vicente atende pelo seu codinome

Paula Fontes
Sep 4, 2018 · 5 min read

estirado no chão vicente ainda respirava (mas com dificuldade)

deitado em um ladrilho sem graça ele mantinha um estado de repouso que se parecia demais com um plano de fuga. e a única coisa com o que se preocupava era em alinhar sua coluna com as linhas tortuosas do chão.

a primeira impressão causada era de que vicente estava a procura de um sono confortável. determinado em manter o descanso, pois de fato o merecia. estava exausto da exaustão e de correr uma corrida de obstáculos que não tinha fim. o cansaço era compreensível, e a sua vontade de descansar era mais que justa

mas a justiça, de fato, só funciona nas primeiras impressões- depois disso ela é humana. falha, retrógrada e com um pé na vanguarda. acima de tudo, confusa. no caso de vicente não existia justiça, e as coisas não poderiam ser justas de qualquer modo pois seu sono não era superficial. sua exaustão não poderia ser lida em primeira, segunda ou terceira impressão. vicente estava deitado e completamente envolto em um emaranhado de linhas tênues roídas por ratos. como se a força do fio de nylon que prendia sua cabeça funcionasse do mesmo jeito que as das correntes de aço que aprisionavam seu corpo. ou contrário. não sabia ao certo dizer ao o que estava aprisionado, mas sabia que se sentia assim

e vicente continuava respirando com dificuldade, pois não estava a procura de um sono confortável. na verdade, não estava a procura de nada, ele só estava estirado no chão. e continuaria assim sem prazo de validade, mas pronto para apodrecer

não era a primeira vez que esse fenômeno acontecia e provavelmente não seria a última. e toda vez que vicente mergulhava em sua cama, ele não sabia se teria ânimo para acordar

o pânico causado pela exaustão era sentido no ritmo da respiração, nos sinais que denunciavam a forma precária que o corpo de vicente funcionava. a culpa martelava seus dentes e a tristeza arrancava sua língua, transformando o silêncio em uma armadura involuntária

sentia-se preso em um liquidificador que triturava o sofrimento de forma química, deixando sequelas de uma intensidade que só ele poderia enxergar

por outro lado, nos momentos em que o desfalecer de sua anatomia era maior que tudo, ele parecia sentir só o vazio. o vazio e o medo de ratos. não exatamente um medo propriamente dito, mas a grandiosidade sombria da presença das pragas

era irônico, mas não era a existência dos ratos o fator mais frustrante. por mais que os ratos lhe roessem os ossos e se alojassem juntamente com vermes em seu cérebro, essa não era a maior frustração de vicente. seu descontentamento maior era com a fragilidade de seu temperamento, que sempre se torcia ao se deparar com pequenas dificuldades. tudo era muito mais difícil do que parecia, e a incapacidade de resolver coisas simples era uma prova de que ele era tão inútil quanto pensava

vicente passou tanto tempo bebendo direto da boca dos roedores que enxergava tudo de forma paradoxal. conhecia muito bem o veneno que corria em seu sangue, como se já tivesse se deitado com uma cobra virtuosa que lhe apresentou traumas antes escondidos em sua derme. pensava que de certo modo aquilo era para ele. não que merecia o sofrimento, mas que não tinha capacidade para escapar dele

pois querendo ou não, o que vem de fora é assustador. aquele sono que pairava vicente era pelo menos familiar. existia uma angústia em não saber lidar com o que estava fora de seu inconsciente. até poderia saber, pois o passado não pode ser apagado, mas estava completamente desacostumado. a normalidade exigia da familiaridade; exige da coragem de se jogar em decepções e tristezas quase clichês e simples demais, como uma dor de dente

a exaustão era um bicho deveras estranho, e vicente mais ainda

quem o observava de longe poderia de boa fé o aconselhar a espantar os ratos. não seria uma tarefa difícil, e todo mundo em determinado momento tem que lidar com esse tipo de praga

(a tristeza é uma praga) e ratos estão presentes em todos os lugares-

nas ruas

vielas

cidades

debaixo do tapete persa da vizinha rica

correndo por cima do lixo do restaurante

dentro do restaurante

roendo por baixo de vestidos feios

e dos belos também

correndo desvairados nas calçadas

inundando esgotos

e quebrando geladeiras

nas ruas

vielas

e cidades

mas não, ninguém poderia entender a dimensão dos ratos de vicente. nem o próprio vicente. ele queria arfar os pulmões e berrar que era tudo diferente. que só era ele, e só ele, que tinha que lidar com ratos habitando seus neurônios, destruindo as ligações de seu crânio e o impedindo de funcionar. seus ratos eram diferente- faziam parte de vicente. como um desastre natural avassalador, seus ratos iriam roer qualquer resquício de mudança

pragas preferem corpos inertes, e por isso vicente continuava com sono

e o pior da solidão era a convicção de não ter forças para a abandonar. de não ser suficiente para outros laços, apesar de desesperadamente precisar deles

e por isso vicente continuava estirado no chão, respirando com dificuldade. com a aparência esquálida, sem graça e em preto e branco, contrapondo seu coração vibrante cheio de vasos partidos. contrapondo um coração sendo esmagado, implodido e jorrando tinta escarlate. um órgão já falho, como todo o resto de seu corpo, mas que ainda vibrava alguma cor

vicente não tinha certeza se o sono iria continuar, ou se iria tropeçar em alguma ratoeira. mas eu tinha certa esperança

de olhos vendados, vicente nunca tinha se visto como parte de nada. indivíduo ignorado e consequentemente individualista. não conseguia se ver nos outros uma vez que os outros não o viam. e não ouviam seus gritos ou pedidos de socorro. mas para mim, vicente era mais que familiar

vicente era parte de mim. era eu. sou eu (é você também)

e por isso eu admito que há esperança. há esperança porque eu conheço meu desconhecimento como ninguém, e sei que se existe complexidade nos ratos, pode existir outras partes de mim também

não sei se almejo totalmente, mas espero ser capaz de colocar o sono de vicente em dia. fazê-lo dormir como parte da rotina, depois de um dia cansativo. fazer de seu sono algo trivial, ordinário, e não doloroso

sei que posso aprender a fazer isso, apesar do caminho ser assustador demais. mas não sei como irei abandonar a voz que insiste em dizer que eu não consigo fazer isso

mas a outra opção me parece ao mesmo tempo atrativa e falha. muito definitiva. e mesmo para os céticos, o questionamento da dúvida é necessário. acabar com a dor é interessante, mas arrancar a cabeça dos ratos exige uma confusão maior

enquanto vicente continua calado eu continuo em pé, mesmo sem querer, ou saber o que eu quero. mas é preciso lembrar que vicente e seus ratos merecem uma boa noite de sono

(e eu e você também. talvez um dia vicente não irá despencar no chão e respirar com dificuldade. talvez um dia seus ratos irão dormir bem)

Paula Fontes

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dezesseis anos. não sei nada sobre a vida e escrevo textos literários meia boca. tenho ideias pseudo acadêmicas