Cuidado com a Tulpa!

Definições e diferenças no Oriente e no Ocidente

Xaoz Ars Magicae
Mar 24, 2018 · 6 min read

No Ocidente, muito se fala em lendas urbanas que ganham vida e se alimentam do medo exalado pelas vítimas. Diversos filmes se baseiam nesta ideia, alguns deles com teor criptozoológico (criaturas biológicas desconhecidas da ciência), como Olhos Famintos, e outros com teor psicológico, como Babadook, e há mesmo uma sobreposição com questões relacionadas a espíritos obsessores, como verificado em A Invocação do Mal.

A denominação geral dada a estas entidades, no Ocidente, vem sendo o conceito de “Tulpa”, por analogia com as Tulpas Tibetanas, conhecidas desde tempo imemoriais. Atualmente o termo tem sido inclusive estendido a Servidores que tiveram alimentação energética exagerada, e passaram a descumprir seus contratos pré-estabelecidos, adquirindo senciência e livre arbítrio. Porém, há diferenças substanciais entre as Tulpas Ocidentais e as Tulpas Orientais, permitindo concluir que se tratam de duas classes diferentes de entidades.

Imagem: cena do filme Babadook.

Tulpas Tibetanas

As Tulpas são citadas em diversos textos referentes aos ensinamentos do budismo tibetano, compilados em sua versão mais conhecida por volta do ano 1300 na forma do Kangyur (A Tradução da Palavra) e do Tengyur (A Tradução dos Tratados).

Em tibetano, “sprul ba” significa emanar, manifestar ou exibir. Em sânscrito, “nirmanakaya” é a palavra mais próxima, e denomina o corpo formado por um Buddha no mundo físico para transmitir seus ensinamentos às pessoas que necessitam deles. Em inglês, a palavra tibetana é transliterada como tülku.

Em um significado mais geral, “sprul” é utilizado para se referir às ilusões geradas por mágicos ou ilusionistas, e às formas-pensamento criadas na Magia Tibetana, sempre mediante forte intenção e de forma proposital. De fato, a gramática tibetana distingue verbos ativos de verbos passivos, e neste sentido a palavra se refere somente a uma manifestação realizada de forma proposital.

Formas-Pensamento

Por volta de 1890, o conceito de formas-pensamento, que já era amplamente conhecido, foi estudado e aprimorado pela Teosofia. O novo conceito adquirido se referia a qualquer forma — animada ou não — manifestada a partir de um pensamento — de forma proposital ou não. Embora ainda não tivesse sido relacionado diretamente às Tulpas, estas formas-pensamento eram definidas de forma bem próxima à que seria imputada posteriormente às Tulpas Tibetanas.

Formas-pensamento são corpos compostos de matéria astral ou ectoplasma. Possuem uma existência independente do magista, e são externas ao mesmo. Podem ou não ser vistas por outros magistas, no plano astral ou mesmo no plano físico, sendo perceptíveis também por um ou mais sentidos. Além disso, podem ser moldadas, criadas e destruídas de acordo com a vontade de seu criador, bem como influenciadas por outros adeptos da arte mágica.

Imagem: forma-pensamento da música de Charles Gounod, de acordo com Annie Besant e C.W. Leadbeater, apresentada em seu livro “thought-forms”.

Uma Tulpa na Golden Dawn

A primeira documentação extensamente publicizada de uma ocorrência caracterizada como Tulpa no Ocidente ocorreu na Golden Dawn, por volta de 1930. Na ocasião, Dion Fortune afirma ter criado um elemental artificial, que seria similar a uma forma pensamento, porém possuindo atuação independente após sua criação pelo magista. O elemental criado tinha a forma de um lobisomem ectoplasmático e dormia aos pés de sua cama, se alimentando da raiva que Fortune sentia por outra pessoa. Segundo os relatos, quando Dion Fortune percebeu que a criatura estava se tornando excessivamente poderosa, tentou realizar um banimento, sendo ameaçada com rosnados, mas após algumas tentativas conseguiu reabsorver o ser.

Por volta de 1960, outra praticante de magia, Alexandra David-Neel, também teria criado uma forma-pensamento que a auxiliasse. Após extenso treinamento com monges tibetanos, conhecendo as teorias acerca das Tulpas Orientais, David-Neel mentalizou um frade tibetano rechonchudo que a acompanhava nos lugares e auxiliava nos estudos mágicos. Porém, este ser teria começado a aparecer sem ser evocado, e teria começado também a ser visto pelas pessoas ao seu redor, tendo adquirido senciência independente da magista.

Com base principalmente nestes dois casos documentados, a figura da Tulpa passou a ser conhecida no Ocidente, e o termo foi aplicado a formas-pensamento que saíam de controle. Vários ensaios e livros — ocultistas ou mesmo de ficção — foram escritos sobre o assunto, ajudando a disseminar esta ideia no Ocidente.

Tulpas na Internet

Mais recentemente, em 2009, o autor do site Something Awful, Eric Knudsen, começou a publicar relatos sobre uma entidade chamada Slenderman, que aparecia na forma de um ser branco e alto, de terno, e possuía tentáculos com os quais caçava sua vítimas em florestas. A entidade se alimentaria do medo das pessoas, e não tardou para que surgissem vários relatos de avistamentos deste ser nos EUA, e no mundo.

Imagem: Slenderman, autor desconhecido.

Este episódio se assemelha muito de várias outras lendas urbanas, que por serem muito difundidas acabam ficando gravadas no inconsciente das pessoas, e acabam se manifestando em momentos de vulnerabilidade psicológica, como no estágio entre o sono e a vigília, ou em situações de estresse emocional. No Brasil, as lendas urbanas da Loira do Banheiro, da Noiva das Estradas e da Maria Sangrenta seriam exemplos de histórias que alcançaram tal patamar de influência sobre a psiquê coletiva.

Servidores Descontrolados

Mais recentemente, em fóruns de Magia do Caos, há relatos de Servidores criados com propósitos específicos e que, por falhas no contrato, alimentação energética excessiva, ou inexperiência dos usuários, saem de controle ou realizam ações prejudiciais aos magistas.

De fato, esta possibilidade já é conhecida há séculos quanto a elementais artificiais, e principalmente quanto aos Daemons da Goécia, porém está sempre relacionada à falta de proteção psíquica ou ao medo inconsciente durante o uso da Magia (o que se amplifica no caso dos Daemons, devido à forte inclinação da sociedade em caracterizar entidades como “boas” ou “más”). Além disso, há grande probabilidade de os efeitos prejudiciais experimentados pelos magistas neste caso serem provenientes de sua própria Sombra, das partes da psiquê que não são analisadas e compreendidas.

Em todo caso, a autoanálise e a construção de proteções mentais adequadas, assim como a realização de rituais de banimento, se mostram importantes ferramentas para prevenção ou correção destes problemas.

Imagem: Ritual Menor do Pentagrama, por Oásis Quetzalcoatl e OTO.

Duas classes de entidades

Com base no que foi descrito, observa-se que na verdade as Tulpas Ocidentais e as Tulpas Orientais tratam-se de duas classes diferentes de entidades, que possuem características bem específicas. Enquanto as Tulpas Orientais tratam-se das formas que mestres ascencionados usam para prover auxílio aos homens, ou entidades criadas individual ou coletivamente em práticas de visualização da Magia Tibetana, sempre de forma premeditada e com caráter benéfico, as Tulpas Ocidentais poderiam ser criadas de forma acidental, ou podem surgir a partir de outras entidades, criadas para outros fins, que adquirem senciência.

De qualquer forma, qualquer que seja sua origem, formas-pensamento ainda são feitas de matéria mental, e portanto podem ser desfeitas com banimentos e canalização de pensamento, requerendo mais ou menos energia no processo. O medo inconsciente pode atuar contra o magista, gerando descontrole de suas criações, mas a força de vontade é o que basta para retomar o controle.

Ass.: RoYaL.

Referências: Tracking the Tulpa: Exploring the Oriental Origins of a Contemporary Paranormal Idea — MIKLES, Natasha L. e LAYCOCK, Joseph P.; A Magia das Formas-Pensamento — ASHCROFT-NOWICKI, Dolores e BRENNAN, J. H.; On Tulpas: An analysis of imagined others — JULIANI, Arthur.

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Este projeto visa compilar, analisar e desenvolver as bases do conhecimento de sistemas mágicos, afim de propiciar suporte aos que estão trilhando este caminho.

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