You’ll never be alone.

Hey, I know there are some things we need to talk about. And I can’t stay, just let me hold you for a little longer now.

Estava nublado. De novo. Não era nenhuma novidade, desde que vim morar em Londres devo ter visto o sol umas cinco vezes, ou nem isso. O maior problema era o vento congelante que batia na cara das pessoas corajosas o suficiente para sair de casa. O que, infelizmente, era meu caso.

Tinha acabado de passar numa cafeteria pequena no centro para pegar um café antes de ir à casa de Noah. Ele finalmente tinha para com sua pira sobre Mike e voltado ao normal. E então, veio o convite repentino. Não queria ficar nervosa, mas era impossível. Ele nunca tinha me convidado para ir à sua casa. E o pior de tudo, não era um nervosismo bom.

Quando avisto a estação do metro do outro lado da rua, sinto meu celular vibrar na bolsa. Tento alcança-lo com uma mão só, e quando finalmente consigo, franzo minha testa lendo o nome na tela.

— Matt? — digo atendendo.

— Taylor, graças a Deus. — diz ele na outra linha parecendo aliviado. — Eu jurava que tinha pegado o número errado.

— Matt, tá tudo bem? — digo ainda confusa.

— Você viu o Mike? — diz ele ignorando minha pergunta. — Ele tá ai com você ou sei lá?

— Não, claro que não. — respondo estranhando sua pergunta. — Por que ele estaria comigo?

— Porque… Ele meio que sumiu.

— Como assim sumiu?

— É complicado. — diz ele com um suspiro. — Ele falou que queria ficar sozinho e foi pro quarto, quando a gente foi ver como ele tava ele tinha evaporado.

— Já tentaram ligar pra ele, talvez?

— É óbvio, Taylor. Você não acha que isso seria a primeira coisa que eu fiz?

— Pergunta idiota, desculpe. — digo envergonhada. — Por que ele queria ficar sozinho?

— Isso realmente importa agora?

— Não, Matt, estou perguntando porque eu realmente não me importo. — respondo sarcástica.

— Porra, Taylor, eu não tenho tempo pra isso.

— Você não pode simplesmente falar que o Mike desapareceu e não me explicar direito depois, Matthew, qual é a merda do seu problema? — digo irritada. — Cadê o John? Me deixa falar com ele.

— Ele está ocupado procurando a merda meu melhor amigo! — grita ele. — Desculpa. É que… — diz ele soando muito mais vulnerável do que parecia dois minutos atrás. — É a mãe dele. Parece que passou muito mal ontem à noite.

Sinto meu corpo gelar, e não era mais por causa do frio. Ella. A mulher dos mesmos olhos verdes que eu tanto conhecia sempre parecia tão… Viva. Apesar de ter falado com ela apenas por algumas horas, era como se eu a conhecesse há muito tempo. Principalmente com todas as histórias que Mike contava sobre seus chás-da-tarde malucos e festas de fim de ano. Não conseguia imaginar a Sra. Harries sem aquele brilho alegre nos olhos enrugados.

— O que aconteceu? — pergunto com a voz esganada.

— Alguma coisa com a diabetes dela, eu acho. — diz ele num tom cansado. — Já vem acontecendo há algum tempo. Ela esta bem agora, mas você sabe como é.

Matt deveria estar se sentindo péssimo. Depois de fugir de casa, ele se refugiou no lar dos Harries por algum tempo. Ella deveria ser como uma mãe para ele.

— Eu sinto muito. — digo sem achar palavra melhor.

— Está tudo bem. — diz ele afável. — Olha, se você ver o Mike por aí, por favor, avisa a gente.

— Claro, pode deixar.

— Ok, muito obrigada, Taylor, de verdade. Até depois.

— Até. — digo e ouço-o desligar.

Atravesso a rua e começo a pensar em Mike com o coração apertado, não era do seu feitio sair sem avisar ninguém. Alguma coisa estava muito errada. Porém, quando chego perto do parque ao lado do metrô, sinto uma lembrança me atingir em cheio e sorrio.

Eu sabia onde ele estava.

Começo a ir em direção ao lago, mais precisamente na parte que estava apinhado de pedras de todos os tamanhos e avisto um pontinho preto em meio delas. Quando finalmente chego perto o suficiente, o vejo sentado em uma pedra lisa encolhido vestindo um casaco preto gigante e uma touca cinza. Vou até ele silenciosamente fazendo o máximo de esforço possível para não me molhar. Ele não se vira para me olhar quando sento ao seu lado, mas pressentia que ele já sabia que era eu.

Como me achou? — diz ele ainda olhando para o horizonte do lago. — Algum babaca veio me dedurar?

— Você mesmo. — digo com um sorriso de lado. — Me disse uma vez que vinha aqui algumas vezes quando queria ficar sozinho.

— E parece que você não me ouviu direito, não é mesmo? O “ficar sozinho” era pra ser uma parte bem importante da conversa.

— Pensei que você quisesse companhia para desabafar. — digo tentando parecer o mais delicada possível.

Bem, pensou errado.

Respiro fundo, eu sabia que não seria fácil, e tento começar de novo.

— Matt me ligou.

Bom saber que meu amigo sabe operar um celular sem minha ajuda. — diz ele ainda sem me olhar.

— Tá todo mundo morto de preocupação com você, sabia? — digo ignorando seu tom rude.

Eles vão sobreviver.

— Mike, eu realmente sint…

Não quero conversar, Taylor. — ele me corta com a voz dura.

Suspiro alto e começo a observar o sol se pondo fazendo um reflexo dourando na água. Era uma visão tão bonita, que quase tinha esquecido que morava na cidade mais cinza do país. Parecia que tinham misturado todas as cores quentes sobre o lago criando uma cor totalmente nova, que fazia me sentir aquecida por dentro só de olhar para ela.

Vejo de canto de olho Mike abaixar o olhar para o próprio colo respirando fundo, e então subitamente sinto-o pegar uma de minhas mãos entre as suas. Ele começa a brincar com meus dedos ainda com uma expressão séria. Sem conseguir me controlar, me viro totalmente de frente para ele para poder observa-lo melhor.

Suas mãos estão congelando. — diz ele baixinho.

— Bem, acho que você esqueceu que a gente vive no freezer da Inglaterra. — brinco. — É quase impossível ter mãos quentes por aqui. Mas acho que não posso dizer muito de você, você é uma anomalia da natureza.

Ele cobre minha mão entre as suas quentes como que quisesse protege-la do frio, e então a entrelaça com uma das suas.

Me desculpe por ser tão estúpido agora pouco. É que eu não realmente não estou no meu melhor humor no momento. — diz ele com um sorriso triste.

— Está tudo bem, eu entendo.

Mike olha para mim com olhos brilhando, era como se toda a luz do lago tivesse sendo refletida nas suas íris verdes, agora parecendo muito mais escuras do que aquele tom quase cristalino que elas geralmente tinham.

Eu sempre gostei dos olhos dele. É como uma mistura de verde com uns pontinhos castanhos que me deixava confusa sobre qual era a cor deles de fato, e eu odiava ver eles assim, angustiados, quase como se fossem lacrimejar a qualquer segundo.

Ele suspira e fecha os olhos.

Eu sei que parece idiota. Quero dizer, nem foi nada tão sério. É só que… — diz ele com a cabeça baixa. — E se fosse? Quando meu pai me ligou, eu fiz de tudo para conseguir uma passagem pros Estados Unidos, mas parece que é meio inútil se você não tiver visto e toda aquela papelada de ainda ser considerado menor de idade por grande parte da Grã-Bretanha.

— Mas você ainda pode ir. Tudo isso não deve demorar mais de uma semana pra se fazer. — digo tentando ser solidaria.

Ele abre os olhos novamente e mexe a cabeça em sinal de negação.

Você não entende. — diz ele desanimado. — E se tivesse acontecido alguma coisa realmente séria, Taylor? Como você acha que eu me senti pensando que minha mãe poderia estar morrendo há qualquer momento e eu não poder nem estar por perto enquanto isso acontecia?

— Mas não aconteceu, ela está bem agora. — digo apertando sua mão.

Até a próxima vez. — diz ele me olhando. — Não sou idiota, sabe? Eu sei que meus pais são mais velhos que o normal, sempre foram. Tem a idade de muitos avós por aí, se duvidar até bisavós. Eles não vão durar pra sempre, eu só preciso aprender a aceitar isso.

— Ninguém é obrigado a aceitar uma coisa dessas. — digo séria.

Não é como eu tivesse muita escolha. — diz ele com um sorriso tristonho.

Sinto meus olhos lagrimejarem e tento esconder dando um beijo em seu ombro e então descanso a cabeça sobre ele.

Ficamos em silêncio por um tempo apenas ouvindo o barulho da água batendo nas rochas e as crianças brincando num parquinho próximo de nós.

— Não acho que você deveria pensar assim. Você não pode sofrer por coisas que nem sequer aconteceram. — digo me aconchegando mais até ele. — Você deve aproveitar o agora, aproveitar que eles estão aqui e bem, não fazer uma sentença pro seu tempo com eles. Não adianta se preocupar com algo tão imprevisível como o futuro, Mike. As pessoas têm seus próprios tempos. E claro, ter um puta orgulho por terem a idade que tem e ainda aguentar o grande pirralho que você provavelmente foi.

Desencosto-me de seu ombro e olho para ele vendo-o sorrir fraco para mim.

— O que foi?

Nada, só nunca imaginei que você tinha essa parte poeta escondida em você.

— Vai se ferrar. — digo mostrando a língua.

Ele ri verdadeiramente, e eu sorrio por dentro. Apesar de tudo, eu o tinha feito esquecer um pouco da sua angustia, nem que fosse só por alguns segundos.

O silêncio volta novamente e analiso Mike e sua fachada pensativa, parecia que estava tentando colocar seus pensamentos no lugar. E a ruguinha que apareceu entre suas sobrancelha mostrava a dificuldade do seu trabalho.

Como se tivesse desistido, ele suspira alto e se levanta rapidamente, oferece a mão para mim me ajudando a me erguer também.

Acho melhor a gente voltar pra casa. Tá ficando tarde, e eu ainda tenho que me explicar pros meus pais postiços. Quer carona?

— Claro. — digo sorrindo.

Vamos até o estacionamento e não pude deixar de notar que ele não tinha largado minha mão. Quando estávamos perto do seu carro ele para de repente. Olha para mim e sorri de lado, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Apesar de a sua aparência ter melhorado muito, eu ainda conseguia ver uma ruguinha de preocupação entre seus olhos cansados. Ele ainda não estava bem. Mas iria ficar, eu faria questão disso.

Obrigado. — diz ele me dando um beijo na testa.

— Pelo o quê? — pergunto desconcertada.

Por ser você. — diz ele segurando meu rosto em suas mãos largas.

— Ser eu? Mike, isso não faz sentido algum.

Pra mim faz. — diz ele sorrindo. — Pra mim faz todo o sentido do mundo.

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