Atavismos Tifonianos

O uso dos instintos primordiais na Magia

Xaoz Ars Magicae
Sep 1, 2018 · 8 min read

As vertentes draconianas buscam entender os impulsos primordiais da parte reptiliana do cérebro humano para seu uso em rituais, a favor do magista. Neste sentido, algumas correntes têm como foco uma manifestação energeticamente masculina desta energia, Tifão, a Vontade Primordial, enquanto outras têm como foco uma manifestação energeticamente feminina, Tiamat, a Mãe Primordial de toda a Forma. Como pontos em comum, temos o caráter poderoso e primitivo das energias, que devem ser manuseadas com cuidado e após muita preparação, sem juízo moral de “bem” e “mal”, para que seu uso seja o mais vantajoso possível.

Tifão

TIfão, também chamado Tífon, Tufão ou Typhos, é um monstro primordial na mitologia grega, filho de Gaia e do Tártaro. Representa as forças telúricas implacáveis, a imprevisibilidade e o ímpeto da Terra não compreendida ou controlada pelo Homem.

É pai de diversos monstros, entre eles o Leão de Nemeia, Cérbero, a Hidra de Lerna e a Esfinge, além de causar ventos marítimos violentos. Foi gerado pelos pais para vingar a morte dos Titãs pelos deuses do Olimpo, e além dele próprio ser um dragão, dizia-se que de cada um de seus ombros saíam 50 dragões, completando 100 no total. Suas asas iam desde o Oriente até o Ocidente, e chamas saíam de sua boca.

No mito da derrota de Tifão e seus filhos, os deuses se unem, cada um com sua expertise e seus talentos. As parcas lhe dão de comer alguns frutos que lhe enfraquecem, e Hermes o engana para que Zeus consiga recuperar seus raios que Tifão havia roubado. Do sangue jorrado surgem montanhas, e o barulho da batalha desperta Hades, que ao subir à superfície fica apaixonado e inicia seus planos de raptar Perséfone.

Imagem: Tifão, por Wenceslas Hollar.

O Culto Tifoniano

Em 1972, Kenneth Grant publicou o primeiro volume das Trilogias Tifonianas: O Renascer da Magia. Este livro, assim como os que vieram a seguir, seriam a pedra fundamental para o público geral — externo à Ordem — sobre o que é a Corrente Tifoniana. Extensamente influenciada pelos trabalhos de Aleister Crowley, esta Corrente tinha como base os poderes primordiais de Dinastias Obscuras capazes de manipular os rumos dos Aeons.

Tifão era peça fundamental no Culto Tifoniano, embora tomando várias roupagens. No Egito, teria sido representado pela deusa primordial Taweret, uma hipopótama grávida com partes de outros animais. Também seria associado a Set e em menor grau a Thoth em sua manifestação de babuíno. Na mitologia judaico-cristã, seria associado ao Behemoth (que na Suméria poderia ser Ba’al-Mot, Senhor da Morte) e ao próprio Satã. Na astrologia, é associado à Ursa Maior e à sua principal estrela Sothis ou Sírius.

Imagem: Hórus e Taweret em mural egípcio.

O Culto Tifoniano tem base dracônica, por tratar de entidades primordiais de imenso poder e que representam tanto os instintos mais profundos da mente (a serpente) quanto os elementos mais elevados do Cosmos (com asas). Trata de entidades que viveriam no submundo mas que também vivem além das estrelas mais longínquas, e em outros planos de existência (o que está acima é como o que está abaixo). Do ponto de vista mecanicista, a própria estrela Sírius seria o Sol Negro, o centro indetectável de gravidade que influencia nosso Sistema Solar, ao redor do qual o próprio Sol orbitaria.

Muitas vezes, estas entidades são entendidas como análogas às entidades descritas por H. P. Lovecraft, e daí surgiu uma importante vertente onde as obras Lovecraftianas desempenham papel fundamental.

Atavismos

Atavismo: (1) reaparição em um descendente de caracteres de um ascendente remoto e que permaneceram latentes por várias gerações; (2) hereditariedade biológica de características psicológicas, intelectuais, comportamentais; (3) retorno a um estilo, uso, ponto de vista, enfoque etc” — Google dicionário.

Os atavismos são definidos no arcabouço Tifoniano, sob uma perspectiva mágica, como traços animais que estão dormentes no cérebro humano e que podem ser despertados por meio de ritos específicos, como os de assunção de Forma-Deus que eram realizados por xamãs de diversos povos e por sacerdotes egípcios.

Segundo Grant, em Aleister Crowley e o Deus Oculto, “o subconsciente pode ser considerado como uma série de camadas que contêm faculdades e poderes que se estendem indefinidamente. Cada fase da evolução, da aquática à humana, é caracterizada por vários poderes, e conforme novos se desenvolvem, outros tornam-se obsoletos e ficam para trás. Eles ficam latentes, podendo ser novamente despertos por meios mágicos”.

Estes atavismos, quando não compreendidos e trazidos à luz, podem gerar uma obsessão que irá vampirizar o subconsciente do Ser e possivelmente irromper em surtos psiquiátricos, de raiva ou de sofrimento. Quando compreendidos, por outro lado, podem ser usados para finalidades mágicas.

A Fórmula da Besta

Diversas mitologias citam o que seria uma versão prototípica da Fórmula da Besta, codificada em alegorias e em metáforas que permitem entrever seu verdadeiro cerne.

  • Zeus se une a jovens na forma de cisne, touro e de uma nuvem dourada;
  • Loki dá origem ao veloz Sleipnir junto a um garanhão;
  • a Virgem Maria recebe a visita do pombo Espírito Santo e gera Jesus;
  • a Bela se apaixona pela Fera e sua união causa a quebra da maldição;
  • a russa Catarina, a Grande, e seu cavalo (caso histórico, inclusive).
Imagem: o rapto de Europa, por Nöel-Nicolas Coypel.

Em todas estas uniões com bestas, surgem filhos dotados de poderes mágicos, e é isso o que a fórmula busca replicar. A fórmula é bem simples: “uma besta se une a um(a) virgem e juntos geram um filho mágico”. A interpretação desta frase, por sua vez, é complexa e dá margem a vários rituais que buscam reencenar o mito.

Nos rituais Tifonianos, a “besta” é encenada pelo sacerdote, que invoca um atavismo e se torna imbuído do intuito mágico específico que é o objetivo do ritual. A sacerdotisa ou mulher escarlate se purifica, tornando-se a “virgem”, e prepara seu corpo para receber a semente do intuito e materializá-la. O “filho” não será necessariamente físico, e pode surgir no astral como um ser de energia mágica que migra até o local especificado para realizar seu intuito.

Neste sentido, os atavismos são importantes para que o sacerdote possa assumir a forma-deus adequada e assim se tornar a própria besta da fórmula — princípio masculino, o criativo, o intento. A mulher escarlate irá ancorar este intento no plano astral — princípio feminino, o receptivo, a forma.

Em alguns rituais, a “virgem” pode ser mimetizada pela “virgem de pedra”, uma estrutura feita de algum material liso e resistente para inserção do pênis do magista, posicionando-se o selo que será ativado no fundo do canal.

Selamento de Atavismos

Em uma outra utilização dos atavismos para fins mágicos, Grant recorre a uma técnica que já havia sido utilizada por Austin Osman Spare em seu Livro do Prazer. Consiste em “traduzir conteúdos mentais na forma de sigilos que podem ser usados a favor do magista”. Estes conteúdos podem ser os mais gerais possíveis — como aqueles que vieram a se tornar o Alfabeto do Desejo de Spare — ou podem ser conteúdos que causavam sofrimento ao magista, e dos quais ele gostaria de se ver livre, pois o vampirizavam e atribulavam sua mente — como aqueles que vieram a se tornar “autômatos elementais” na visão de Spare.

Imagem: ascenção do Ego de Êxtase a Êxtase, por Austin Osman Spare em seu Livro do Prazer (1913).

A sigilização ou selamento dos atavismos pode ser feita pensando-se sobre as qualidades não desejadas, tentando-se emular na mente estas qualidades ou lembrar dos momentos nos quais elas se apresentaram, e desenhando-se automaticamente o que quiser fluir para o papel no momento. A escrita automática, então, irá gerar um desenho, que pode ser melhorado e aprimorado para uso posterior. Sempre que a mente do magista retornar àquele atavismo, antes incontrolável, deve-se visualizar que o sentimento está sendo movido para o papel e carregando o sigilo. O sentimento irá passar, e o selo ficará imbuído de uma energia que pode ser utilizada para gerar um servidor ou elemental artificial que trabalhe a favor do magista.

Esta técnica é muito similar a uma das possíveis origens da Goécia, uma vez que há certos daemons e demônios que claramente estão ligados a sentimentos e a conceitos sociais, o que também se observa no caso dos cacodaemons gregos. O demônio da ira Asmodeus, por exemplo, pode ser usado a favor do magista para obter conhecimento, por meio do selo que foi criado para controlá-lo.

Atavismos Futuros

Grant cita ainda uma terceira utilidade dos atavismos, mais complexa, que seria a de antecipar conteúdos. Neste caso, entende-se que a linha unidirecional do tempo, como a conhecemos, é apenas uma ilusão da consciência, e que os planos sutis podem fluir livremente por esta dimensão temporal. Assim, entende-se que o cérebro humano passa por certos atavismos passados que podem ser retomados no futuro, mas também passará por alguns atavismos futuros que podem ser antecipados no passado.

Imagem: linguagem temporalmente cíclica, no filme A Chegada.

Neste sentido, os grandes breakthroughs tecnológicos seriam uma antecipação de atavismos futuros pelos seus inventores. Artistas podem ter lampejos de criatividade, que são interpretados como leituras, no presente, de conteúdos futuros que estão fluindo no espaço-tempo astral. Em um sentido prático, portanto, o magista pode realizar esta antecipação usando sua vontade e direcionamento conscientes, e assim fazer com que o destino se encaminhe na direção do atavismo que antecipou.

Para isto, é necessário que o magista “mentalize profundamente como irá se sentir no futuro, quando um evento desejado ocorrer”. Esta prática considera que o evento ocorrerá, portanto deixará uma marca no subconsciente do magista quando ocorrer. No presente, então, o magista antecipa este sentimento, e é antecipando-o que leva o evento a ocorrer, de forma cíclica.

Este é o princípio, de forma geral, da Lei da Atração e de alguns métodos mágico-psicológicos que se baseiam em declarar o intento na forma “o evento já ocorreu”.

Baqueta Dupla

Pelo uso dos Atavismos, que têm como base a dimensão poderosa, instintiva e primordial dos cultos draconianos — e, nesse caso, principalmente das Correntes Tifonianas — o microcosmos do magista pode ser cocriado por ele mesmo.

Assim, ele se torna o senhor da baqueta dupla, o Um depois do Dez, o número 11, que caracteriza a Mágicka.

Imagem: o senhor da baqueta dupla no Universo, do Tarot de Crowley, e no Mundo, do Tarot de Marselha.

Por: RoYaL.

Referências: Junito Brandão — Dicionário Mítico-Etimológico; Kenneth Grant — O Renascer da Magia; Kenneth Grant — Aleister Crowley e o Deus Oculto.

Xaoz Ars Magicae

Written by

Este projeto visa compilar, analisar e desenvolver as bases do conhecimento de sistemas mágicos, afim de propiciar suporte aos que estão trilhando este caminho.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade