Incêndio

Incêndio (pelo Museu Nacional/RJ)
morre a história
do nosso povo
no incêndio vertiginoso
o museu
a floresta
a boate em festa
os gritos de socorro
não são ouvidos
os clamores de decoro
são só olvidos
cargos poder acima
encargos goela abaixo
queima no fogo da negligência
na flama do desrespeito
na chama da intolerância
morre a memória consumida pelo fogo
a falta de vergonha ardendo
no olhar choroso
o peso da violência crepitando
barracos acima
desculpas em cima
a sanha da cobiça acendendo
suores abaixo
moedas embaixo
o filho asfixiado nas filas da desesperança
no mercado do descuido
na esquina da pobreza de carne
e espírito
morre
um pedaço de quem somos
de onde viemos
por que lutamos
para que sobrevivemos
lambem as chamas
nossos corpos maltratados
nossos braços mutilados
nossa terra devastada
nosso pão nossa vida
uma nação enfraquecida
um país espoliado
um povo cansado
o passado vira cinzas
o presente vira brasas
o futuro vira pó
a troco de quê
por causa do quê
em nome de quem
Foto: Gabriel Cerqueira. Texto e edição de CD Belmont.
