“Tijuca da Depressão”

Por Giovanna Quercetti Ingunza
A Tijuca é um dos bairros mais antigos, tradicionais da Zona Norte do Rio de Janeiro tendo como limites os seguintes bairros: Alto da Boa Vista, Andaraí, Grajaú, Vila Isabel, Maracanã, Praça da Bandeira, Estácio e Rio Comprido. A página “Tijuca da Depressão” foi criada em 2013 com o intuito de informar os problemas que ocorrem no bairro com um toque de humor. Um exemplo de assunto divulgado na página gira em torno de assaltos que ocorrem no bairro, e algumas pessoas acabam não gostado da maneira como é abordado o tema (com humor). Mas os administradores da página, que pediram para permanecer anônimos, explicaram que justamente se utilizam do humor para que esses problemas sejam não só divulgados, como é uma forma de criticar o problema, utilizando a ironia.
Também é dado enfoque na página a problemas de utilidade pública, como por exemplo, o alagamento de ruas quando ocorrem chuvas fortes, buracos em ruas em que não há a devida reparação, entre outras ocorrências. O administrador da página se utiliza de memes como forma de criticar de maneira bem humorada os problemas cotidianos vividos pelos moradores do bairro.
A ideia do nome da página veio a partir de um modismo da época em que se intitularam outras páginas com diferentes temas, mas todas possuíam a palavra “depressão”. O administrador da página contou que sempre foi criativo e gostava de postar idéias engraçadas. Um dia postou uma imagem de humor na página sem maiores pretensões e ela viralizou, o que fez com que a página ganhasse muitos seguidores e curtidas. A partir desse momento, o administrador da página passou a fazer as publicações por diversão. Quando a página atingiu cinco mil seguidores, uma pessoa enviou idéias para o administrador inicial, sendo convidado a participar da administração dos conteúdos da página desde 2014 até os dias atuais.
Atualmente a página tem 80 mil seguidores e um enorme engajamento por parte deles, que enviam mensagens alertando sobre possíveis conteúdos a serem divulgados e cabe ao administrador selecionar o que irá postar. O criador da página informou inclusive que evita abordar assuntos polêmicos e acredita que eles não convém a página, por exemplo, religião, time de futebol, pois as pessoas podem acabar interpretando errado como assuntos como esse criam divergências.
A página “Tijuca da Depressão” realiza uma comunicação comunitária que Cecilia Peruzzo aborda em seu texto “Revisitando os conceitos de comunicação popular, alternativa e comunitária”, isto é, em que um morador da Tijuca divulga informações para outros tijucanos, uma comunicação feita pelo povo e para o povo.
“[…] a comunicação comunitária se caracteriza por processos de comunicação baseados em princípios públicos, tais como não ter fins lucrativos, propiciar a participação ativa da população, ter propriedade coletiva e difundir conteúdos com a finalidade de educação, cultura e ampliação da cidadania.” (PERUZZO, 2006, p.9)
Na minha opinião, o que caracteriza a página como uma mídia comunitária é que ela possui uma forma de passar as informações, notícias, problemas com uma linguagem popular. O fato dela utilizar o humor e os memes para passar ações cotidianas dos moradores do bairro corrobora ainda mais o seu perfil comunitário. Gilberto Gimenez no mesmo texto “Revisitando os conceitos de comunicação popular, alternativa e comunitária” reafirma essa questão: “Ele entende que a comunicação popular “implica a quebra da lógica da dominação e se dá não a partir de cima, mas a partir do povo, compartilhando dentro do possível seus próprios códigos.” (GIMENEZ, 1979, p.60 APODE PERUZZO, 2006, p.3).
Essa análise mostra que a página possui tanto assuntos específicos que interessam ao seu público quanto questões mais gerais que são abordados pela grande mídia, as mídias tradicionais, se diferenciando delas apenas pela maneira diferente de se expressar, utilizando linguagem voltada para as pessoas que acompanham a página.
“Trata-se não apenas do direito do cidadão à informação, enquanto receptor — tão presente quando se fala em grande mídia –, mas do direito ao acesso aos meios de comunicação na condição de emissor e difusor de conteúdos. E a participação ativa do cidadão, como protagonista da gestão e da emissão de conteúdos, propicia a constituição de processos educomunicativos, contribuindo, dessa forma, para o desenvolvimento do exercício da cidadania.” (PERUZZO, 2006, p.10)
Eu achei muito interessante pesquisar sobre a página e saber o motivo que faz uma pessoa comum, como qualquer um de nós, acabar cativando a atenção de um número considerável de pessoas de uma determinada comunidade que compartilham das mesmas situações. Além disso, é extremamente importante ressaltar a relevância que a página tem em divulgar informações que acabam orientando os moradores do bairro e a forma criativa que ela utiliza para cumprir com a sua função. As mídias comunitárias merecem uma maior notoriedade, pois muitas vezes as pessoas se sentem melhor representadas do que pelas grandes mídias.
Referência bibliográfica:
PERUZZO, Cicília M. K. Revisitando os Conceitos de Comunicação Popular, Alternativa e Comunitária. Unb: XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), setembro 2006.
