Professores em greve: ensinando a lutar

Votação pela greve 20/03 no vão livre do MASP (Reprodução: APEOESP)

O professor é meu amigo; mexeu com ele, mexeu comigo!

Desde muito cedo doutrinam a nós, estudantes de escolas públicas, todos os malefícios de uma greve de professores: menos férias, perda de conteúdo, reposição em possíveis fins de semana etc. O que nos esquecem de instruir é que uma greve ensina muito mais do que qualquer conteúdo da grade curricular, pois ela está diretamente conectada à cidadania, à valorização do trabalho, à luta de classes e à libertação da exploração do ser humano.

Shirlei Rhaiane apoia a greve dos professores (Reprodução: “Eu apoio a Greve dos Professores de SP”)

Não é muito estranho ver pessoas que são contra greve por ser coisa de “profissionais que não querem trabalhar”, a.k.a vagabundos, por já saberem a desvalorização dos professores no mercado de trabalho brasileiro quando resolveram dar aula, por infinitos motivos que chegam sempre ao mesmo lugar: você estava ciente que seria chutado quando tomou a decisão de lecionar.

Essa visão, entretanto, é extremamente equivocada para a parte educativa dos alunos. Uma classe que dialoga com os professores grevistas sabe as demandas de uma greve, sabe quais os objetivos e o que se é necessário fazer para atingi-los. E essa é a diferença mágica do contexto que uma greve ensina e que nunca uma aula comum ensinará: a lutar. A pedagogia freireana muito mais tem a ver com greves que com um ensino engessado, pois é a luta que emancipa, não um ensino fadado ao fracasso e ao esquecimento após a guerra do vestibular.

Despertar a consciência política dos alunos é o primeiro passo para que o modo de comportamento da sociedade se revolucione, uma vez que eles são os principais agentes de transformação do meio em que vivemos. Construir a luta contra as relações de poder pré-existentes na coletividade para estudantes periféricos é ensinar mais que o MEC exige, é ensinar a sua autonomia e seu lugar de voz, é trazer à juventude empoderamento através de representatividade de pessoas marginalizadas que querem transformar o futuro do espaço que estamos inseridos.

Estudantes e familiares de Guarulhos apoiam a greve dos professores (Reprodução: “Eu apoio a Greve dos Professores de SP”)

Ensinar rompe com a linha tênue entre transmitir e receber conhecimentos, mas define-se pela produção do conhecimento próprio. O ato de não ter aula é para o aluno uma forma de criar consciência do lugar político dele, da dinâmica social e da necessidade de quebrar paradigmas sociais. Greve é aula. Aula de civilidade; aula de humanidade; aula de responsabilidade social; aula de luta; aula do mundo real.

Se há algo que alunos da rede pública de ensino precisam aprender, este algo tem uma relação intrínseca com a sua soberania frente o mito da meritocracia e a perpetuação da hierarquização social, para que consigam viver em sua plenitude. E essa consciência só virá através da rua, pois a visão míope da mídia finge que não há guerra de classes, silencia as lutas e o Estado esmaga a classe trabalhadora.

“A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.” Paulo Freire
Assembleia 20/03 após sair do vão livre do MASP (Reprodução: APEOESP)