As palavras que tecem o relato místico

Um dos primeiros problemas que confrontam um místico numa época secular e racional é de que modo pode comunicar as suas experiências para que sejam compreendidas e possam fazer parte do diálogo coletivo. Queremos falar das nossas experiências mais importantes. Queremos compartilhá-las, para que elas adquiram vida além de nós mesmos, para que frutifiquem no campo da realidade. Como seriam as nossas vidas se não pudéssemos falar de nossas paixões, romances, dos arrebatamenos amorosos que são a essência de tudo que pensamos, sentimos e fazemos? Como ficariam empobrecidas e esvaziadas de sentido nossas vidas se não tivéssemos as palavras para transmiti-las; se não acreditássemos que poderíamos passar um pouco do que foi vivido e se supussémos que o outro não nos compreenderia. Sem os poemas, as pinturas, os dramas e as músicas que nos revelassem o misterioso movimento do amor nos tornaríamos ocos e perderíamos o essencial. O campo do misticismo inclui toda uma vasta gama de experiências que dificilmente penetram no nosso diálogo comum, mas que compõe a vida de todos em maior e menor grau e que são as bases de toda a filosofia, religião e a incansável busca pela transcendência e superação da condição humana. Quando passamos a perceber as sutilezas da consciência, quando refinamos a nossa atenção e a dirigimos a nós mesmos e ao universo à nossa volta, algo muito intrigante ocorre. A realidade que antes era vivida a partir de nós mesmos, dos meus propósitos, pensamentos e sentimentos — a minha visão de mundo — passa a se revelar como algo completamente diferente do que havíamos imaginado. Ela se torna mais real, mais impactante, mais íntima. Todos os filtros da percepção são lentamente aquietados e vemos o universo como algo novo, como um assombro que nos move continuamente.

Pessoas que estão próximas da morte fazem regularmente esse relato. Desprovidas de si mesmas, próximas ao fim, não há nada mais nelas que as impeça de sentir a realidade pura, desobstruída dos véus de toda uma vida. Uma formiga que passeia pela mesa, que lentamente se aproxima do meu dedo, esse ser minúsculo em relação a mim mas vasto em relação a outros seres, que existe como vontade pura, como um ser inteiro, consigo vê-la como nunca a vi antes, ou como a via quando era criança; a fumaça deste cigarro, que me revela o prazer da minha própria respiração, que tão raramente observo, que tão raramente dou a devida importância, que considero banal, trivial; houve um momento onde respirar devia me causar um espanto ininterrupto. Quando era bebê, quando respirar era estranho, quando era uma das únicas coisas que devia fazer e que eram importantes; o olhar da pessoa que me acompanhou através de todos estes anos, que vi envelhecer ao meu lado, que apenas agora compreendo que me escolheu e que quis estar comigo e com mais ninguém, que por tantos anos havia esquecido e não a via mais, que quando me lembro e a vejo como na primeira vez os momentos que parecem diferentes e distantes se mostram como um só; esses olhares agudos, as revelações súbitas que se aproximam de alguém prestes a morrer, nu de si, por isso próximo de D’us, se fossem prolongadas, se persistissem, se esses despertares que a morte provoca pudessem ser trazidos à nossa experiência comum da vida, se viessem de uma vez, nos mostrariam o significado do que os místicos buscam, do universo transfigurado, da vida na Presença.

Não há base comum na cultura contemporânea para que a experiência religiosa autêntica seja comunicada. De início, o que é uma experiência religiosa? E ainda mais, uma autêntica? A religião sempre foi um caminho de retorno a um estado que se considerava perdido, seja após a queda e à incorrência do pecado original ou aos mecanismos do carma que regem o samsara. Afirmam que esse estado original existe, e que de algum modo nos afastamos dele. Nesse processo de reunião, de recuperação do que foi perdido, somos trazidos de volta à presença do Real, da realidade enquanto tal, e nas formulações mais profundas e misteriosas, ao Ser que é o centro da realidade. A religião enquanto o processo universal de retorno à condição original da vida se perdeu na nossa época. A experiência direta do que isso significa não está mais presente nem no seu corpo teórico e nem ritual. Ninguém mais sabe o que exatamente essas experiências que as fundaram querem dizer.

Ninguém as têm, e os caminhos para atingi-las são raramente ensinados. Nesse ponto a experiência religiosa autêntica, que emana de uma realização direta e não derivada e secundária, é idêntica do que falamos a pouco, da experiência mística. Mas esta não é a via direta. As explicações aquietam a nossa mente e desfazem os inumeráveis nós aos quais nos enredamos no decorrer dos anos. As religiões devem ter sido fundadas por homens e mulheres, hereges, peregrinos, rebeldes, sacerdotisas e profetisas, pessoas que queriam verdadeiramente entender, perceber e realizar o que é esta experiência assombrosa que chamamos de vida e que se mostrou a nós sem que tivéssemos pedido? Sentado na clareira de um bosque onde escrevo estas palavras, sinto uma imensa natureza ao meu redor e que sem dúvida busca fazer contato. Ela não é indiferente. Os índios têm razão quanto a isso. Mas ao mesmo tempo, o que é ela e tudo mais, a minha consciência e os meus sentimentos e sonhos e esperanças e devaneios? O misticismo parte do princípio de que a resposta inteira está aqui, exatamente aqui, neste momento único, neste lugar onde me encontro, e na minha consciência sem a qual nada que percebo é capaz de existir, ao menos para mim, que observo e experimento o mundo. Que se for capaz de ver claramente, de entender claramente e de sentir claramente a realidade irá se mostrar tal como é, sem nada mais ser necessário.

Todos os livros, todas as escolas, todas as filosofias, todas as religiões dependem de algo absolutamente íntimo e ao mesmo tempo universal, e que todos os homens são idênticos na sua capacidade e possibilidade de acesso ao mistério que compõe o mundo, que não está distante. Mas então quando retorno para a contemplação e considero os meus pensamentos, as impressões que me tocam, a grama que farfalha, a abelha que me rodeia, os incontáveis cânticos das cigarras, o roçar da camisa no meu peito, ainda não sou capaz de vislumbrar essa verdade primordial que os místicos insistem estar presente inteiramente agora, no agora que é idêntico em todos os momentos, no agora que é o próprio momento que não faz parte do tempo. Sinto e intuo essa verdade, mas não possuo clareza em relação a ela. Quem sou eu nesse vasto campo de experiência e inteligência? Aquele que é o Ser dos seres, o ser imutável, D’us, onde está? Como posso vê-lo? É ele a realidade fundamental que os místicos dizem estar sempre presente, ‘se as portas da percepção forem limpas’?

Retorno para a minha consciência. Sei que ela é a base para todo o resto; sem ela poderia dizer que nada mais seria. Tudo poderia ser, poderia, apenas. Mas ela é fundamentalmente. Não sinto que ela poderia ser criada. Ela não parece ser uma coisa material. Não consigo agarrá-la, e nem mesmo sei seu a tenho ou se ela tem a mim. Reconheço nisto um mistério profundo. A chamo de minha, de consciência, de realidade, até mesmo de D’us, mas não sei o que ela é. E quando indago desta maneira nem mesmo posso dizer que sei o que sou e por consequência o que tudo ao meu redor finalmente é. Mas certamente é, enormemente, incontestavelmente é. Esse é enorme, a existência pura, o ser em si mesmo — ai parece estar a chave. Mas ela é sutil e difícil de agarrar. Olho para o meu ser e ele parece tão simples que não me causa nenhum espanto. E sem espanto não há contemplação filosófica. Não há misticismo. Não há como avançar. O ser além do pensamento é singelo, insubstancial e ao mesmo tempo sólido — inconstestável. Esse ser é indivisível — não consigo imaginar como poderia ser dividido, como poderia ser uma existência fracionada -, ao mesmo tempo transcendente — não consigo sentir cheiro, nem gosto, nem nada mais nele — e por isso parece uma ficção, algo tão abstrato que provavelmente se trata de uma desordem do pensamento, de um devaneio, de uma névoa interior.

Mas retorno e ele se mostra mais uma vez como a raiz do que sou. Me concentro intensamente nele, e então não sei se sou eu que me concentro nele ou ele que se concentra em mim. Pois o ser não deve ser consciente de si mesmo para ser o ser? A existência não é precisamente a autoconsciência? Se indago assim percebo e sinto que me aproximo de algo místico. De um movimento filosófico autêntico, não teórico, mas fenomenológico. Começo a sentir o que é a minha própria existência. Começo a me lembrar do significado dela. Eu apenas como uma autoconsciência, e não como a pessoa que agora sou, com o seu nome e história e vida própria. Percebo que minha autoconsciência não é minha, não pertence a ninguém — que paradoxo! Aquilo que é mais eu mesmo, sem o qual eu não seria, a ‘minha’ autoconsciência não é de nenhuma maneira minha, não possui dono, ela é livre e puramente autoexistência; ela é por si só. Mas como pode ela ser por si só? Então quem sou eu nisso tudo?

Se D’us está em algum lugar ele deve estar neste ponto. E se isso ainda não me move com impacto total é porque ainda não fui capaz de ver diretamente o que essa ideia significa.Pois de fato é assim que as ideias se mostram, elas gradualmente se tornam mais nítidas, claras, como se estivesse observando uma colina longíqua através de um telescópio; finalmente vejo contornos que não eram claros, reconheço cores que antes não via, percebo variações que não suspeitava. Com as ideias é assim. E quanto mais com uma ideia como essa, seguramente a ideia das ideas, sagrada se algo pode receber esse predicado. Uma ideia sagrada. Perceber a sua sacralidade é começar a entendê-la. O corpo sente quando entendemos uma ideia. Ele responde, ele se excita, ele se perturba, ele se choca; sem a sua resposta estamos apenas no plano das sombras — ainda não chegamos em ideias nítidas o suficiente para que possam nos afetar, nos tocar nas profundezas. A perplexidade é a emoção filosófica por excelência. O assombro. Eu existo, eu existo, eu existo. Como um bebê que pudesse repentinamente ter um pensamento, ‘eu existo, eu sou, eu sinto’; como um homem prestes a morrer que percebe que é, e que todos que foram são como ele e que todos que virão são como ele, pois ele é todos que foram e que virão, pois apenas ele, o homem que nunca nasce e nunca morre, o que os hindus chamam de puroshotama, a grande pessoa, a pessoalidade fundamental que vive todas as vidas pois é todas as vidas. E o que seria desse homem quando percebesse isso? Prestes a morrer, não estaria ele prestes a nascer? Na proximidade de sua morte não perceberia que durante toda a sua vida os seres que ele via eram ele próprio? O ser total e imortal, que nunca nasce e nunca morre?

Não seria este um sentimento suficiente para matá-lo? Talvez não poderíamos imaginar que a morte nos mata nos revelando tudo de uma vez só, tudo de uma vez só, e nesse momento de intensidade máxima, de revelação última, toda a resposta concentrada dessa existência infinita se mostra e esse homem, esse ser que até esse último instante se pensava como um nada, como insignificante num mar indiferente, num mundo que nunca compreendeu, e então nesse momento final, quando a resposta se mostra integralmente, ele salta do finito para o infinito e ele percebe que é o próprio D’us vivo? Que o D’us vivo é tudo isso que parece que não é ele, que aparentemente o oculta, pois se não fosse assim a criação, esse mundo mágico eterno não poderia existir enquanto tal; esse homem então percebe isso tudo, sem pensar, sem nem mesmo piscar, pois os deuses não piscam, no momento da visão não se pisca, não há tempo, não há nada, apenas Ele se vê e nada mais pode ser dito sobre isso. O êxtase de um bebê. O Reino dos céus, se é alguma coisa que possa ser vivida, é como a consciência de um bebê, de um bebê de sete dias. Que apenas na maior e prolongada e torturada e sofrida das entregas e das intempéries e dos desesperos pode se mostrar, pois senão não sobreviveríamos à intensidade e à pureza da revelação. Se D’us se mostrasse de uma vez não seríamos capazes de contê-lo — isso é certo. Colapsaríamos num único instante. Com tremor nos aproximamos do templo, do sanctum sanctorum, com tremor tateamos o mistério — o mysterium tremendum.

Agora retorno para a minha autoconsciência. Ela me tem e não eu a ela. Ela me cria eternamente para a autocontemplação de si mesma. Ela é a divindade, sophia. O conhecimento sagrado, o saber que permite que tudo exista. O saber vivo, cheio de cor e poder, uma infinita semente, um glorioso saber, feminino, consciência da minha consciência, ser do meu ser, sem saber nada, sem poder saber nada sobre você eu sei tudo sobre você, tudo que você me mostrou do que você é. A existência nunca deixará de existir. Eu e você uma coisa só. Nós todos em você uma coisa só. Sem fronteiras. Tudo em Tudo.

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