Crítica à "Brazillian Impeachment Is Actually A Corporate Coup"

Para quem ainda não teve a timeline poluída nos últimos dias por um vídeo feito pelo americano Cenk Uygur em um famoso canal do youtube eu recomendo assistir — ou pelo menos tentar. O vídeo é intitulado “Brazillian Impeachment Is Actually A Corporate Coup” e tem como foco central argumentar a ideia de que o impeachment é, não apenas um golpe, mas também uma conspiração para se pagar investidores estrangeiros(?). Pois bem, vamos aos fatos:

Logo no título do vídeo já é possível encontrar uma contradição: Golpe corporativo? É justamente de interesse de poucas grandes empresas que Dilma permanecesse no poder para continuarem se beneficiando do BNDES através do programa de Campeões Nacionais, que só faz criar monopólios. 
Além disso, a crueldade do modelo de gestão do PT fez com que os brasileiros se endividassem a níveis de taxa de juros exorbitantes, fazendo com que o lucro dos bancos batessem recorde atrás de recorde. Então, acredito eu que seja de interesse de uma alta cúpula de players do setor privado que Dilma efetivamente continue no cargo.

O apresentador transcorre no vídeo mostrando notícias e argumentando como base nas mesmas para se caracterizar o golpe. Vamos analisá-las:

"Com a eminente suspensão de Rousseff pelo Senado por supostamente quebrar regras orçamentárias, o centrista Temer irá assumir o governo…"

Ao ler esse trecho Uygur nem ao menos menciona que Dilma conduziu operações de créditos com bancos públicos e isso é um crime de responsabilidade descrito na constituição brasileira como um dos motivos pelos quais um presidente pode ser impedido. Com bastante arrogância aliás, diz que "quebrar regras orçamentárias" é comum nos EUA. Ele só parece não ter percebido que Dilma é presidente do Brasil.

"Na quinta-feira passada, um aliado de Temer disse que o eminente governo iria anunciar uma série de medidas de austeridade…"
"Temer planeja apontar Henrique Meirelles, um ex-presidente do Banco Central e executivo do ramo financeiro que é popular com investidores externos, como Ministro da Fazenda…"

Nesse ponto podemos apontar claramente a posição política de esquerda do autor do vídeo. Como todo esquerdista, Cenk Uygur diz que medidas de austeridade são, na verdade, meios de se pagar a dívida de investidores externos. Mal sabe ele(ou ignora), que estamos passando por uma situação fiscal insustentável e que a razão por trás de tais medidas é para se evitar um colapso da dívida pública. Ao criticar Meirelles, ele provavelmente não sabe também que ele foi presidente do Banco Central no governo Lula e por pouco não foi ministro no governo Dilma.

"…reverá a previdência, os tributos e as leis trabalhistas…"

Cenk Uygur demonstra, novamente, a recorrente ignorância fiscal presente na esquerda ao criticar medidas para se modificar a previdência, os tributos e as leis trabalhistas. 
A previdência está prestes a entrar em colapso. Os impostos oneram os trabalhadores e só fazem piorar a crise ao se impor um peso morto na economia. E por fim, flexibilizar as leis trabalhistas é fator-chave para que a economia volte a se aquecer e que se quebre este ciclo vicioso em andamento no país. 
Mas Uygur acha que tudo isso é para pagar os investidores externos e não para o bem o do país.

"…apenas 1% dos entrevistados votaria nele [Temer]…"

É aqui que a desonestidade começa a aparecer. Cadê essa pesquisa em que temer aparece com 1% de intenção de voto? Procurei por essa matéria da Reuters porém não achei em lugar algum. Michel Temer é, de fato, impopular, mas nada perto disso. A última pesquisa de que tive notícia reportou que Temer teria 62% de reprovação.

"…a pessoa prestes a assumir está inundada em corrupção: acusado por informantes de um envolvimento em um esquema de compra ilegal de etanol, ele foi condenado, e pagou multa, por violações no financiamento de campanha e vive a possibilidade de ser banido por 8 anos de qualquer cargo político."

Temer realmente foi condenado a pagar multa de R$80 mil por exageros financeiros em sua campanha. Isso não é corrupção, é financiamento além do permitido. Ele poderá, sim, ficar 8 anos inelegível porque segundo o TRE-SP esse ato pode se enquadrar na Lei Ficha Limpa. O caso está em aberto.
A compra de etanol ilegal na qual Temer estaria envolvido é relacionada à BR Distribuidora e foi delatada por Delcídio do Amaral. O autor é no mínimo injusto ao destacar isso como um fator que pesa contra Temer em relação à Dilma, quando ela também é mencionada diversas vezes na mesma operação, citada inclusive pelo mesmo delator de Temer. O presidente interino não é acusado de corrupção como tenta implicar o vídeo, nem ao menos investigado.

E porque não citar os inúmeros blogs financiados pelo PT nos últimos anos? Como por exemplo a Dilma Bolada que, provavelmente, foi ilegalmente financiada pelo PT. Os números chegam as casas do 6 dígitos.

"Como alguém que é minimamente racional pode acreditar que isso é sobre 'corrupção' quando eles estão prestes a instalar como presidenta alguém muito mais corrupto que a pessoa a quem eles estão retirando"

De novo, sendo injusto e imparcial. O impeachment não é baseado em corrupção e nem Temer nem Dilma não são investigados ou acusados de corrupção.

O que se tem a concluir sobre tal vídeo é triste: é evidente o desespero dos esquerdistas aos massificar um vídeo tão superficial, injusto e potencialmente desonesto nas redes sociais. Aliado à isso, quem o compartilha quer dar a entender que o autor do vídeo de alguma maneira possui uma credibilidade maior ao falar do Brasil apenas pelo fato de ele ser estrangeiro. Infelizmente ele mostrou justamente o contrário ao falar superficialmente e de forma injusta sobre quase tudo.

Não tem jeito, a Dilma caiu. Não teve golpe. O processo foi impecável, passou por todos os requisitos e teve a chancela do STF não uma ou duas vezes, mas várias.

Like what you read? Give Projeto Economista a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.