O Lado B do Rio

Por Maria Eduarda Aloan
O Lado B do Rio é um podcast lançado em agosto de 2016 que debate temas como economia, política, sociedade, esporte e cultura a partir da ótica do Estado do Rio de Janeiro, sendo uma plataforma opinativa, bem humorada e assumidamente de esquerda frente à mídia hegemônica. O programa é apresentado por quatro homens, entre eles o advogado Alcysio Canette, o economista Daniel Soares e os jornalistas Caio Bellandi e Fagner Torres.
Com produção da Central 3, um estúdio de podcasts, os episódios do Lado B do Rio são inspirados em programas de rádio e são divididos em blocos temáticos, como o “Caô da Semana”, em que o grupo fala sobre um assunto específico que está fervendo durante a semana; “Nos Tempos do Guanabara”, em que há uma discussão sobre o passado da política do Rio de Janeiro, entre outros blocos. Os episódios são publicados semanalmente e duram cerca de 1h 30 min até 2 horas. O objetivo é oferecer uma voz às lutas por uma sociedade mais justa. Dentre os programas já publicados, o podcast já discutiu questões como educação popular, Vaza Jato, Marighella, saúde mental, etc, como também já entrevistou políticos e personalidades ligadas ao movimento de esquerda.
Na palestra “Proximidades e Possibilidades”, realizada no dia 24 de setembro de 2019 e organizada pela professora Lilian Saback na PUC-Rio[1], um dos apresentadores do podcast Caio Bellandi afirmou que o lema do programa é mostrar para a sociedade, não só carioca, o outro lado da cidade que o RJ TV, o telejornal local da Rede Globo, não mostra. “A gente não fala só das coisas teóricas da esquerda, mas tentamos falar também das nossas vivências”, afirmou ele. Essa missão de retratar o que não é amplamente exposto na grande mídia é uma das muitas características da mídia popular e alternativa. Esta, por sua vez, tem como função ser uma fonte de informação, tanto pelo conteúdo que oferece quanto pelo tipo de abordagem e linha editorial que utiliza. “É muito importante o que a gente faz hoje, modéstia à parte, porque a gente conseguiu que pessoas conhecessem vozes que não sou ouvidas. A deputada estadual do Rio do PSOL Renata Souza é um exemplo”, afirmou Caio em palestra. Nesse sentido, o fenômeno da comunicação popular e alternativa contribui para a transformação do pensamento do povo e, consequentemente, o fortalecimento da democracia.
A comunicação popular e alternativa se caracteriza como expressão das lutas populares por melhores condições de vida que ocorrem a partir dos movimentos populares e representam um espaço para participação democrática do “povo”. Possui conteúdo crítico-emancipador e reivindicativo e tem o “povo” como protagonista principal, o que a torna um processo democrático e educativo. É um instrumento político das classes subalternas para externar sua concepção de mundo, seu anseio e compromisso na construção de uma sociedade igualitária e socialmente justa. (PERUZZO, 2006, p. 4)
Além do podcast, o Lado B do Rio também tem site e páginas nas redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, onde busca expandir o debate e a comunicação com os ouvintes, representados por 30 mil seguidores em todas as redes.
É importante salientar também que o alcance da plataforma cresce a cada dia, e não está limitado somente ao Estado do Rio, apesar do nome do podcast. De acordo com Alcysio Canette, 60% dos ouvintes não são do Rio, mas de outras cidades do Brasil, como São Paulo, por exemplo. Ele disse ainda que há muitos cariocas que não moram mais na cidade, mas que ouvem o programa. Quando perguntado sobre a necessidade de estar conectado em várias plataformas para divulgar os episódios, Canette disse que “ter Twitter é mais importante do que Facebook, porque o algoritmo do Facebook é bem restritivo a propaganda, logo é preciso gastar dinheiro lá. Enquanto no Twitter isso não acontece, já que as pessoas que usam têm uma rede de apoio a podcasts e costumam compartilhar.” Essa rede de apoio é comum em veículos de comunicação popular e alternativa, e não só pode, mas deve ser usado como estratégia para fortalecer o público, seja leitores, ouvintes ou seguidores para que possa divulgar ainda mais o veículo para outras pessoas.
Em relação a maneira de consumo do podcast, a grande maioria dos ouvintes escutam o Lado B do Rio pelo aplicativo de streaming de áudio Spotify, apesar de ser o que menos paga por download. Os ouvintes são formados por homens e mulheres na faixa etária de 16 a 40 anos. Embora o público masculino seja o que mais ouve o podcast, o público feminino é o mais engajado em dar feedback sobre os episódios. Segundo Caio, o Lado B começou com 700 ouvintes, e hoje já tem cerca de 20 mil ouvintes por programa. “Conforme o Brasil vai piorando, o Lado B vai ganhando mais audiência. Tivemos um pico muito forte de audiência quando a Marielle morreu”, afirmou ele[2].. O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes ocorreu no dia 14 de março de 2018. Apesar da plataforma receber recursos por financiamento coletivo, algo muito comum de mídias populares e alternativas, o valor ainda não é suficiente para os quatro amigos viverem só com o projeto do Lado B do Rio.
Levando-se em consideração os aspectos apresentados, o Lado B do Rio é muito mais do que um simples programa de áudio que debate assuntos com um viés à esquerda. Isso visto que o podcast se propõe a ser um canal de diálogo com a população que mora no subúrbio e na periferia da cidade maravilhosa, mas não exclui a possibilidade de poder alcançar outras regiões do Brasil, tendo em vista que trata de temas que são de interesse e de abrangência nacional. Com o avanço da tecnologia, se tornou muito mais fácil, barato e democrático se informar das notícias do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, possibilitou que qualquer indivíduo pudesse se comunicar com outras pessoas. Dessa forma, os meios de comunicação populares e alternativos precisaram incorporar as novas tecnologias para conseguir sobreviver e ser um contraponto à mídia tradicional. Como Peruzzo explica:
De uma comunicação dirigida a pequenos grupos e centrada nos aspectos combativos dos movimentos populares, passou-se — aos poucos — a ampliar seu alcance por meio da incorporação de meios massivos, principalmente de radiodifusão, e, portanto, de novos conteúdos e linguagens. (PERUZZO, 2006, p.5)
Logo, acredito que o podcast Lado B do Rio promove a inclusão de pessoas que são, em grande parte, excluídas das páginas de jornais e dos telejornais diariamente. Além de servir como uma fonte de informação sobre os movimentos de esquerda, sendo uma mídia voltada aqueles que se identificam com essa corrente ideológica. Afinal, o Lado B quer narrar as histórias que o Rio evita contar.
Referências Bibliográficas
PERUZZO, Cicilia Maria Krohling. Revisando os Conceitos de Comunicação Popular, Alternativa e Comunitária. Brasília: Intercom, 2006.
LADO B DO RIO. Disponível em: (https://ladobdorio.com.br). Acesso em: 15 out. 2019.
[1] Palestra com Alcysio Canette e Caio Bellandi. Disponível em (http://www.com.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?fbclid=IwAR0eVNf%5FM1S1wckm%5FvCHDh%5F4Fhbk7ArFfl9Ra%2DyaDE%2DtlB4i7YAJQXORe9w&infoid=2408&sid=24). Acesso em 14 out de 2019.
[2] Palestra com Alcysio Canette e Caio Bellandi. Disponível em: (http://www.com.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?fbclid=IwAR0eVNf%5FM1S1wckm%5FvCHDh%5F4Fhbk7ArFfl9Ra%2DyaDE%2DtlB4i7YAJQXORe9w&infoid=2408&sid=24). Acesso em 14 de out de 2019.
