Terence Mckenna e o Xamã Moderno

Considerações sobre um legado inesquecível

No auge dos anos 70/80, em meio ao contexto de Guerra Fria, contracultura em alta e o movimento Hippie tentando trazer alguma mudança paradigmática trocando a atitude combativa por um pacifismo ativo, contrariando o status quo e gerando uma filosofia de Nova Era, que se espalharia no mundo em todas as linhas de auto melhoramento no ocidente no século XXI, um homem se destacava, palestrando em raves e festivais, parando milhares de pessoas nos Estados Unidos que estavam ávidas e sedentas por algum discurso que fosse de encontro com suas aspirações, que lhes dessem algum refúgio e confirmação de suas intenções, contra um mundo belicoso. Este homem tinha um jeito atarracado, tímido, embora seus olhos brilhassem intensamente, como um felino dócil. Ele subia com aquela cabeleira, óculos redondos e fala calma, pausada e voz de professor. Terence Mckenna fascinava multidões, e quando sua boca abria, era como acessar com os ouvidos as vibrações mais profundas do Akasha.

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Terence Mckenna por Mesloes
“Você é um explorador, você representa nossa espécie e o maior bem que pode fazer é trazer de volta uma nova ideia, porque nosso mundo está ameaçada pela ausência de boas ideias. Nosso mundo está em crise por causa da ausência de consciência” — Terence Mckenna.

Um verdadeiro psiconauta

O palestrante assíduo de raves era um etnobiólogo, historiador, escritor, orador e psiconauta. Seu trabalho era estudar e pesquisar drogas psicodélicas (apesar de ter sido contemporâneo da criação do termo), e suas relações com as culturas espalhadas pelo planeta. A sociedade estava em constante tensão, à espera de uma guerra nuclear que daria fim ao planeta, e sua demanda por conhecimento era mais que urgente, era essencial. Era um desbravador, precisava contrariar o status quo e as proibições para ter acesso à fonte que geraria a maioria das suas teorias e suposições sobre o funcionamento do universo. A Experiência Direta com o Desconhecido.

“Se as palavras “vida, liberdade e a busca da felicidade” não incluem o direito de experimentar com sua própria consciência, então a declaração de independência não vale o papel de cânhamo com o qual foi escrito” — Terence Mckenna.

Sua contribuição para o mundo é difícil de mapear com clareza, foi sucessor de Jung na investigação mais incrível sobre I Ching no ocidente. Contemporâneo e amigo de grandes mentes, que influenciou e foi influenciado, como Stanislav Grof, o maior cientista de LSD até hoje, que infelizmente teve sua pesquisa interrompida pela proibição, pouco tempo após a sintetização do composto por Albert Hoffman, e criou a respiração holotrópica como técnica de indução ao estado psicodélico sem uso de drogas. Amigo pessoal de Rupert Shaldrake, criador da teoria dos Campos Mórficos, uma das teorias mais interessantes sobre o motivo dos padrões que regem o universo, desde o formato dos cristais, até a semelhança entre o desenho dos neurônios e da atividade da matéria escura cósmica. E suas obras são “poucas” (perto da profundidade de suas afirmações), além das entrevistas e falas e relatos de terceiros que restaram sobre sua brilhante mente investigadora.

The Invisible Landscape

Em 1975 ele publica com o irmão o livro que o colocaria de costas para a comunidade científica por quase toda a vida. Após uma expedição inacreditável para o sul da Colômbia, ele retornou com uma teoria sobre o funcionamento do tempo que nunca tinha sido proposta por aquela ótica. Uma experiência psicodélica contendo psilocibina (ativo dos cogumelos mágicos da espécie Stropharia Cubensis) e DMT (na ayuhasca que eles prepararam nessa expedição), relataram uma série de eventos inexplicáveis pelos métodos conhecidos da ciência, e concluíram que o tempo pode ser dividido e quantificado em ciclos de 64, em pequenas ou grandes escalas, e ele usou a própria vida de exemplo, evocando os principais eventos (filho, casamentos, mortes, etc) em ciclos de 64. Após isso, construiu, nos anos 90 com a ajuda de cientistas da computação, um programa de computador chamado Timewave Zero, que calculava esses ciclos e supunha datas icônicas de eventos importantes do mundo. Logo em seguida à publicação do seu primeiro livro, lançou com o irmão também o primeiro guia de cultivo de cogumelos do mundo, que seria uma referência mundial que poucos conhecem atualmente a origem. Mas se existem cultivos indoor de cogumelos hoje no mundo, é graças ao trabalho inicial de Dennis e Terence Mckenna.

Terence McKenna by JAngera

As mudanças na sua percepção de mundo foram tão intensas, que empreendeu uma cruzada com a mente para descobrir os meandros e possibilidades da consciência, conhecendo monges tibetanos, participando de rituais xamânicos na América do Sul, Índia, China, experimentou os haxixes árabes, fez questão de entrar em contato com a Consciência Cósmica para bater um papo. Suas descobertas trouxeram uma visão de mundo inédita para o Ocidente, dando uma importância a algo que, naquele momento, era demonizada e perseguida por todos os países da Terra.

“A natureza ama a coragem. Você faz o compromisso e a natureza irá responder a esse compromisso, removendo obstáculos impossíveis. Sonhe o sonho impossível e o mundo não vai moê-lo sob, ele vos exaltará. Este é o truque. Isto é o que todos estes professores e filósofos realmente contam, os que realmente tocaram o ouro alquímico, é isso que eles entenderam. Essa é a dança xamânica na cachoeira. Assim é como a mágica é feita. Lançando-se para o abismo e descobrindo que ele é uma cama de penas” — Terence Mckenna.
Baseado no discurso de Terence Mckenna, por Zen Pencils

Se tornou ícone incontestável da Cultura Pop e Contracultura no fim do século XX com suas palestras e com a amizade que tecia com os maiores nomes das investigações psicodélicas do mundo, como Timoty Leary, criador do livro A Experiência Psicodélica, um guia para as viagens usando ensinamentos e correlações com o Livro Tibetano dos Mortos (indicação do amigo Mckenna trazida direto da fonte), e criador da teoria dos 8 circuitos da mente, muito utilizada hoje no Caoísmo, e uma das maiores fontes de referência de Bluefuke para seu Manual de Campo do Psiconauta. Uma das Bíblias em construção do Pop Magista do século XXI.

Alimento dos Deuses

Em 1992, já perto do fim da vida, focado totalmente em estudos etno farmacológicos e nas bases ontológicas do Xamanismo, lançou o livro que propunha uma possibilidade incrível, relacionando a origem da formação da Consciência humana a partir do contato dos primeiros hominídeos africanos com os cogumelos psilocibínicos formados das fezes dos gados zebu originários da África, assim que a floresta tropical subsaariana começou a secar e obrigar os animais a migrarem e testarem novos alimentos, ideia que foi chamada de Teoria do Símio Chapado. Para justificar, ele traz uma série de argumentos arqueológicos, como as artes rupestres mais antigas do mundo, na região de Tassili-n-Ajjer, que contém pinturas datando desde o neolítico de 2 mil anos atrás. Ali estão as primeiras descrições conhecidas de xamãs — que estão dançando com punhos cheios de cogumelos e os mesmos brotam por todos os seus corpos. Segundo McKenna (1995) estes povos pastoris trouxeram consigo o culto do gado e um culto da Grande Deusa. A evidência de que eles tinham esses cultos vem das pinturas rupestres de Tassili, a partir das quais os estudiosos chamaram o “Período da Cabeça Redonda”. Esse nome vem do estilo de retratar a figura humana nessas pinturas — um estilo que não é conhecido em nenhum outro sítio.

O xamã cogumelo com rosto de abelha, de Tassili-n-Ajjer. Desenho de Kat Harrison-McKenna.

Elucida também correlacionando os efeitos da droga com as capacidades humanas atuais, como acuidade visual, percepção de bordas, visão 180°, visão tridimensional, capacidade de proferir e compreender sons sutis e gerar significado com eles, efeitos que podem ter se iniciado com a glossolalia, que é um efeito percebido em experiências intensas com a psilocibina. Sua teoria já foi razoavelmente superada em alguns aspectos, mas suas propostas nesse sentido até hoje excitam a mente e criam possibilidades impressionantes sobre como se desenvolveu a consciência e a evolução humana na Terra.

“Os alucinógenos revelam à psique humana imagens holográficas de toda parte do nosso continuum. Embora a humanidade como um todo possa ainda não ser capaz de receber essas imagens através de ondas evolucionárias de progresso, o nosso papel como investigadores é participar da revelação de imagens atemporais. Precisamos fazer profundas ‘viagens’ no espaço mental para contemplar a fonte desses mistérios” — Terence Mckenna.

Retorno à Cultura Arcaica e Triálogos

No mesmo ano ele publica ainda um apanhado das principais entrevistas, artigos e textos que espalhados, formavam o principal tronco de suas impressões sobre a vida, o universo e tudo mais. E triálogos foi um livro juntando diálogos entre ele, Rupert Sheldrake, citado já no texto e o matemático Ralph Abraham, que contém um instituto até hoje sobre suas pesquisas de Matemática Visual, relação do DMT com o Logos e um dos maiores nomes quando se trata da Teoria do Caos, fulcral nos estudos sobre Magia do Caos atualmente.

lost touch with chaos — Terence McKenna

Alucinações Reais

Finalmente, em 1993 lança sua derradeira e mais incrível obra, Alucinações Reais, que conta em detalhes sua expedição, em forma de diário, ao sul da Colômbia para descobrir sobre um antigo mito xamânico de um ectoplasma curativo, manipulável e manifestável após a ingestão de certas drogas mágicas, como o lendário rapé de ayuhasca oo-ko-heé, mas não o encontrou, tendo contato por outro lado, com os cogumelos de psilocibina que levaria para os Estados Unidos e usaria para desenvolver o guia de cultivo que seria a principal referência sobre isso no mundo. Nessa expedição ele conta experiências diretas com muitos mitos antigos, como a telepatia, com vários exemplos impressionantes da ação dessa faculdade da mente, que eu nunca vi parecido em outro documento do tipo. Assim como contato com OVNIS (desse evento ele criou uma hipótese interpretativa brilhante que chamou de Alma Exteriorizada como Disco, no vídeo abaixo), experiências de distorção temporal e muitos insights oraculares e preditivos sobre muitas questões.

“O propósito da vida é familiarizar-se com este corpo pós-morte, para que o ato de morrer não vá criar confusão na psique” — Terence Mckenna.

Terence Mckenna morreu, mas seu legado é imortal, tendo se perpetuado nas muitas influências que tece de forma até um pouco subliminar na cultura pop. Desenhos como A Hora da Aventura, com o personagem Terence e muitas das teorias do etnobiólogo sendo exploradas de forma fantástica ou lúdica. Filmes, músicas, artistas, inclusive cientistas, e sua mensagem permanece, sendo cada vez mais percebida e proposta ao redor do mundo. Retornar a um paradigma antigo, que nos uniu e nos fez alcançar patamares inéditos na nossa existência humana nesse planeta, mas que aos poucos se perdeu por influências de forças, aeons, demandas e processos evolutivos e involutivos, que talvez nada tivéssemos a fazer pela impossibilidade da percepção da perniciosidade desses padrões de comportamento. Mas ele também diz que nada foi perdido, que nossa busca nunca foi mais atual e que a mudança é real e possível se partir de cada pessoa na Terra, de cada despertar, de cada investigador do inconsciente, do Oculto, do Logos, de Gaia. Ele foi uma singular presença humana que deixou um rastro colorido de psicodelia e serviu de rede unindo muito do que podemos extrair dentro da magia do caos, de nós mesmos e do Grande Espírito, para todos os outros seres que nos rodeiam. Terence McKenna faleceu no dia 3 de abril de 2000 vítima de um tumor cerebral. Dizem que tinha um grande sorriso no rosto.

Ass: Zero

Referências: Alucinações Reais, Terence Mckenna; O Alimento dos Deuses, Terence Mckenna; Alucinações Reais, Terence Mckenna.