Ateísmo pela Quaresma

Desde 2009 eu acompanho o trabalho do Peter Rollins via internet não tendo nunca a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente. Entrar em contato com esse tipo de pensamento me possibilitou experimentar coisas que eu tinha como proibidas até então.

Nesta Quaresma de 2016 ele vai oferecer o “dis-curso” Atheism for Lent de uma forma detalhada e paga (em 2013 houve uma versão gratuita que pode ser encontrada em http://www.atheismforlent.net/)É difícil dizer que esta prática reflete o cerne de todo o seu pensamento e prática (por que uma das características dos pensadores da desconstrução é descentralizar sempre), mas é quase isso. Escolhi aproveitar esse período para além de fazer o curso concentrar em viver melhor de alguma forma. O “dis-curso” pra mim parece mais como se eu estivesse juntando os cacos de algo que já se quebrou pra mim.

Desta vez Peter Rollins resolveu dividir as seis semanas da Quaresma em temáticas específicas. De um Ateísmo mais contemporâneo até um Ateísmo Teológico passando por alguns ateus de importância histórica como Marx e Nietzsche. E isto estruturado com uma firme justificação filosófica.

A ideia da prática foi concebida por Merold Westphal, filósofo e professor na Fordham University, uma universidade jesuíta em Nova Iorque. Por isso os primeiro dias das Quaresma serão dedicados à introduzir qual a intenção de tal projeto a partir de seu livro Suspicion and Faith: The Religious Uses of Modern Atheism que é escrito em forma de devoções diárias, não a fim de discutir o quanto estes autores tinham razão ou não, mas usadas como um auto-exame da pessoa que as lê.

Semana 1 — Deus como Ser. A primeira semana será dedicada aos pensadores ateus contemporâneos (Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris,etc.), aos argumentos que estamos mais acostumados em relação à crítica da religião, da crença etc. na atualidade. Estes debates tendem a conceber Deus como um “Ser supremo”, não importa o lado em que se esteja.

Semana 2 e 3— Deus como projeção. A segunda e terceira semanas explorarão o pensamento de autores modernos como Feuerbarch, Marx, Freud e Nietzsche. Estes autores não discutem a religião como algo sobrenatural, mas como fruto de nossos desejos e fragilidades inconscientes.

Semana 4 — Deus como Hiper-Ser. O ateísmo teológico passa a ser explorado nesta semana. A partir do pensamento de teólogos como Paul Tilich e Jean-Luc Marion e místicas como Simone Weil (também filósofa) e Madre Teresa de Calcutá. Enquanto o novo ateísmo se distancia do debate teológico estas pessoas nos ajudam a aprofundar no que poderia ser chamado de uma experiência existencial de ateísmo levando à uma outra noção sobre Deus.

Semana 5 — Deus como o “chão” do Ser. No século XX, embora isso seja mencionado timidamente em alguns seminários teológicos, a teologia tomou um rumo de explorar o ateísmo de forma mais elaborada. De forma que se referir a Deus como “ser” tornou-se sem sentido. Teólogos como Dietrich Bonhoeffer e Thomas Altizer nos oferecem os elementos para pensar um cristianismo sem “Deus” como um elemento da metafísica clássica.

Semana 6 — Deus como Evento. Na semana de encerramento serão abordadas maneiras de falar sobre Deus que não se referem a ele como “ser” em momento algum. O ateísmo passa a ser visto não mais como inimigo ou amigo da fé mas como parte dela própria. John D. Caputo e Slavoj Zizek são tidos como prinicpais para esse tipo de concepção.

A ideia desta prática como um todo não é proporcionar uma discussão acadêmica sobre teísmo ou ateísmo e ver quem tem razão no final. Mas proporcionar a experiência de um ateísmo existencial, algo que não traga o conforto trazido pela razão defendido pelos novos ateus, mas o desconforto do próprio Deus que se tornou ateu na cruz ao clamar “Deus meu, Deus meu, por que me abandonas-te?”