Os descaminhos da espiritualidade

Não é possível subestimar o quanto o campo que chamamos de ‘espiritualidade’ é praticamente idêntico à grande parte das ilusões e dogmas que compõe as religiões desde o início da humanidade. Os homens pouco se transformam. Tudo realmente segue igual. Devemos esquecer os ‘mestres’ e nos tornar adultos de uma vez. Transcender projeções lançadas sobre homens e mulheres que na melhor das hipóteses servem de canal para uma inteligência além deles próprios. Mas que são idênticos a cada um de nós na sua essência. Os gurus e mestres são exaltados pois servem de foco ilusório para que uma busca fantasiosa siga sua marcha. E nesse processo pouco deve ser questionado e desconstruído; tudo está relativamente pronto do começo ao fim. Peça instruções a uma grande árvore, aos pássaros, às águas, às crianças e aos velhos. Não permita que personagens ‘espiritualizados’ sigam representando papéis que alimentam o vão espetáculo do mundo. Uma pessoa determinada, sincera e suficientemente desesperada por encontrar algo verdadeiro dentro de si mesma não pode ser contida; ela instantaneamente mobilizará a força de despertar intrínseca ao cosmos. Esse poder ninguém sabe o que é. Ele é reconhecido desde os primórdios e é a fonte de nossa consciência e existência. O objetivo primeiro e final de qualquer busca, caminho ou o que for é uma reconexão íntima e total com a consciência onipresente que não depende de nada além dela mesma. De fato é ela que desperta; não há iluminação pessoal pois a pessoa é um ente imaginário dentro de uma história que é real apenas para ela mesma. Você não deve nenhuma reverência a não ser a si próprio. Quando reverencia o Si-mesmo toca em algo que é naturalmente digno, belo e divino. ‘A alma nobre possui reverência por si mesma’. É um paradoxo. Somos secretamente ensinados a rejeitarmos a nós mesmos, e dessa abnegação primal emerge uma enorme necessidade de ampliação de uma individualidade ilusória que de outro modo estaria em perfeita harmonia consigo mesma. Se tivésssemos a mais pequena parcela de consciência do quão extraordinárias são as nossas faculdades, o nosso mundo interior, os potenciais ocultos da mente, do coração, e do corpo, instantaneamente viveríamos numa benção contínua por sermos exatamente o que já somos. Essa clareza instintiva nos falta. Nitidez ontológica. Reconhecer o mais simples e absoluto dos fatos na sua total dimensão nos libertaria completamente. A iluminação é exatamente esta consciência que faz o universo inteiro brilhar e pulsar. Exatamente ela e nada além.