ao meu agrado

eu queria estar sonhando que estou em qualquer outro canto do planeta.

mas eu estou aqui pensando no 1721 e na véspera das eleições do ano passado.

era sábado e o frio na barriga comia as borboletas do meu estômago. e não é porque eu pressentia que joão doria venceria logo no primeiro turno. era porque antes do ônibus chegar no ponto, você me puxou pelo braço e me beijou.

e, olha só, você mal fala a minha língua. mas no céu da minha boca seu gosto era fluente.

ou, pelo menos, eu queria que fosse.

naquela sexta à noite eu não dormi, apenas empapucei os lençóis de um suor nervoso.

você estava prestes a chegar dos sonhos que tive a vida inteira vendo um homem alto de cabelos muito escuros e um nariz friamente reto, que só de pensar me provoca calafrios.

e você chegou, depois de um mês ensaiando desculpas para não me ver. eu já sabia que você não viria. mas então você apareceu.

e quando o ônibus freou pra nós descermos sem pagar a passagem, eu senti a porta do meu esôfago se abrir e deixar escapar um gosto de água sanitária. minhas mãos suavam e por isso eu não conseguia segurar as suas. e para não deixar seu toque ir embora, eu fechei os olhos enquanto o ônibus cuspia poeira em nossos olhos e vi

rapidamente

aquela cena em que você se despedia de mim na paulista, mas num hesitar de passos virou-se de novo e veio em minha direção até me consumir num abraço.

e ali eu soube que amava pela primeira vez. no meio daquela multidão atravessando a rua às 18h em ponto, o sol se recusava a dizer adeus grudando nas janelas dos arranha-céus. e nós nos recusávamos a sentir o que eles sentiam, a seguir a corrente sem precisar nadar.

ali eu soube que te amava e que você voltaria num sábado às vésperas das eleições mais frustrantes da democracia.

o mês se estendeu enquanto eu procurava seu tato no meu corpo. aquele abraço me apertara tanto que eu me desfiz e agora era livre.

livre

eu era livre para a amar e escolhi amar você.

e você também escolheu me amar; enquanto eu justificava o voto e você me dizia do lado de fora da sala que eu ganharia qualquer eleição; cantarolando nina simone em plena vergueiro e você assustado com os carros, tentando me contar histórias em sua língua nativa – que àquela altura já era minha também – e eu entendia tudo, entendia da sua solidão e do seu prazer em assistir almodóvar repetidas vezes até se convencer de que você era agrado; tentei te convencer de que éramos cleo e daniel mas você nunca compreenderia.

e como eu amo isso.

incompreensão.

incompreendi o amor até o 1721 parar no espaço-tempo de 17 de dezembro. foi a última vez que te vi.

17 de dezembro costumava ser a data mais importante do mundo pra mim – fiz até questão de marcá-la em música, ferro quente e brasa no coração.

até que eu precisei me despedir de você.

até que, deitada em seu peito que devorei feito corvo degustando o sangue quente da presa, eu disse que te amava e me debulhei em lágrimas.

fechei os olhos esperando que você fosse me expulsar da sua cama.

mas você assoprou o oxigênio que faltava para a brasa voltar a queimar:

eu também te amo.

mas nós também iremos amar outras pessoas.

eu nunca entendi porque você me disse isso.

eu nunca entendi nada sobre o amor e sobre a vida, até amar alguém depois de você.

o amor depois de você veio cortando o peito e saiu sem costurá-lo.

e agora, fervendo na cama e implorando por um pouco de descanso antes que o despertador toque, eu resolvi como se tivesse surgido em mim como a fé nos desesperados, eu resolvi agradecer pois entendi tudo:

obrigada pelo amor que acabou antes do fim.

porque eu queria que fosse o seu gosto o último a sentir no céu da minha boca.

mas você preferiu não amarrar minha boca com o amargo do fim.

obrigada por isso.

onde quer que esteja agora, com quem quer que seja

eu amo você,

agrado.