciências, História e Português. Eles podem trazer experiências e pesquisas que podem ser registrados em práticas de laboratório, visitas ao Museu da Cidade para checar o crescimento urbano, e um glossário de novas palavras que podem enriquecer seu vocabulário. Professores planejam o projeto que pode ser, ao final, um livro que irá rodar as demais salas de aula e casas dxs autorxs, um blog, ou um vídeo que pode ser disponibilizado no canais online para os pais e nas redes sociais da escola. Recursos e técnicas adequadas ao jovem de hoje, que já nasce cercado por estímulos tecnológicos e muitas informações, mas precisa ser conduzido para processar, criticar, conectar com seu dia a dia ao produzir algo que demonstre a consolidação de todo este processo do saber.

Nativos digitais x Imigrantes digitais

Como já foi relatado em artigo anterior, o domínio das ferramentas digitais pela professora Shana foi mais fácil visto que ela tinha contato com micro computadores desde criança. Mas ela teve que pesquisar e praticar o uso de softwares inovadores para cada série pois o conhecimento é cíclico, ainda mais quando falamos em mudança geracional. Para tal, nós vamos apresentar dois conceitos que perpassam todas as discussões de reformulação curricular e inovação da aprendizagem: os nativos e imigrantes digitais. Estas expressões foram apresentadas, em 2001, pelo educador Marc Prensky. Enquanto a primeira refere-se aos que dominam a tecnologia e seu uso de forma simples e natural, a outra elenca os que buscam conhecer e se ambientar em seu uso. Afinal, estes nasceram antes da era da revolução tecnológica, que sucedeu a industrial. Ou seja, a dicotomia entre alunxs digitais e professorxs analógicos, e o desafio mediante ao impacto da exclusão digital que é uma exclusão de fato, que limita as possibilidades dos jovens em nosso país.

Mais detalhes sobre as diferenças comportamentais e culturais entre estas gerações, as políticas educacionais no Brasil que incluem a formação de docentes são detalhadas no artigo recente “Saber Digital e suas Urgências: reflexões sobre imigrantes e nativos digitais”. E também destaco abaixo um vídeo que compartilha sentimentos e expectativas de professores de todo a nação, em pesquisa de 2017:

Confira alguns dados deste estudo realizado, em 2017, pelo movimento Todos Pela Educação

O mundo digital, seu fascínio e dados sobre o acesso

No decorrer das aula percebemos o enorme interesse e apelo que a pesquisa pelo universo da internet desperta em cada um. A maioria das crianças já tinha afinidade com os computadores, ainda que muitos tenham mais habilidade por usarem com frequência, ou não. O Censo de 2016 aponta que 89% dos lares dos Estados Unidos têm um computador, que inclui smartphones, e 81% tinham uma assinatura de Internet de banda larga. E deste último, um total de 90% dos lares possuem crianças e jovens menores de 18 anos que os utiliza.

Muitos de vocês podem argumentar que esta é uma realidade distinta à do Brasil. Mas o acesso às redes na escola e nos lares tem se alastrado, em especial com a venda de celulares, por todas as camadas da sociedade. As pesquisas frequentes realizadas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), através do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), merecem sua atenção constante. Em 2016, constantou-se que 23,7 milhões de crianças e adolescentes no país usam a internet. Estão desconectados 5,9 milhões de jovens, sendo que desses, 3,4 milhões nunca tiveram contato com a rede. Os maiores percentuais de uso entre os 9 e 17 anos de idade são registrados no Sul (90%) e no Sudeste (88%). No Norte, o índice cai para 56% e, no Nordeste, para 71%. No Centro-Oeste, o percentual é de 85%. Assim, não podemos desconsiderar que esta realidade em nosso país, que tem se expandido com a aquisição de equipamentos pelo governo. Na mesma pesquisa afere-se que 98% das escolas públicas tem computador, mas a média de banda larga ideal por aluno para atividades regulares baseadas em TIC em sala de aula é de 16 kbps por estudante, inferior à de vizinhos como Chile ou Uruguai. E o ideal, de acordo com duas referências internacionais (como o projeto Education Superhighway ou o eLearning Industry) varia de 64 kbps a 250 kbps.

Uma longa caminhada que vem sendo discutida nas esferas pública e privada, por anos, mas tem chegado nas escolas, ainda que a passos lentos. Prova disso é que as estatísticas do mesmo estudo apontam que o uso da tecnologia nas atividades pedagógicas é percebida de maneira positiva pelos professores. Na avaliação, 77% concordam que passaram a se comunicar com alunos com maior facilidade, 85% a adotar novos métodos de ensino e 94% passaram a ter acesso a materiais mais diversificados ou de melhor qualidade.

A ampliação das TICs se acentuará ainda mais com a aprovação da Base Nacional Comum Curricular, BNCC, que traz o uso das tecnologias como uma das competências de ensino. Mas faz-se necessária tanto a ampliação da banda larga de internet, quanto a escolha de softwares adequados, a integração destas tecnologias no currículo e a capacitação dos docentes, em parceria com as universidades. Desafios comuns em um país como o Brasil e os Estados Unidos, um país líder em investimento privado em tecnologias para educação. Mas também tem muito a avançar em outros aspectos, conforme percebe-se em nossos relatos. E continuaremos acompanhando outras experiências que tem buscado vencer as barreiras para a efetividade das TICs para o ensino, ou parte delas. E juntos esperamos fazer muito mais!

Para tal, compartilhe conosco suas experiências e divida as do Projeto Anita com outras. Agradecemos a escola Janney Elementary School por abrir suas portas para nosso relato, bem como a educadora Shana. Se você não leu os demais artigos desta aventura, inicie pela primeira publicação. E até a próxima!