a saga de melquizedec, o senhor das pequenices, através da urbes eclipsada
pedro segreto está para o texto, assim como victor gruzman está para as ilustrações — 2005

melquizedec, então, passava a noite toda a latir. permissivo e autoritário, sofria de uma urticária tremenda, a qual nunca coçava. permanecia, sempre, impávido perante os lancinantes pruridos, ano após ano, desde os já há muito passados tempos de outrora. desde de o nascimento da urbanidade, melquizedec perambulandava pelas cidades. Ser de muita teima, quando aparece até o belzebu encosta a bunda contra a parede.

melquizedec, criador da ressaca, trouxe consigo o torpor alcoólico e fez bagunçar a libido. desvirtuou impolutas e ilibados. fulano enfezado, fura o que é de borracha, baralha o que é comprimido, conspurca e zoa. de um hedonismo a toda prova, fez crescer a massa, hegemônica, homogenia, multidosa. melquizedec, escondendo o que é pequeno, perturba e algazarra.

melquizedec, tremoso e rasteiro, se ocupara diurnamente das mínimas fobias e dos apertos eventuais. existência de grande perdurar, não somente aproximou humanos das azias do existir, outrossim, trabalhou em prol das melancolias, dos sustos e de miúdos doridos, que desfeitos ou desmantelados dão lugar a prazeres indescritíveis. melquizedec, padrasto das diminutas inconseqüências, abana sua cartola e vai.

e lá se vão os anos, cavalgada incessante, e melquizedec segue sem uma roça, um triscar. nem se quer um mínimo esfrego foi proferido por melquizedec em todos estes anos. mas como se não bastasse, melquizedec voltava sempre às anfetaminas, que trincam suas ventas e entopem seu raciocínio. possuído pela química, certa vez, melquizedec levou-se a torturar um pobre homem a petelecos que duraram por eras.

melquizedec foi à cozinha.
embalou as manteigas, esvaziou os potes de açúcar.
aplicou sitos, bafios, ranços.
fustigou o azedume a se apossar dos alimentos.
desprovido de rancores de qualquer espécie, melquizedec não prescreve agressividades, tão somente traz na manga certos bolores.
pratamaria pois-se, nesse preciso momento, a preparar uma caçarola de arroz integral, já, concomitantemente, colocando uma chávena para aquecer a água, que posteriormente receberia a folhagem, os temperos e especiarias, além dos frutos desidratados e dos fungos secos. pratamaria, benzida pelas ervas do cardamomo, dava início àquele momento idílico.

melquizedec, estufado do nada fazer, perdeu alguns de seus segundos e, aturdido pela falta que lhe faziam, mesmo estando ele defronte para a eternidade, avacalhou passagens com a fumaça de suas bufas.
perplexo frente ao memorial donde escapara seu nome, melquizedec ralhou intempéries para todas as instâncias. não faltaram burocracias a metrificar os procedimentos, emperros a reter as tramas.
