Por uma Barra mais “Barrista”

Fonte: https://www.jornaldabarra.com.br/

Por João Victor Ferreira

O Jornal da Barra é hoje uma mídia local, focada na distribuição de notícias focadas no público regional da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, principalmente. Para a composição deste trabalho, foi entrevistado o jornalista e repórter Ive Luiz Ribeiro e Souza que começou como estagiário de jornalismo e hoje trabalha, desde 2017, como funcionário do jornal.

O jornal tem 30 anos e passou nesse tempo por duas gerências, de modo que o posicionamento da mídia precisou mudar conforme às transformações sociais e urbanísticas que a Barra da Tijuca teve nas últimas décadas, além das mudanças do próprio jornalismo. De cara, a mudança de gerência, que ocorreu há três anos, trouxe algumas alterações editoriais na mídia. O Jornal da Barra passou de um jornal bem pequeno, repleto de anúncios e matérias de agências, para um jornal maior e produzido por jornalistas do próprio veículo. O jornal circula prioritariamente pela Barra e pelo Recreio, mas também existem pontos em São Conrado. São 30 mil exemplares por edição que atualmente é quinzenal — mesmo tendo um dia sendo semanal. Restaurantes, hotéis, supermercados e shoppings dessas regiões apresentam stands onde existem exemplares, para os leitores pegarem. A grande diferença do veículo ter sido antes semanal, era o maior grau de agilidade e dedicação da equipe para a composição de matérias relevantes naquela semana. Hoje sendo quinzenal, as matérias têm mais tempo de serem trabalhadas, mas o foco é o mesmo: conteúdo mais analíticos e bem focados na opinião do repórter, gerando maior interesse do leitor e independente da data. O conteúdo não tem mais a capacidade de ser instantâneo, devido à internet e, por isso, se torna mais necessária a análise do jornalista das consequências e das causas daquele evento.

Além do braço físico e panfletário que o Jornal da Barra tem, de uns anos para cá, depois de passar para a nova gerência, o jornal hoje também tem um site[1], onde as notícias são atualizadas em tempo real, pelos repórteres em campo. Desse modo, na edição física e quinzenal, há uma seleção dessas notícias mais factuais, de modo que elas passam a ser mais elaboradas e com um cunho mais analítico, já que a edição física não consegue cobrir a agilidade das notícias do bairro. Além disso, de dois anos para cá, o jornal ganhou também um braço audiovisual e que dá foco a notícias mais importantes e relevantes, levando os repórteres para o campo e funcionando de certo modo como um telejornal: matérias curtas e reportagens mais cobertas de imagens de apoio e entrevistados que de alguma forma são influenciadores na região. Entrevistas com o Roberto Medina, Ney Suassuna, Ministro do Turismo Gutemberg Fonseca, além dos clássicos eventos realizados na Barra da Tijuca, como a Bienal do Livro, o Rock in Rio e outros eventos culturais na Cidade das Artes. As matérias são postadas no canal do YouTube do Jornal da Barra[2].

Como uma mídia local que é, o Jornal da Barra se destaca da grande mídia por valorizar o local em destaque, apresentar um ambiente de ação político-comunicativa e por se apropriar dessa oportunidade mercadológica na região. Com o crescimento dos grandes meios de comunicação, as mídias locais acabam achando espaço nessa lacuna de informação, gerada pela hegemonia dos grandes conglomerados. Acaba que o conceito de globalização se torna algo muito abstrato e no fundo os cidadãos membros de uma comunidade precisam apenas de veículos que se preocupem com as demandas regionais e que tangem muito mais em assuntos palpáveis e factíveis para o cotidiano do local. Parafraseando a pesquisadora Cicília Peruzzo, a grande hipótese para o crescimento de uma mídia local se dá pelas modificações do cenário dos meios de comunicação que dá mais espaço para meios que representam aquele espaço e aquele cotidiano, em detrimento do domínio hegemônico das grandes mídias.

O jornal funciona como uma espécie de defensor do morador da Barra. É uma constante prestação de serviços de modo que os repórteres denunciam problemas que afetam a população, indicam boas opções de lazer, cultura e entretenimento. Há uma responsabilidade também em dar voz às associações e lideranças que tenham alguma representatividade na região. Isso não significa também apenas relatar o lado positivo da região. Nas palavras do repórter Ive Ribeiro:

Seria um desserviço para o morador da Barra só mostrar o lado positivo e fechar os olhos para os problemas, como o da poluição hídrica por exemplo. Além de falharmos em enganarmos o morador que convive com os problemas, estaríamos sendo jornalisticamente irresponsáveis ao fecharmos os olhos para o que há de errado[3].

O conteúdo do jornal acaba ficando um pouco restrito aos assuntos latentes à região, mas isso aumenta inclusive o trabalho criativo da redação em buscar novas histórias e que atraiam o interesse do leitor. Ive também complementa: “Por outro, é um bom exercício jornalístico pensar e me aprofundar na vida do morador da região. O que eles querem ler? O que ajudaria o dia a dia desse morador? São perguntas básicas que me faço sempre que vou em busca de algum conteúdo”[4].

A escolha editorial do presidente Cláudio Magnavita é bem variada. Sempre vão existir pautas mais temporais e que precisam ocupar as matérias do jornal, como um evento (Rock in Rio, Bienal do Livro) ou um feriado (Dia das Crianças, Páscoa). Grande parte das vezes a escolha vem do debate e a apuração dos jornalistas da própria redação. Um exemplo foi relatado pelo jornalista:

Uma pauta marcante para mim foi sobre o BRT. Transporte que eu e muitos da redação utilizamos todos os dias e sofremos diariamente com diversos problemas. Mas não só coisas ruins. Certa vez percebemos uma tendência na região de uma migração de mercados populares para a região. Essa observação veio do dia a dia. Isso é bem interessante. A pauta surge de forma natural quando vem dessas observações, desde que, obviamente, sejam imparciais.[5]

“Há muito de comunidade no Jornal da Barra, já que damos muito atenção para as associações e instituições da Barra. Sem falar que privilegiamos sempre novos empreendimentos que estão na nossa região”, nas palavras do repórter. Isso demonstra o caráter de compromisso com a comunidade e com o morador regional que consome a mídia e se preocupa com a responsabilidade que o jornal tem.

O Jornal da Barra tem um grande papel regional e comunitário na região, ainda mais por conseguir tratar dos assuntos que interessam diretamente o cotidiano do morador, além do que é dito pela mídia hegemônica. Um dos grandes ganhos que o trabalho do jornal fornece para o morador da Barra da Tijuca, principalmente, é a identificação e o diálogo que o veículo promove. Há aqui um respeito da opinião do público leitor, além do fato de priorizar pautas que sejam do interesse da comunidade. Isso ajuda inclusive na criação da identidade, uma vez que tal conceito é definido pelo processo dialético que o indivíduo faz com a sociedade em que vive. Me utilizando do slogan do veículo: “Nós mudamos. Por uma Barra mais BARRISTA”. Isso mostra inclusive a força regional que o jornal tem, uma vez que o público da Barra é hoje um dos mais orgulhosos e satisfeitos com a região onde vivem, se deslocando pouco para outras regiões, inclusive nos fins de semana. Essa característica “barrista” é abraçada pelo jornal, de modo a criar um sentimento de transformação da região em um lugar de fato, dotado desse apego emocional.

[1] https://www.jornaldabarra.com.br/

[2] https://www.youtube.com/channel/UCiCBgEJR0zpWpa9ekivmbvg

[3] Entrevista concedida no dia 11/10/2019

[4] IDEM

[5] Entrevista concedida no dia 11/10/2019

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