nunca é para o seu bem

só nós (e às vezes nem isso) sabemos o peso de nossa própria existência e o agudo de nossas dores. mesmo quando mal sabemos o que é existir.

eu sempre fui uma criança muito podada. atravessei a rua sozinha pela primeira vez aos 13 anos de idade. foi o ápice da liberdade — o vento nos cabelos e o calor dos carros esquentando as minhas pálpebras. tinha sido uma tarefa tão fácil e deliciosa que eu comecei a me questionar porque nunca havia feito.

eu simplesmente não podia. era para o meu bem, eles diziam. quando crescer você vai entender.

e, vejam só, eu cresci. cresci podada com o caos fervendo dentro de mim. eu nunca tive permissão para fazer nada, sempre sob o pretexto de ser para o meu bem. para o meu bem eu acabei nunca aprendendo a cozinhar, a sacar dinheiro no banco, a me relacionar com as pessoas.

eu cresci e ainda não entendo.

não entendo como essa farsa de pensar no outro ainda funciona. nada disso era para o meu bem, e sim para suprir uma necessidade de controle, dominação.

eu ainda não entendo.

não entendo porque não podia dormir na casa das minhas amigas para o meu bem, quando o meu bem só desejava passar uma noite ao lado delas comendo pipoca. (eu o fiz pela primeira vez aos 18 anos)

não entendo quando ele diz que vai se afastar de mim para o meu bem, quando o meu bem está justamente em ter sua companhia.

na verdade eu não entendo de nada. o que faço é apenas sentir. o bafo quente do sol do interior aquecendo a primeira rua que atravessei; o coração batendo forte ao enlaçar minhas mãos à dele, essas mãos que ele não ousa mais tocar… para, e só para, o meu bem.

acho que não preciso entender mais nada além do que sinto. para o meu próprio bem.

eu penso em mim
e em todos os homens que me amaram
mas que no fundo nunca o fizeram;
no máximo algumas horas de
pupilas dilatadas
fluídos correntes
cicatrizes expostas.
o mundo certamente seria
um lugar muito melhor se os
homens pudessem fechar os olhos
e amar as mulheres
porque de olhos abertos 
a única visão que lhes resta
é o ódio, a repulsa
a falsa admiração
a bruta dominação
mas se soubessem fechar os olhos
conheceriam no escuro a minha alma 
despindo-se das amarras que nos mantêm em cárcere
do ódio
do fetiche
do gozo fingido. (os homens não amam as mulheres)
[2016]
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