Nem todo mundo está pronto para se apaixonar.

Last christmas I gave you my heart, but the very next day you gave it away.

— Mike? — ouço a voz de John em algum canto da sala. — Mike, você tá vivo?

— Vá embora. — digo.

— Cara, faz mais de três horas desde que a gente chegou em casa e você não saiu do lugar.

— Na verdade, ele já estava assim quando a gente saiu. — ouço Matt se aproximando. — Ele não sai desse sofá há mais de duas semanas.

Vai se foder. — digo com a voz abafada pela almofada.

— A bichinha tá nervosa, é? — diz Matt zombando.

Levando um dos meus braços e mostro meu dedo do meio a ele.

A sala fica em silêncio e começo a imaginar que eles desistiram e foram embora. Solto um suspiro. Sozinho, finalmente. Agora eu posso aproveitar minha desgraça em paz.

Sinto o sofá se mexer e logo em seguida me vejo caído no chão em frente a John e Matt com olhares cumplices um ao outro.

— Vai nos dizer o que ouve agora? — diz John me estendendo a mão para me levantar.

Eu já não disse pra vocês irem embora? — digo aceitando sua ajuda.

— Bem, fica meio difícil ignorar quando um dos seus melhores parece mais um morto vivo na véspera de natal. — diz John.

— O que houve? A Taylor te trocou pelo carinha da gravata borboleta? — brinca Matt.

Sinto meu corpo ficar tenso ao ouvindo o nome dela. Eu tentei bloquear todos meus pensamentos sobre ela nas ultimas semanas, falhando miseravelmente. E ouvir seu nome agora, depois de tanto tempo, aumentava aquela estranha sensação na boca do estômago que eu fingia ignorar.

Eu sou o cara mais idiota do mundo. — digo me sentando no sofá novamente cobrindo meu rosto com as mãos.

— Então o problema é realmente com a Taylor. — diz John sentando ao meu lado e Matt faz o mesmo logo em seguida. — Algum motivo em especial?

Talvez. — digo olhando para meus próprios pés.

— O que você fez dessa vez? — pergunta Matt.

Por que a culpa tem que ser minha? — digo olhando feio para ele.

— Porque você é o cara mais idiota do mundo? — diz ele começando a rir mais logo para ao perceber meu olhar sério.

— Ela está brava com você? — pergunta John como se não tivesse sido interrompido.

— Eu não sei.

— Vocês brigaram?

Eu não sei. — digo novamente.

Eu realmente não tinha ideia se o que aconteceu foi uma briga.

— Vocês terminaram? — pergunta John temeroso.

Eu não sei, porra! — grito passado a mão pelos meus cabelos. — Eu simplesmente não sei. — falo mais baixo. E a sensação estranha volta ainda mais forte quando eu ouço a mesma frase em minha cabeça na voz de outra pessoa.

— E o que aconteceu de tão errado que você nem sabe se vocês terminaram ou não? — continua John ignorando meu pequeno surto.

Eu disse que a amava. — digo num sussurro.

A sala fica em silêncio novamente e eu faço de tudo para não me lembrar da cena que já se repetiu na minha cabeça mais de mil vezes.

— Isso é bom, certo? — diz Matt tentando amenizar o clima em nossa volta.

Não quando a outra pessoa não sente o mesmo. — digo num sorriso amargo.

— Você disse isso e ela simplesmente terminou com você? Meio fodido isso, não acha? — diz Matt.

Eu acho… — digo com a voz rouca. — Eu acho que fui eu que terminei com ela.

— Ótimo, melhor ainda. Agora você pode levantar essa sua bunda magrela daí e sair com a gente sem culpa nenhuma. — diz Matt já me puxando do sofá.

Matt, você não entende. — digo me livrando do seu braço. — Se eu não tivesse aberto a merda da minha boca estaria tudo bem agora.

Volto a olhar para meus próprios pés de novo desejando que um buraco se abrisse debaixo deles e eu nunca mais precisasse sair dele.

— Mike, eu sei que deve ser difícil. — Diz John com a mão sobre meus ombros. — Amy e eu já tivemos as nossas também. Mas não adianta se esconder do resto do mundo por causa disso. É véspera de natal. Vista a alguma coisa e vem com a gente ver as luzes no London Eye. Um pouco de ar fresco vai te fazer bem.

Assinto. Eu realmente precisava sair da cena do crime antes que eu fosse enlouquecer.

John sorri e vai em direção à porta com Matt em seu encalço.

— Quinze minutos. A gente te espera no carro. — diz ele e desaparece pela porta.

Matt me olha como se quisesse ter certeza que eu não iria voltar ao meu antigo casulo.

— Olha, você sabe que eu não sou muito bom com essas coisas. — diz Matt. — Mas nem sempre as coisas são pra ser, Mike. Quero dizer, você não pode obrigar alguém a sentir o mesmo que você. Nem todo mundo é corajoso o suficiente pra admitir isso como você. Nem todo mundo está pronto para se apaixonar. Pense nisso.

E logo depois ele fecha a porta por trás dele.

Levanto-me do sofá e vou em direção ao meu quarto vestindo a primeira coisa que vejo pela minha frente. Saio do apartamento rapidamente e aperto o botão enquanto termino de colocar uma de minhas luvas.

Um dos elevadores abre e quando eu vou tocar no botão do térreo ouço uma voz feminina do fundo do corredor, fazendo meu corpo inteiro congelar.

— Segura o elevador pra mim, por favor! — diz a voz e eu faço o que ela pede como num reflexo.

Merda. Merda. Merda. Ela está cada vez mais perto.

— Muito obrigada, de verdade, esses elevadores me odeiam. Demoram anos para subir de novo. — diz Taylor ajeitando o cachecol verde em sua volta e então olha para mim assustada. — Mike…

Dou um sorriso desconfortável. Não consegui falar nada, estava mais preocupado em aprender a respirar novamente.

Ela nem estava tão bonita assim. Quero dizer, as bochechas rosadas por conta do frio não faziam eu quero beijar cada uma delas. E o perfume dela também não me fazia querer enterrar meu rosto em seu pescoço e sentir ate o último rastro do cheiro doce que ela tinha. É claro que não. Eu não era doente. Mas talvez se eu chegar um pouquinho mais perto eu possa decifrar se ela esta usando o mesmo frasco que sua mãe lhe deu no seu aniversário. Não. Pare com isso Mike.

Ela me flagra a encarando. Merda. Merda. Merda. Diz alguma coisa, idiota.

Suas mãos estão tremendo. — digo olhando para as mesmas.

— Ah, é apenas o frio. — diz ela ficando ainda mais vermelha. — Elas sempre congelam no inverno.

Você quer minhas luvas? Eu não vou precisar. — digo já começando a tira-las.

— Não! Não precisa se preocupar, de verdade. — diz ela olhando para o chão, tímida. — Kyle pode me emprestar alguma quando eu chegar.

É obvio que você não precisa se preocupar. Você não é mais o namorado dela, babaca.

Vai passar o natal na casa do Kyle, então?

— Bem, sim. Ele convidou alguns amigos, já que a fraternidade esta praticamente vazia no feriado. E Jenna já está lá me esperando. — diz ela ainda não olhando para mim.

Isso é… — tento pensar na melhor palavra. — Ótimo.

— E você? Matt arranjou alguma festa louca pra vocês irem?

Não exatamente. — digo dando meu primeiro sorriso sincero há semanas. — Decidimos desacelerar esse ano e ir dar em cima das velhinhas que estão vendo as luzes do London Eye.

Taylor continua olhando para o chão, mas mesmo assim eu consigo enxergar uma sombra de sorriso no seu rosto.

O elevador abre e me xingo mentalmente por querer passar mais tempo em sua companhia.

Taylor sai rapidamente e eu vou atrás sem pensar segurando seu pulso a virando para mim. Ela me olha espantada, e só então eu consigo ver os pontos escuros por baixo de seus olhos arregalados. Ela parecia exausta.

Eu… — digo baixo e então pigarreio. — Feliz Natal.

Ela me observa como se tentasse ler minha e parecia ainda mais frustrada por não obter êxito nenhum.

Feliz Natal, Mike. –diz ela num sorriso pequeno.

E então ela vai em direção à porta de saída do prédio, e eu faço de tudo para me convencer que ir atrás dela não é uma boa ideia. Ela não está pronta. Ainda não.

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