Irmãos, Porta Retratos & Muitas Perguntas.

Remind her how it used to be, with pictures in frames of kisses on cheeks.

O dia estava acabando, finalmente. Passar a tarde inteira estudando não era realmente um dos meus planos favoritos para um sábado. Mas eu não poderia mais brincar depois de passar tantos dias longe da faculdade.

Três dias depois de todo o episódio com minha mãe, meu pai conseguiu arranjar um jeito de eu viajar para Nova York em uns dos jatinhos da empresa. E, obviamente, eu não pensei nem duas vezes antes de ir correndo para o aeroporto, e passa oitos horas com um dos empresários de meu pai conversando sobre como guacamole era uma escolha horrível para se servir junto com qualquer tipo de salgadinho.

Passei duas semanas em Nova York, a maior parte do tempo eu só ficava ao lado de minha mãe me certificando se estava tudo bem. Eu não queria ir embora, mas eu sabia que não podia perder mais aulas. Fui embora desanimado, mas não antes de passar três horas explicando para minha mãe como “aquele botãozinho do celular dela onde ela pode me ligar e ver meu rosto ao mesmo tempo” funcionava.

O elevador abre no meu andar eu saio tentando equilibrar os livros que John tinha me indicado da biblioteca. Vou até a minha porta já procurando as chaves no bolso da calça, mas paro subitamente sentindo a presença de alguém no corredor.

Levanto a cabeça e olho de lado, quase me assustando. Um cara loiro perto dos 30 anos estava escorado na porta do apartamento ao meu lado segurando uma mochila volumosa e me encarava com uma expressão divertida.

O encaro de volta confuso fazendo com que seu sorriso aumentasse ainda mais.

Boa noite. — digo como numa pergunta.

— Boa noite. — diz ele também simpático.

Acho minha chave finalmente e então abro a porta me sentido meio incomodado, enquanto o estranho ainda me observava. Quer dizer, não exatamente estranho, eu podia jurar que já tinha visto esse cara de algum lugar.

Me desculpe. — digo me virando em sua direção. — Mas você por acaso é algum namorado de Jenna ou sei lá? Eu tenho quase certeza que me lembro de você.

Ele tosse como se tivesse escondendo uma risada.

— Bem, eu me lembro de você também. — diz ele sorrindo. — Você parecia muito determinado a arrancar minha cabeça quando apareceu no apartamento da minha irmã. Entrou tão rápido que nem deixou ela nos apresentar direito, devo acrescentar.

Tenho um flash de memoria e abro a boca sem saber o que falar. Realmente, não podia ser possível, certo? Certo? Engulo em seco tentando não parecer horrorizado.

Você é… — começo com a voz fraca e então pigarreio. — Você é o irmão da Taylor.

Bom saber que minha irmã não namorou um babuíno completo como eu imaginava. — diz ele dando uma risadinha.

Tento rir também, mas o som que saiu de meus lábios parecia mais um grito de desespero do que uma risada.

Coço minha nuca, envergonhado, sentindo minhas bochechas queimarem. Eu realmente deveria parecer patético. Parabéns Mike, ótimo jeito de mostrar que você tem sérios problemas mentais para a família da sua ex.

Desculpe por… Ahn… Aquilo. — digo com a voz baixa. — Eu não fazia ideia que vocês eram, você sabe, irmãos. Quero dizer, eu mal conhecia Taylor na época, mas eu meio que tinha uma quedinha por ela, e ela nem me dava bola, então para mim o único motivo para ela agir daquele jeito era porque ela tinha outra pessoa, e dai… — continuo começando a tagarelar pelo nervosismo.

Ouço-o dar uma gargalhada e paro de falar instantaneamente percebendo que tinha pagado mico, de novo.

— Tá tudo bem, cara. — diz ele e estende a mão. — Pronto, vamos começar de novo. Eu sou o Jake. Jake Evans, mas acho que essa parte você já sabe.

Mike Harries. — digo apertando sua mão, aliviado. Começar de novo, ok, eu posso fazer isso. — Então, o que você está fazendo aqui no meio do corredor sozinho?

— Fugindo da polícia. — diz ele sério.

O quê? — digo arregalando os olhos.

Ele começa a rir novamente. Realmente, como era possível esse cara ter o mesmo sangue que Taylor?

— Eu estou zoando, Harries, calma. — diz ele sorridente. — Vim visitar Taylor, mas o trem chegou adiantando e ela não pode vir me buscar por causa do estágio. Ela deve chegar daqui a pouco.

Oh, ok. — digo embaraçado começando sentir meus livros pesar embaixo do braço. Abro a porta em minha frente com facilidade, e então o fito tentando não parecer mais idiota do que já aparentava. — Olha, você não quer entrar e beber alguma coisa enquanto ela não chega? — pergunto apontando para meu apartamento.

Ele me encara por alguns segundos parecendo ponderar sobre minha proposta.

— Claro, seria ótimo tirar esse gosto de suco nojento que servem no trem da minha boca. — diz ele então, me seguindo e entrando na sala.

Pode sentar se quiser, já volto com as bebidas. — digo fechando a porta atrás de mim.

O apartamento estava vazio, Matt e John provavelmente chegariam tarde hoje. Vou até a cozinha, coloco os livros encima do balcão e pego duas garrafas de cerveja da geladeira. Quando volto à sala, vejo Jake sentando no sofá com sua mochila no chão encostada ao seu lado.

Aqui. — digo entregando uma das garrafas já abertas para ele, e sento no outro canto do sofá.

— Obrigado. — responde ele. — Então, eu espero que eu não esteja sentado no lugar onde você possa ter desflorado minha irmã em algum momento do relacionamento de vocês. — diz ele banalmente.

Me engasgo ouvindo suas palavras quase cuspindo todo o liquido de minha boca no tapete.

Nós… Eu… Eu juro que… — digo bobamente.

— Ótimo. — diz ele divertido. — Gostei de você, seria uma pena se eu tivesse que te bater. Odeio violência.

Dou um sorriso constrangido ainda tossindo um pouco por causa da cerveja.

Você não deveria gostar muito de mim, sabe. Eu meio que sou o ex da sua irmã e essas coisas. — digo comicamente. — Aliás, você tem é que se preocupar com aquele projeto de maromba dela.

Ele ri da minha escolha de palavras concordando com a cabeça.

— Bem, eu não acho que eu devo me preocupar muito. — diz ele dando de ombros. — Tenho certeza que aquilo não vai durar muito.

Deus te ouça, penso comigo mesmo e então faço uma careta. Você não deveria ficar pensando nessas coisas, babaca.

Ficamos em silêncio por um momento com apenas o barulho da TV preenchendo o local. Então, sinto ele me observar pensativo.

— Taylor ainda gosta muito de você, sabe. — diz ele parecendo serio de verdade pela primeira vez na noite.

Sinto meu corpo inteiro se contrair, deixando meus ombros tensos com a mudança brusca de assunto.

— Eu sei, acho que mesmo depois de tudo ainda somos… Amigos. — digo olhando para minhas mãos segurando a garrafa quase vazia.

— Não, Mike. — diz ele gravemente. — Quero dizer de verdade mesmo.

Acho que sua irmã já deixou bem claro para mim sobre o que ela sente ou deixa de sentir. — digo o olhando nos olhos. Pigarreio. — Porque estamos falando disso assim de repente, aliás? Você não parece o tipo de pessoa que gosta desse tipo de conversa.

— Sua foto. — diz ele simplesmente apontando para porta retrato praticamente escondido dentre vários encima da estante cinza.

Era uma foto minha com Taylor no aniversário de Matt. Ela estava rindo sentada no meu colo me abraçando pelo pescoço enquanto eu segurava sua cintura beijando sua bochecha com os olhos fechados.

Eu nem lembrava que isso estava aí. — digo soando aborrecido. — Me esqueci de tirar.

— Claro. — diz ele irônico. — É uma ótima foto.

— Por que você se importa, de qualquer maneira? — digo ignorando seu comentário. — Isso não faz mais diferença alguma.

Ele me olha como se soubesse exatamente o que me incomodava e me entendesse perfeitamente.

— Porque eu sei como minha irmã é, sei como ela pode ser… Difícil em demonstrar como se sente. — diz ele calmamente, nem parecia a mesma pessoa que conheci alguns minutos atrás. — Principalmente depois de tudo.

Depois de tudo o quê?

Ele respira pesadamente, e então eu sinto como se o clima da sala tivesse começado a ficar pesado subitamente.

Bem, depois que nossa mãe se foi. — diz ele com um sorriso triste.

Prendo a respiração sentindo meu corpo inteiro gelar. Eu deveria ter ouvido errado. Taylor teria me contado, não teria? Quero dizer, não uma coisa que alguém deixa de comentar. E então começo a lembrar de todas as poucas vezes que Taylor me contou sobre sua infância, ela sempre citava seu pai, Jake e Jenna, mas sua mãe…

Como… — digo num fio de voz.

— Câncer no estômago. — diz ele impassível. — Não foi muito bonito. Taylor não tinha nem 6 anos direito. E depois que minha mãe faleceu, ela se fechou para o resto do mundo em vários aspectos. Não me surpreende que ela nunca tenha te contado, ela odeia falar sobre isso, até finge que nada aconteceu às vezes.

Isso respondia muitas coisas, e deixava outras ainda mais confusas.

Sinto muito.

— Tudo bem, isso já muito tempo. — diz ele agradável.

Ouço um barulho estridente vindo da mochila de Jake e ele se abaixa para pegar um celular que parecia ter vindo direto dos anos noventa, me fazendo lembrar dos comentários de Taylor sobre seu irmão e seus problemas com a tecnologia.

— E aí, maninha? — diz ele atendendo o tijolo cheio de botões. — Mas eu estou no seu prédio. — ouço um chiado, provavelmente Taylor respondendo. — Ah você sabe, só bebendo aqui com seu ex-namorado enquanto a gente fala sobre o seu pequeno probleminha de roncar feito um trator. Sinceramente Taylor, eu nunca pensei que fosse tão potente a ponto de atravessar paredes. — ele faz mais uma pausa. — Ok, tudo bem então, tchau.

Olho para ele espantado e até com um pouco com respeito. Ninguém com amor pela vida iria brincar com Taylor assim sem se sair impune.

— Ela chegou, está na frente da sua porta.

Ah, certo. — digo indo em direção à porta da frente ainda meio perdido com todas as informações que tinhas descobrido minutos atrás.

Abro a porta e dou de cara com uma Taylor cansada com uma roupa social já meio desalinhada. Faço de tudo para não ter pensamentos inconvenientes vendo ela assim, com o cabelo bagunçado e os dois primeiros botões da sua camisa desabotoados.

— Hey. — diz ela meio envergonhada. — O babaca do meu irmão está aí?

— Eu ouvi isso! — diz um grito vindo da sala.

Ouço Jake chegar ao meu lado colocando uma de suas mãos em meu ombro e logo depois indo em direção a irmã.

— E aí, pirralha. — diz ele abraçando Taylor a tirando do chão a fazendo dar um gritinho.

Ele a solta e se volta para mim.

— Bom, foi bom te conhecer sem ter seu instinto assassino sobre mim, Mike. — diz ele e aperta minha mão. — A gente se vê.

Digo o mesmo. — respondo sorrindo e o vejo acenar indo em direção à porta já aberta do apartamento ao lado.

Viro-me para Taylor que me olha corada.

— Obrigada por fazer companhia para ele. — diz ela sincera. — Eu queria ter chegado antes, mas não tive como sair do trabalho.

Não foi nada, ele é um cara legal.

— Só quando ele quer. — diz ela brincando. — Então, como foi a viagem? Não tive tempo de falar com você antes.

Foi ótimo, seria melhor ainda se Nova York não fosse um formigueiro humano.

Ela sorri com meu comentário, mas já me encara com uma expressão séria.

— E sua mãe?

Melhor. — digo sorrindo de verdade. — Ela perguntou de você.

— Perguntou de mim? — pergunta ela com as sobrancelhas arqueadas.

É, e logo depois puxou minha orelha por ser um idiota e a privar por mais tempo o seu desejo de ter netos.

Ela ri.

— É muito bom saber que ela já tenha melhorado a esse ponto. — disse ela feliz.

Cruzo os braços me escorando na porta.

E você? — digo mudando de assunto. — Fiquei sabendo que conseguiu o estágio na Milbank, meus parabéns.

— Obrigada. — diz ela vermelha. — Não estou tendo tempo para nada ultimamente, mas é ótimo aprender na prática como tudo funciona. Acabei descobrindo que tenho um talento nato com a copiadora e expressos de creme. — termina ela divertida.

Sorrio educado e tento não parecer muito ansioso com o que eu realmente queria perguntar.

Tudo bem com resto? — pergunto tentando soar inocente. — Faz um tempo que não vejo Noah por aqui.

— Eu acho que a gente… — diz ela parecendo confusa. — Eu realmente não sei. Ele viajou para as Regionais de Rugby há alguns dias com o resto do time da LSE, e desde então a gente não se comunicou mais.

— Oh. — digo bobamente lutando contra a vontade de ficar feliz com a informação.

Ela morde o lábio inferior com uma expressão nervosa deixando uma mecha de seu cabelo cair sobre seus olhos. Levanto a mão e coloco-a de volta atrás de sua orelha num gesto automático, no entanto, não retiro minha mão de seu rosto depois disso.

Eu tinha tantas perguntas, e nem sabia por onde começar. “Hey, por que você nunca me contou sobre a sua mãe?” “Melhor, por que nunca me contou sobre nada, nunca?”. “Aliás, por que seu irmão parece querer que eu volte com você?”. “E como vocês conseguem ser o oposto do outro? Se não fosse pela cor dos olhos eu poderia jurar que vocês não são irmãos de verdade.”. “Se eu te beijasse agora eu iria receber um tapa? “Ou estaria tudo bem já que você praticamente terminou com aquele babaca?”.

Abro a boca sem saber exatamente o que falar e então a fecho irritado comigo mesmo. Fala alguma coisa, idiota.

Damos um pulo assustados com chiado insuportável vindo da porta da casa de Taylor.

— Taylor, essa coisa não quer pegar! — grita Jake provavelmente da sala dela.

Ela olha para mim como se pedisse desculpa.

— É melhor eu ir antes que ele destruía alguma coisa.

— Tudo bem. — digo tirando minha mão do seu rosto timidamente. — Você deve estar cansada também. É melhor ir dormir logo.

Ela afirma com a cabeça e já vai indo até sua porta.

— Boa noite, Mike. — diz ela se virando para mim com um sorriso.

Boa noite. — digo sorrindo de volta.

Ela começa a entrar, mas para de repente, como se tivesse mudado de ideia. Num piscar de olhos eu a vejo correndo para mim beijando minha bochecha rapidamente e logo depois entra em sua casa fechando a porta atrás de si.

Passo uns bons segundos paralisado tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer, e então adentro minha sala, vou até a estante e seguro o pequeno porta retrato sorrindo.

Realmente, é uma ótima foto.

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