Grupos de estudo, Kyle & salas de vidro.


Eu só não acho justo não poder escolher com quem a gente vai fazer o trabalho.

— Sr. Harries, o senhor tem algum problema com o seu grupo?

Não, claro que não. Mas eu ach..

— O senhor supõe que eu não consigo organizar um simples grupo para um trabalho na biblioteca?

Não, nunca, é só que eu…

— Então problema resolvido. Agora, por favor, acompanhe em silêncio como resto dos seus colegas.

Eu tento segurar o riso. Mike estava tentando convencer a Sra. Tuner a mudar os grupos de estudo desde o início da aula. Como se alguém conseguisse fazer a velha mudar de opinião.

Não é engraçado. — diz Mike quando chega ao meu lado.

— O senhor supõe que eu estou rindo? — digo imitando a voz da professora.

Mike olha emburrado pra mim, ficando mais difícil ainda não rir.

— Sério agora, pra que tudo isso? — digo tentando parecer séria.

Eu só não concordo com a disposição dos grupos.

— Por quê? Eu ouvi dizer que a Cindy sempre teve uma quedinha por você, vai ver hoje é a chance dela.

É sério. A gente não tem mais dez anos pra não poder escolher os nossos próprios grupos.

— Eu não estou reclamando.

É óbvio que não. — diz Mike revirando os olhos.

O encaro estranhando sua atitude.

— Tem certeza que não tem outro motivo?

Por que teria? — diz ele com um riso falso.

Dou de ombros. Se ele quer assim, o problema é dele.

Entramos na biblioteca com o resto dos alunos e eu tento não pensar na última vez que Mike e eu tivemos aqui. Quer dizer, que o Mike esteve aqui. Não acho que ele tenha vindo aqui sozinho depois daquele dia.

— Tudo bem, cada um com seus grupos agora. Vocês têm cinquenta minutos. — diz Sra. Tuner enquanto todos se espalhavam pelas mesas.

Mike me olha com uma carrinha triste de criança pedindo um brinquedo.

— Você vai sobreviver, eu prometo. — digo lhe dando um selinho. — Só não tente nenhuma gracinha com a bibliotecária, sim? Eu juro que ela te olhou como se você fosse a nova edição da playgirl quando você entrou aqui.

Vou até a mesa onde está meu grupo. Eu realmente não conhecia nenhum deles direito, eu devo ter conversado com algum deles umas duas ou três vezes, mas não era nada de mais. Tudo que eu sabia sobre eles era por alguma fofoca ou por pura observação.

Tinha Thomas e Megan, ambos são loiros e altos, eles são primos ou algo do tipo. Alguns dizem que tem alguma coisa a mais entre eles, mas eu não me ariscaria a tanto. Aliás, eles tiveram muita sorte em serem colocados no mesmo grupo, porque eu nunca os vi conversando com os outros alunos.

E tinha Kyle, com cabelos castanhos que nunca estão fora de lugar, e olhos azuis, sempre sorrindo. O tipo de cara que você olha duas vezes quando o vê na rua. Todas as vezes que eu falei com ele, ele sempre foi muito educado. Vai ver é por isso que ele se dá bem com todo mundo. Com as meninas principalmente.

— Taylor, certo?- pergunta Kyle sorrindo.

Assinto.

— Eu dividi o trabalho em partes pra ser mais fácil. Você pode ficar com a parte do artigo 397, se você quiser.

Vejo Thomas e Megan escrevendo e conversando baixinho como se eles tivessem num grupo só deles. Vai ver os dois tinham alguma coisa mesmo.

— Tudo bem. — digo sentando de frente para ele, abrindo meus livros e começando a escrever em silêncio.

Alguns minutos passam até eu terminar minha parte. Não era muita coisa, a maioria eu já tinha memorizado de aulas passadas, então foi mais rápido ainda. Quando termino percebo Kyle me encarando.

Sorrio desconfortável.

— Então, você é a namorada do Mike Harries?

— Hã, sim? — digo franzindo a testa.

Sabe, todo mundo tá se perguntando como você conseguiu amarrar ele. — diz ele voltando a sorrir. — Muitas garotas aqui tentaram, mas não tiveram muita sorte.

— Talvez elas não saibam como fazer o nó direito.

Ele ri. Eu ficaria incomodada com todos esses sorrisos se fosse outra pessoa, mas ele fazia parecer tão natural, como se nada pudesse chateá-lo.

Vejo meu celular vibrar na mesa. Mensagem do Mike.

“EU NUNCA MAIS PARTICIPO DE UMA AULA DESSA CHEIRADORA DE GATINHOS”

Sorrio.

— Onde vocês se conheceram?

— Hum? — digo prestando atenção nele de novo.

— Não me leve a mal, mas vocês não parecem o tipo que tinham amigos em comum ou algo assim.

— Ah, não. Nós somos vizinhos. — digo rindo imaginando Mike com algum amigo como a Jenna.

Sinto o celular vibrar de novo na minha mão.

“Sabe, a ideia do cara que criou as mensagens texto é pra pessoa RESPONDER A OUTRA”.

Começo a responder antes Mike quebre o próprio celular.

— Eu só estou perguntando — diz Kyle devagar. — porque eu preciso saber aonde você achou um cara assim, eu to há um ano procurando um desses pra mim e nada.

Paro de digitar e olho para ele, que agora tinha um sorriso conformado.

Oh. Então era por isso que todas as meninas que saiam com ele apareciam chorando no banheiro no dia seguinte.

Antes que eu pudesse responder sinto alguém sentando na cadeira ao meu lado. Olho para ver quem era e vejo Mike sorrindo inocentemente para mim.

O encaro tentando perguntar por que ele estava aqui apenas com o olhar, mas ele apenas me encara de volta. Me viro para Kyle.

— Hã, Kyle esse é o Mike. — digo o apresentando ainda sem entender o que ele estava fazendo aqui.

O namorado dela. — diz Mike me puxando pela minha cintura para mais perto dele.

— E aí, cara? — diz Kyle estendendo a mão.

Mike só olha para ele com cara de poucos amigos.

— Mike? — digo tentando acabar com o clima ruim. — Você não deveria estar terminando seu trabalho? Sabe, com o seu grupo?

Cindy disse que terminava a minha parte por mim.

Percebo a mesma sorrindo em sua mesa enquanto escrevia em um papel que provavelmente não era seu. Coitada.

Mas parece que vocês não precisaram de ajuda pelo o que eu estava vendo. — continua Mike.

Silêncio.

— Taylor disse que vocês são vizinhos.

Eu não acho que isso seja da sua cont…

Levando subitamente interrompendo o que Mike estava dizendo.

— Eu acabei de lembrar que eu preciso de um livro pra aula de seminário temático. Você. — digo e aponto para Mike. — Vem comigo.

O puxo forte pela mão sem me importar quando ele quase tropeça nos próprios pés. O levo até uma das salas da biblioteca que normalmente são usadas quando os alunos precisam discutir sobre seus trabalhos sem incomodar o resto das pessoas que querem silêncio.

A sala era inteiramente transparente, sem nenhuma privacidade devo dizer, mas pelo menos era à prova de som.

Fecho a porta enquanto Mike me olhava com os braços cruzados emburrado.

— Você pode me dizer o que foi aquilo? — pergunto ficando de frente para ele.

O cara tava quase subindo em cima de você e você vem brigar comigo?

— Precisava ser grosso daquele jeito?

Claro que precisava, ele tinha que ver que ele não pode brincar com as coisas dos outros.

— Desde quando eu sou propriedade? — pergunto já perdendo a paciência.

Eu sabia que isso ia acontecer. — continua Mike, ignorando minha pergunta. — Já tinha visto esse cara em algumas festas que o Matt fez lá em casa, muito arrumadinho pro meu gosto, não consigo entender como vocês garotas curtem isso.

— Mike.

Mas daí eu vi que você ia no grupo dele, e tipo eu sei como você é tudo certinha e você ia perceber que ele é também, e daí eu pensei “pronto, fodeu”. Eu ia levar um chute na bunda por um merdinha que usa gravata borboleta. Gravata borboleta! Que ser humano usa isso?

— Mike…

Daí você não tava respondendo minhas mensagens, e quando eu olhei vocês tavam rindo! O que esse cara tem de tão engraçado? Eu não sou engraçado o suficiente, é isso? — diz ele passando a mão pelos cabelos os deixando ainda mais arrepiados. — Porque se for isso eu juro que…

—Mike! — grito.

Mike me olha espantado como se tivesse acabado de perceber que eu estava na mesma sala que ele.

— Era por isso que você queria tanto mudar os grupos?

Talvez. — diz Mike olhando para o chão.

Depois disso eu não consegui aguentar, comecei a rir até ficar sem ar.

Você podia ser um pouco mais delicada agora que você vai me trocar pelo engomadinho lá de trás.

— Mike. — digo colocando minhas mãos sobre suas bochechas tentando parar de rir. — O Kyle é gay.

Gay? Como assim gay? — diz Mike com os olhos arregalados tirando minhas mãos do seu rosto.

— Gay do tipo que é mais fácil você me trocar por ele do que eu trocar você?

Mas ele não parava de te encarar e os risos…

— Ele só queria saber aonde eu achei um cara como você.

Oh. — diz ele entrelaçando nossas mãos e começando a sorrir. — E o que você disse?

— Que eu encontrei você nos achados e perdidos.

Mike faz uma cara de falsa indignação enquanto eu me aproximava mais dele.

— Você estava realmente com medo do Kyle? Sério?

Não. — diz Mike como se eu tivesse falando um absurdo. — Eu sei que você não me trocaria por nada nesse mundo.

Rio.

— Talvez eu devesse ter medo da Cindy, ela parecia feliz demais na mesa de vocês.

Talvez você devesse ficar quietinha agora. — diz Mike e logo depois me beija.

Ele me guia até a parede para eu ter um pouco mais de apoio. A parede estava fria, nada que não se esperasse por ser de vidro, mas não é como se eu me importasse no momento.

— Mike, aqui não. — digo tentando me separar.

Você não é nada divertida. — diz ele voltando a me beijar.

Ouço um barulho, como se alguém tivesse batendo no vidro. Me separo do Mike rapidamente. Quando olho para o lado que vinha o barulho quase dou um grito de terror. A Sra. Tuner estava nos observando com uma cara nada amigável junto com todo o resto dos nossos colegas de sala atrás dela.

Puta merda.

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