Vislumbres do despertar

Há um despertar para uma ordem de realidade mais profunda que a nossa. Esse despertar é o evento central desta época. Nossa mente se abre e o pano de fundo da realidade se mostra. Poderíamos chamá-lo de muitos nomes. É o encontro com a Essência, o Vazio, A Mente Única, D’us — não importa. A realização é a mesma. É assombrosa, gloriosa, estranha e misteriosa. Nos tornamos o grande ser que contém tudo que existe — pessoas, árvores, carros, ideias, emoções — ; o cosmos inteiro. E ele se vê através de nós. A mente que sustenta a realidade finalmente entende a sua própria natureza. Ela realiza através de um salto intuitivo a sua unidade intrínseca. Os milhares de anos de evolução finalmente realizam a sua meta, num único momento de percepção completamente lúcida.

A mente contempla com maravilhamento um evento de magnitude cósmica. O universo por um instante reconhece a si mesmo enquanto uma totalidade viva através de um ente de carne e osso, que pensa, deseja, sofre e almeja pela salvação de sua alma e pela transcendência de sua condição. Nós somos pessoas com histórias, problemas e dúvidas, mas, ao mesmo tempo, somos a Mente que mantém o universo vivo.

Muitas pessoas estão tendo essa realização. E podemos nos perguntar, por que agora, numa escala coletiva? Talvez tenhamos chegado ao limite do que a nossa consciência atual é capaz de suportar e compreender. Os problemas se multiplicaram. A experiência da vida perdeu o seu centro. Já não sabemos mais o que ela é. E isso é sentido por todos por trás de um espesso véu.

O real nos chama para além de nós mesmos. A voz sutil além dos pensamentos comuns. Cada um de nós conhece esses momentos de iluminação súbita. De uma forma de percepção que escapa à vida diária. E nem sempre a luz emerge como uma graça. Por vezes surge através da dor e do desespero. Mas uma janela foi aberta. Não somos capazes de esquecer. Os vislumbres são a promessa silenciosa de um estado de ser que supera a nossa condição.

Por vezes pensamos que o chamado é uma fantasia. Que nos iludimos e persistimos numa direção que nos deixará de mãos vazias. Mas quando o recusamos ele nos assombra. Uma parte de nós já não se encaixa mais na experiência comum da vida. Esse tênue incômodo cresce e gradualmente nos mostra o significado do ser. Do que é feito o nosso ser que nunca observamos. Que consideramos trivial. Que por ser tão simples não damos atenção. Mas então suspeitamos que do ser o universo inteiro depende. Que nele nos tornamos o universal e escapamos da prisão de nós mesmos. Mas isso não perdura. São percepções sutis e fugidias. São aberturas à revelação do Ser.

O ser além de nós mesmos nos busca para um encontro. Se podemos dizer alguma coisa a respeito disso é que somente o assombro nos dá palavras. Nunca seria possível acreditar que nisso que supúnhamos ser a nossa consciência simples e pessoal estaria a porta para a realidade transcendental que tanto almejamos sem saber. Mas está lá. A nossa inteligência não é nossa. Queremos estabelecer um contato com outros que também sentem e perscrutam o seu ser, e ali encontraram o Ser que não pode ser facilmente posto em palavras. Talvez muitos vivam silenciosamente um estado de percepção que anseia poderosamente por entrar no mundo, num mundo que ainda não reconhece a natureza central do Ser que nos constitui, mas que brevemente verá mais e mais a sua irrupção nas nossas vidas. Estamos numa comunhão direta, todos nós, por trás de um véu físico que não é capaz de nos distanciar, ainda que a aparência seja essa. Se nossa identificação contínua com o nosso personagem individual cessar, ainda que temporariamente, o ser que contém o universo se mostrará como a substância daquilo que é mais íntimo em nós mesmos.

Nosso labirinto é um mundo imaginário que colocamos no centro da realidade. A inversão foi completa, mas não percebemos. A saída é instantânea, porém aparentemente impossível. Cada um de nós carrega uma faísca da luz primordial que jaz além do mundo no qual existimos. Essa faísca é a base do mundo inteiro, mas não a percebemos. Não fomos ensinados a reconhecê-la. Ninguém ao nosso redor o faz. Sofremos um batismo na ilusão, mas não o sabemos. No entanto, a voz nos chama sempre. Se nos aquietamos podemos percebê-la no espaço onde o mundo cessa dentro de nós mesmos. No espaço onde nós mesmos cessamos. Nosso corpo também responde intensamente a ela. O corpo é arcaico, e se lembra do que a nossa mente raramente é capaz de alcançar. Ele possui a reminiscência de uma era onde vivia imerso num estado de percepção contínua do ser que é a essência da natureza. Nas suas pulsões ele perturba a massa de ilusões que se tornaram o centro da experiência que temos de nós mesmos. Ele nos transporta imediatamente à realidade silenciosa e primal da vida em comunhão direta com o Absoluto. À expressividade pura de uma vida que busca emergir após séculos e milênios de um casulo que já não a comporta mais. Todos nós podemos sentir esses movimentos sutis e por vezes intensos do Ser. De um corpo que busca o renascimento na vida do espírito. De uma existência que busca a transfiguração. Sabemos que há algo além de nós mesmos. Talvez esse desejo intenso seja por si mesmo a prova que buscamos. Se persistirmos veremos o Ser que aparentemente desapareceu do mundo, mas que é em verdade a causa primária e o motivo final para a existência do mundo. E não como uma abstração ou uma percepção externa a nós mesmos, mas como aquilo que há de mais em íntimo em nós, do Ser do nosso ser; e ali encontraremos um segredo impossível de ser descrito, a existência inteira vista através dos olhos do Ser único, que na sua jornada, na sua odisséia interminável, vive todas as vidas e alimenta tudo que existe, pois apenas Ele é.

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