Tarugo: uma relação de afeto entre produtos e pessoas.

Projeto Te Alui
Jul 23, 2017 · 7 min read

Tarugo é uma pequena peça de formato cilíndrico utilizada na marcenaria para unir outras duas peças, tornando-as uma só, e foi com esse pensamento que o arquiteto Rafael Studart criou a Tarugo Design. A ideia é que seus produtos possam passar de pai pra filho, em uma relação duradoura.

Nessa busca de criar laços efetivos com seus consumidores, a marca surge como resposta ao culto do efêmero e se mostra disposta a permanecer atemporal em um mercado tão rotativo.

Tupac, Totó e Garrafeira Zuzu — Reprodução: Instagram @tarugodesign

Em uma conversa com o Te Alui, Rafael falou sobre sua marca, os desafios e conquistas e a relação de afeto entre seus produtos e quem os consome.

Entrevista

Te Alui: Como surgiu a marca?

Rafael Studart: A Tarugo surgiu quase como uma necessidade de expressar um lado meu que eu pouco expressava quando eu trabalhava com arquitetura. Nós somos uma empresa que trabalha basicamente com mobiliário, peças de pequeno porte, e o objetivo é criar peças que tenham um vínculo emocional com usuário.

Tarugo é uma pequena peça de madeira, que junta outras duas peças, criando vínculo e esse é o nosso objetivo: juntar pessoas e objetos em uma relação duradoura, tanto pela qualidade do produto, como pelo emocional. Pra mim o mais legal é aquele móvel que é da casa da minha avó, da casa da minha mãe, e eu quero que daqui há 20 anos alguém fale “Ah, esse banquinho era da casa minha mãe, é do caralho, quero na minha casa”.

Te Alui: Quais os principais desafios enfrentados pela Tarugo?

Rafael Studart: Algumas problemáticas são recorrentes, independente do campo de atuação do design. Primeiro, quando você fala de produção, eu tenho, por exemplo, uma dificuldade enorme de comprar madeira no Ceará, de qualidade. Eu compro mais barato em São Paulo, pagando frete, e chegando aqui no Ceará fica pela metade do preço que eu pagaria comprando de uma madeireira daqui, então é uma dificuldade, é uma logística a mais que não precisaria ter. No meu caso, equipamento, tudo isso teve que ser comprado, o galpãozinho que eu construí, tudo devagarzinho pra gente poder nascer do jeito certo, então acho que isso é uma dificuldade enorme.

Segundo é uma resistência do cearense padrão, digamos assim, de consumir design cearense. Quando falo com meus amigos que são arquitetos, publicitários, descolados, eles acham incrível fortalecer esse cenário, fazer esse embrião crescer pra que a gente tenha coisas legais, mas pra maioria das pessoas, bom mesmo é você comprar do cara de São Paulo, então essa coisa da validação, é muito faca de dois gumes. É um problema, mas ao mesmo tempo se você consegue ter um produto em qualquer lugar em São Paulo, você passa a ser consumido automático, como um selo de aprovação, agora você é bom! Então é preciso ser esperto com isso aí: “Ah, eu vou primeiro pra São Paulo, vou fazer um negócio lá, e quando eu voltar, volto maior”, aos olhos de quem ficou aqui.

Eu compro mais barato em São Paulo, pagando frete, e chegando aqui no Ceará fica pela metade do preço que eu pagaria comprando de uma madeireira daqui, então é uma dificuldade, é uma logística a mais que não precisaria ter.

Te Alui: O que de melhor já aconteceu com a marca?

Rafael Studart: Algumas coisas legais já aconteceram. A gente ganhou o prêmio Objeto Brasil, com o Tupac, que é um produto meu e do Felipe Naur. Fomos finalistas do Salão Design, tanto com o Tupac, quanto com a Garrafeira Zuzu. Em 2012, 2013, a gente fez um projeto eu, Davi Deusdara, Tais Costa e a Érika Martins que chama U Rock Chair, onde participamos de um concurso internacional e ficamos entre os cinco finalistas. Isso fez com que a gente fosse pra Nova York duas vezes expor, fizemos uma exposição no Museu de Arte e Design de NY, depois fomos pro México pra fazer essa mesma exposição, isso na realidade pra mim foi o momento que eu falei que queria trabalhar com mobiliário.

U Rock Chair — Reprodução: Behance

Te Alui: Quem consome a Tarugo hoje?

Rafael Studart: Quem consome a Tarugo sou eu, digamos assim. A Tarugo, quando a gente criou, eu precisei desenhar um avatar, um público alvo. E aí eu determinei, a gente determinou que o consumidor da Tarugo tá montando o primeiro apartamento, seja comprando ou alugando, ele é um cara que é da web, mesmo não sendo viajado fisicamente, ele vai através dos átomos, dos bytes, ele chega nos átomos através dos bytes, e é um cara descolado ou uma mulher descolada, então eu digo que o público da Tarugo é o público do primeiro apartamento. A gente tem projetado pra que o produto se insira nesse público, mas que ele consiga envelhecer bem junto com o cara, que ele não seja descartável. Que o cara olhe e não pense que a peça é fun demais, divertida demais e não combina mais com ele e isso é uma armadilha. Tem que ter cuidado pra você não fazer um produto fun demais e aí ele não durar. Lentamente se você não desiste, os resultados vão aparecendo, que é o que tá acontecendo com a Tarugo agora.

A gente tem projetado pra que o produto se insira nesse público, mas que ele consiga envelhecer bem junto com o cara, que ele não seja descartável.

Te Alui: Qual a vitrine da Tarugo? Onde os produtos são vistos?

Rafael Studart: Hoje em dia, esse talvez seja o meu maior problema, que é o canal de vendas. Eu vendo através de feira, sempre que tem Babado, tem Jardim de Ofício, a gente tá participando, e eu tava com um site montado, mas eu não tinha recurso suficiente pra tornar ele visível, então hoje o site da Tarugo é um portfólio. A gente fechou uma parceria bem legal agora com a Muma, que é uma loja de Recife, concorrente online direta da Oppa. Eles são um pouco menores, mas são concorrentes diretos da Oppa. E estão com uma linha bem forte de design nordestino, o que é muito legal também. Vamos vender na Arco Design, também online. A partir de agosto a gente vai participar da feira Rosenbaum, em São Paulo, e aí eu tô buscando, porque eu não quero que precise do produto ter que ficar caro demais. Quando você começa a trabalhar com loja, tem muito intermediador que o produto incha, né? As margens tem que ser inchadas. Acaba ficando muito pouco pra quem produz, muito pouco pra quem vende e o cliente acaba pagando muito caro por esse mesmo produto, então por isso é importante esse ciclo direto produção-vendas.

Te Alui: Qual a característica do design cearense?

Rafael Studart: Acho que o design cearense, especialmente o design de produto, que é a minha área, é desenrolado. Em Fortaleza, especificamente, é muito complicado produzir, então a pessoa tem que ter jogo de cintura pra poder ir atrás de fornecedor e montar seu próprio espaço pra produzir. Você meio que tem que sair catando as coisas e aí fazer elas casarem, projeto e execução, pra que seja possível ter um produto de design completo.

Em Fortaleza, especificamente, é muito complicado produzir, então a pessoa tem que ter jogo de cintura pra poder ir atrás de fornecedor e montar seu próprio espaço pra produzir.

Te Alui: Por que é importante valorizar o que é produzido aqui?

Rafael Studart: Eu acho que não só o design, é importante a gente valorizar o que é produzido no Ceará. Quando você valoriza o que é produzido, tudo melhora. A economia do local, você tá levando dinheiro pra pessoas que às vezes não tem. Eu acho importantíssimo esse papel social, de produzir e consumir no local. Vai além do design, é só uma parcela. O dinheiro tem que girar dentro do nosso próprio estado, na nossa própria cidade, pras pessoas que estão aqui perto da gente, pra haver um crescimento real, de fato. Nós temos um volume enorme de produções, de elementos culturais que são super interessantes e pouco explorados. E isso vem de uma característica do próprio cearense em si, de buscar aceitação fora pra poder trabalhar aqui, então a gente tenta produzir muito pra fora e entra na máxima que acha que é real, assim o consumidor local passa a te consumir, não o contrário. Algumas marcas já estão fazendo isso e a gente também tá tentando com a Tarugo.

Serviço:
Tarugo Design
Instagram: @tarugodesign / @rafael_stu
Site: tarugodesign.com.br

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