O tabu de se falar da alma

A alma é um tabu para nós. Não falamos mais a respeito do que nossas vidas significam, e do propósito subjacente ao universo. Ele nos parece frio e opaco. Quando olhamos para dentro de nós mesmo s pouco vemos, ou então vivenciamos um grande redemoinho desordenado de emoções não compreendidas, pensamentos ruidosos e sensações mal apreendidas. Perdemos o caminho do nosso mundo interior. Podemos até dizer que não nos experimentamos mais como almas, como centros de consciência. Perdemos grande parte da subjetividade. Então quando nos defrontamos com dificuldades interiores, da alma, do espírito, não sabemos o que fazer. Os problemas interiores demandam respostas singulares, individuais, o que entra em choque com o espírito de homogeneidade que reina na nossa época.

O despertar também não é um fenômeno facilmente identificável. Ele é súbito, gradual, intenso, sutil, perturbador, extático, desorganizador, integrador — é radicalmente diferente de qualquer processo ou experiência que tenhamos vivenciado. Os escritos de místicos, psicólogos e psiquiatras que reconheceram o processo, como Assagioli, Jung, Grof, Weir Perry e Dabrowski, nos falam de estágios de transformação interior que requerem um amplo processo de maturação.

Como responder a essas demandas na nossa época? Como respondemos a uma crise existencial? Possui ela algum valor intrínseco?

De que modo dialoga com a cultura de hoje? E para onde o despertar nos dirige? E por fim: o que ocorre quando as tensões espirituais da época emergem sistematicamente, em múltiplos contextos, para pessoas das mais diversas? De que modo podemos seguir com o processo que o despertar demanda e ao mesmo tempo vivermos nossas vidas normalmente? Não há respostas fáceis.

Podemos dizer que é grande o número de pessoas que se beneficiaria de uma visão existencial ou espiritual de seus problemas interiores. A grande dificuldade na qual vivemos é que a própria estrutura diagnóstica que utilizamos para entendermos o mundo interior dos indivíduos intensifica o mal-estar no qual se vive.

Quando nos vemos a partir do paradigma de mecanismos cerebrais e atividade neuroquímica tacitamente deixamos nossa experiência humana de lado. Os componentes fisiológicos demonstram as bases que possibilitam a emergência da consciência e suas operações. No entanto, cada vez que reduzimos um problema metafísico ou um transtorno interior a um padrão anômalo de atividade cortical, substituímos a irredudibilidade e primazia da consciência pela estrutura fisiológica correlata subjacente, e lentamente passamos a nos ver como máquinas biológicas sofisticadas e não como consciências que possivelmente estejam em comunhão ou contato com uma realidade transcendental todavia pouco compreendida por nós.

Os estados não-ordinários intrusivos

Temos pouco recursos linguísticos para falarmos de experiências não habituais da realidade. Mas antes disso, é preciso qualificar o ambiente social desta época. Fala-se pouco a respeito daquilo que realmente importa nas nossas vidas. Seja nas famílias, seja entre os casais, seja nas escolas, seja no trabalho, seja na mídia, e até mesmo na arte, esse último reduto da experiência humana autêntica e não-filtrada da vida.

Há um vasta distãncia entre nossas vidas públicas e nossas vidas privadas. Talvez o último lugar onde nossa vida privada possa existir seja no consultório de um psicoterapeuta ou um psiquiatra. Isso por si só já condena a nossa cultura. Se nossos pensamentos e sentimentos mais significativos não podem existir abertamente, então por definição nossa existência autêntica está vedada no espaço cultural. O único caminho nos resta é a anulação da individualidade em prol de um sistema de interação simulada.

Quando lemos as narrativas distópicas do começo do século XX, como o We de Zamyatin, Anthem de Rand, Brave New World de Huxley e 1984 de Orwell, o tema que nos confronta continuamente é a tensão que oprime continuamente os indivíduos que buscam existir num sistema autoritário coletivo e opressivo. Nossa situação política e social se aproxima cada vez mais desses cenários. No entanto, poderíamos dizer que a manifestação externa do autoritarismo implica numa realidade interior compartilhada que há tempos condiciona profundamente a experiência humana. Sabemos que muitos sofrem calados, mas pouco se fala.

O sofrimento de muitos hoje se apresenta silenciosamente e imperceptivelmente como daqueles que viram e sentiram uma verdade que não poderiam reconhecer. Talvez um entendimento sutil que ainda não pode ser colocado em palavras, nem para eles mesmos.

Nossa crise é espiritual, ainda que ocorra fora de qualquer contexto religioso e em muitos casos sem nenhum tipo de conceitos ou sistema teórico que o embase. Um sujeito que entra nesse lugar, nessa posição existencial, está agora num limbo, simbolicamente no purgatório; ele viu as limitações intrínsecas da experiência da vida que o sustentava até então, mas todavia não viu a outra margem, não chegou na realização do céu; tal indíviduo é agora um outsider, para utilizar o termo cunhado por Colin Wilson, em seu livro homônimo de 1956.

O termo é de difícil tradução, então prefiro mantê-lo no original, explicando o seu sentido. Outside quer dizer fora, ou do lado de fora, e o outsider é o indivíduo que vê a cultura de uma perpectiva externa, além da estrutura consensual; de algum modo ele teve um vislumbre do que existe além dela mesma, daquilo que é a sua base fundante, ainda que não o compreenda totalmente. Numa época de espiritualidade sólida e institucionalizada, como a da europa medieval antes da renascença, tais indivíduos, hereges, rebeldes, místicos, eram raros. Muitos eram perseguidos e outros se ocultavam, seja nos escritos alquímicos ou nas tradições das várias escolas secretas. No entanto, numa época de crise espiritual profunda, onde as religiões organizadas já perderam sua força existencial e onde a busca pelo conhecimento científico ilimitado demonstrou seu enorme vazio, um grande número de indivíduos sucumbe aos vislumbres que os abrem para o caminho da espiritualidade, da busca pela transcendência, mas que ao mesmo tempo, inicialmente e por um período possivelmente longo, trazem uma dissolução de seus valores e visão de mundo, deixando-os num limbo de confusão e deriva.

A cultura não é um objeto sólido e bem definido. Ao contrário, ela é uma espécie de teia simbólica que nos une por dentro do mundo, a partir de cada consciência individual. Uma cultura que colapsa é simplesmente um mundo compartilhado que deixa de existir. Por um tempo segue operante como os últimos movimentos de um relógio sem corda.

A cultura é uma visão de mundo, uma narrativa sobre o que é a vida e sobre como ela deve ser vivida. No momento que a cultura — seus valores e instituições — perdem a força afetiva, quando ela deixa de nos mobilizar existencialmente, ela está próxima dos seus últimos suspiros. As consequência disto são vastas. Temos poucos relatos do que ocorreu no período do colapso das civilizações antigas. Não sabemos bem como aquelas pessoas vivenciaram o processo que dissolveu o seu mundo. No entanto, podemos estabelecer alguns pontos importantes. Nossa identidade individual é o nosso elo cultural. Estamos inseridos no sistema cultural por bem ou por mal, quer como seus defensores ou detradores. No entanto, a posição do outsider demonstra um furo na teia. Aquele que já sente instintivamente a falta de realidade da cultura, que percebeu o seu caráter ilusório, está instantaneamente fora dela, antes de qualquer novo movimento cultural ter se estabelecido.

A discussão sobre o colapso, sobre a crise cultural já é por si só o maior sinal da dissolução da cultura enquanto cola simbólica. Os deuses são profundamente reais até o momento trágico onde deixam de ser. Um único membro que deixe de acreditar neles, que questione seus dogmas, pode colocar toda a experiência da coletividade em perigo. Por isso aqueles que viam além da estrutura consensual em outros tempos, ateus na europa religiosa, buscadores místicos dentro das correntes religiosas de todas as épocas, eram perseguidos, banidos e ostracizados. No entanto, as vozes dos que são naturalmente excluídos pela cultura são precisamente as que a cultura precisa para se transformar.

O tabu é a regra tácita que determina aquilo que não pode e não deve ser questionado pelos membros da cultura. Na maior parte das discussões pensamos nos tabus a partir de uma perspectiva limitada, trazendo à tona debates acerca dos costumes arcaicos dos povos originários ou das tensões religiosas na era medieval, pois concebemos que estão distantes da nossa experiência atual. Que estamos livres de tabus. Este é sem dúvida o grande ponto cego da vida contemporânea. O maior tabu diz respeito à validade ou não da nossa experiência individual e íntima como fonte genuína de conhecimento.

Se nossas percepções, sentimentos e pensamentos — nossa voz interior — , devem passar por um comitê para serem aceitas como válidas de consideração, pelo adequação ao modelo científico positivista, ou ao paradigma psiquiátrico que determina a priori o que é válido existencialmente para os sujeitos, ocupando o mesmo lugar que a religião institucionalizada ocupou em outros séculos, então não podemos existir enquanto sujeitos. Nossa ontologia é negada de início. Essa é a dimensão da opressão da consciência coletiva sobre os indivíduos. É possível que um grande número de pessoas sofra silenciosamente por experimentarem uma profunda dissonância entre valores íntimos, espirituais, que não possuem nenhum lugar na nossa cultura. Os sujeitos são levados então a renunciarem a si próprios para poderem existir para um Outro impessoal, sem forma e sem rosto — um sistema vazio e sem vida. Essa é a grande tragédia da experiência contemporânea.

A opressão é uma condição da consciência, um estado internalizado de ser, pensar e sentir no qual a realidade consensual humana é estabelecida e seus valores determinados. A opressão invalida os pensamentos, sentimentos e percepções que temos inerentemente sobre nós mesmos e a vida, substituindo-os por um modo de existência inautêntico e profundamente desenraizado da nossa natureza primordial. Esta condição é universalmente compartilhada e, por isso, torna-se difícil e por vezes impossível reconhecer o caminho de saída, e iniciar o movimento de revalidação de nós mesmos a partir da nossa consciência original, do estado imanente do ser.

Todos policiam inconscientemente a si mesmos e aos outros, e desse modo construem e mantém viva a prisão invisível na qual nascemos e vivemos a maior parte de nossas vidas, com breves rompantes de lucidez que são prontamente ignorados ou racionalizados por miríades de sistemas de pensamento que apenas servem a permanência do estado ilusório de ser no qual vivemos nossas vidas.

Mas mesmo a imensa força da ilusão sobre nós não é capaz de completamente obliterar a infusão da imanência da verdade no nosso ser, de sermos capazes de recuperarmos nossa lembrança essencial da condição original de nossas vidas, como uma possibilidade autêntica de vivermos a partir do real, e não do simulacro, da construção imensa que se tornou o mundo substituto, a realidade paralela que lentamente se tornou a inexorável rede na qual caímos e vivemos nossas vidas e não somos capazes de nos libertar.

A opressão que não depende de muros físicos é sutil e onipresente, fazendo-nos acreditar que somos livres, que o nosso sofrimento é inexorável ou então que a saída da prisão esta distante e que nunca seríamos capazes de atingi-la por nossos próprios meios. No entanto, não é evidente a extensão da nossa opressão quando observamos o nosso próprio sofrimento e de tantos ao nosso redor? Não seria essa a prova mais direta de que há algo profundamente errado com a condição que passamos a considerar o estado normal das coisas?

Fazemos aos outros o que fizeram conosco, e desse modo repetimos o processo que nos introduz no modo ilusório de ser, de pensar, de sentir e de viver. É assim que moldamos nossos filhos e os batimos na ilusão coletiva que assumimos como o único modo de experimentarmos a vida. Os brutalizamos emocionalmente, existencialmente e espiritualmente, sem sabermos, sem vermos o suficiente, e então a roda trágica da repetição do falso estado de consciência que nos assola segue o seu movimento, expandindo o sofrimento humano em todas as direções.

Pensamos que no nosso sofrimento somos diferentes. Que a teia de problemas na qual cada indivíduo está inserido não fala de uma condição comum e que por isso, estamos isolados na nossa ilha da dor e separação. No entanto, a estrutura do nosso sofrimento é universal. A ferida primal que pulsa dentro de nós é a mesma.

Como exemplo, talvez nossa imensa necessidade de controlarmos e termos posses venha a partir de uma compensação fundamental. Sentimos que fomos tolhidos numa extensão ainda não considerada de nós mesmos, daquilo que é genuinamente nossa própriedade privada insubstituível: nossa própria consciência. A consciência individual é inalienável, e o direito a usufruí-la, a determiná-la e a possuí-la é a base sine qua non para que qualquer sociedade humana possa existir. Tendo perdido nossa consciência, nossa única genuína posse, não apenas naturalmente mas transcendentalmente, ainda que sem sabermos ou termos a clara percepção dessa perda, somos levados a buscar no domínio da realidade externa aquilo que foi perdido no mais íntimo de nós mesmos. A terra, os bosques, as árvores e seus frutos, o sol e os seres que permeiam o mundo não são e não podem ser nossa propriedade; não os criamos, deste modo, são passíveis de uso livre por todos os homens. Podemos artificialmente sairmos do centro de equilíbrio natural, e desse modo experimentamos as consequências terríveis que esse desequilíbrio provoca. Mas é preciso compreendermos as raízes psicológicas daquilo que nos foi tirado para podermos compreender a imensa ânsia por posses que nos assola. A terra é naturalmente um lugar imenso e livre. De profunda abundância e generosidade. Quando pensamos de modo oposto e vivenciamos uma realidade dissociada da imensa benevolência natural somos levados a uma busca desenfreada por compensações, por sucedâneos que não podem e não poderão nunca satisfazer nossa necessidade pela união direta e imediata com o princípio da vida em si mesmo. A partir da consciência dissociada e em guerra consigo mesma surge o impulso inconsciente de retorno, uma enorme peregrinação empreendida pela consciência em busca de si mesma, da autoconsciência em busca de si mesma, da trajetória da civilização que no seu colapso provoca inconscientemente a revelação daquilo que lhe é subjacente e que perenemente busca alcançar, ainda que não o saiba e não o veja.

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