O silêncio opressivo de um almoço

Podemos exemplificar a tese a respeito dos tabus velados e sutis da nossa cultura a partir de um retrato familiar. É tabu para um adolescente dizer numa mesa de almoço com seus pais que sua vida não tem sentido. Ele pode sentir isso continuamente, pode ter refletido acerca do suicídio inúmeras vezes, pode até ter se aproximado de uma tentativa de suicídio, mas isso não pode ser dito. Vejamos o que acontece se ele o disser. Há duas opções fundamentais:

1) Pode-se aceitar sua posição existencial, reconhê-lo como sujeito e ouvir o que ele diz como uma asserção válida e plena de significado, ainda que demonstre a rejeição da possibilidade de qualquer sentido para a sua vida. Esta seria a atitude que reconheceria o sujeito: ele agora tem voz. O que diz é ouvido e integrado pelos que o ouvem. Ele possui relevância. No entanto, se ele não vê sentido na sua vida e sua posição é considerada como autêntica, ainda que possivelmente extrema ou pouco lúcida — que por si só já uma qualificação secundária extrínseca a ele — como ficam os pais nesse almoço? O que isso diz das suas vidas? O que isso diz dos seu projeto familiar? Como continua a história? Se abre um ponto de profunda crise. A implicação é vasta, e diz respeito não somente à vida do adolescente, mas à dos pais, do projeto familiar e de toda a cultura.

Como pode alguém estar em sã consciência, lúcido, e afirmar que a vida não possui sentido, e que é preferível a não existência à sua continuidade? Pelo dogma cultural isso é uma contradição essencial. A sanidade desse adolescente seria instantaneamente questionada, sua posição como sujeito, como voz existencial, seria eliminada e sua asserção completamente desconsiderada, o que nos leva à segunda opção:

2) Sua asserção da falta de sentido seria vista precisamente como o maior sinal de que ele não está em sã consciência e que logo, sua voz não deve ser considerada como válida. Perceba que neste caso ele sem notar se colocou na posição que justificaria plenamente o que disse: ser eliminado enquanto voz, ser ignorado enquanto alguém que percebe e sente algo que não pode ser dito, é precisamente o que embasa sua afirmação. Ele então deveria ser tratado. Um psiquiatra o medicaria, pois não há validade existencial para o que dissemos e sentirmos, se este sofrimento não responder a certos pressupostos estreitos do que pode-se sentir e perceber; um psicólogo ou psicoterapeuta buscaria no melhor dos casos ouvi-lo e buscar entender sua posição, ainda que lutando por adaptá-lo ao meio e sutilmente desconsiderando sua validade existencial. Um analista ou terapeuta que realmente se colocasse numa posição de diálogo, de simetria, que reconhecesse a sua voz, e que aceitasse sua asserção, ao menos como ponto de partida, seria necessariamente um outsider e uma figura rara e incomum na nossa cultura contemporânea. Se o adolescente deve ser tratado, se ele está doente por dizer o que sente e pensa, então o que sente e pensa é de início considerado como vazio de significado, simplesmente por ser a nota dissonante na melodia artificial que a cultura busca gerar como justificação si mesma.

Então a questão sobre o diálogo a respeito do suicídio toca num ponto complexo: apenas dizer isso já me colocaria numa posição de doente, já invalidaria a minha voz. A questão perturbadora e que a cultura não se propõe a considerar é: e se ele tiver razão? E se suas relações familiares forem falsas, se sua escola não lhe ensina nada de valor, se o ambiente social e cultural onde vive não lhe apresenta perspectivas, e se a sua rejeição profunda da vida seja o maior sinal de que algo está profundamente errado no sistema cultural? E se a vida dentro desse sistema se tornou realmente impossível, em termos espirituais? Nossos corpos existem, persistem, mas talvez nossos espíritos não — o que tiver sobrado deles. E se o próprio reconhecimento disso já for imediatamente tolhido, pela própria posição de absoluta debilidade na qual a cultura se encontra, como fica a posição do adolescente que soa o alarme? Se a cultura não tem respostas para isso, então ouvir o alarme instantaneamente se torna um tabu, pois é uma ameaça para a normalidade da coletividade.

O adolescente é apenas um caso num vasto drama cultural de sujeitos sem voz, sistematicamente desprovidos de voz, mas cuja palavra é absolutamente necessária se a cultura quiser curar a si mesma e se transformar. Na hierarquia do saber, uma criança ou um adolescente ocupa o lugar mais baixo de todos — na verdade nem mesmo isso, de fato um não-lugar. Sua voz apenas é relevante enquanto um sintoma, enquanto um problema a ser resolvido por aqueles que sabem mais. Nenhuma verdade sobre a vida pode advir de um adolescente — pensamos. Ele é imaturo e desprovido de saber, seu córtex préfrontal todavia não se desenvolveu o suficiente; porque eles seriam ouvidos por nós, adultos, que também uma vez ocupamos esse lugar? Por qual motivo essa humildade misteriosa que nos colocaria abertos para o que tem a dizer, em seus próprios termos, se manifestaria?

No entanto, a pergunta genuína e honesta a ser feita é: mas o que eles sentem não é também um sinal dos tempos? O seu sofrimento não fala das suas dificuldades ontológicas de se inserirem num mundo espiritualmente descarrilhado que qualquer um, com o menor grau de lucidez, é perfeitamente capaz de perceber e reconhecer, ainda que com hesitação e temor e tremor? No almoço, talvez haveria uma terceira opção. O sofrimento do adolescente não existe num vácuo. Se ele sofre assim então algo também deve esta sendo vivido pelos seus pais, pelas pessoas ao seu redor. Diferente do que se pode pensar, não somos bolhas ou ilhas isoladas. Na verdade a grande tragédia da nossa época é o fato de quão próximos estamos no nosso sofrimento e nos nosso anseios, e ao mesmo tempo, quão longe estamos de um reconhecimento comum deste fato. Isto nos leva ao seguinte ponto: talvez o pai nos seus momentos de solidão sinta agudamente o sofrimento de sua vida, talvez ele se sinta tão sozinho quanto seu filho se sente; talvez a mãe também, já não seja capaz de manter as aparências, de sacrificar a si mesma por um ideal que está gasto e desfeito. Talvez os três sintam o mesmo, a partir de lugares diferentes, de momentos existenciais opostos e de visões de mundo aparentemente distintas.

No seu sofrimento, no seu isolamento e distanciamento, são idênticos: aquilo que há de mais pessoal e significativo neles foi deixado de lado há muito tempo, por uma narrativa que já não serve a nenhum e mais, já os oprime profundamente. Pois se num momento de crise intensa, cada um fosse capaz de se despir de seu papel, se cada um se reconhecesse na sua humanidade oculta, no seu sofrimento obscuro e solitário, poderiam se encontrar mais uma vez, num lugar comum, e a partir dessa abertura reconhecer aquilo que havia sido perdido. O que foi perdido nessa alegoria familiar é o que foi perdido no campo mais amplo da cultura, esse indizível sentido que nos une e sem o qual a vida comum deixa de existir.

Seres que representam para si mesmos e para os outros carecem de ser real. Ausentes de si mesmos, apenas uma contínua atenção pode mantê-los vivos. Não será por isso que nossa cultura é obsecada pela fama e pelo reconhecimento? Por existirmos muito pouco, seja para nós mesmos no nosso íntimo ou para os outros, que também não nos veem, já que não se veem, e todos numa peça interminável sem alma e sem propósito? ‘Full of sound and fury, signifying nothing’.

Esse elo comum, esse nó de intimidade amorosa é o que mantém uma cultura viva, uma comunidade viva. Carentes deste vínculo, somos desprovidos do nosso ser. Então paulatinamente desprovemos os outros de seus seres, sejam eles os nossos filhos ou os intermináveis estranhos na banalidade do cotidiano. Todos distantes, todos estranhos, todos sós, todos idênticos.

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