Peregrino
Vejo através do sujo vidro, o Sol naquela bola amarela instável, hoje ele se embrulha com as nuvens em gesto de paz
Um dia ele surtará, nem há de demorar, eu sinto, nós — tão pequenos — sucumbiremos
Estamos sentados, intactos, nunca indo para qualquer lugar
O que tanto chama de vida não está lá fora, é mais do que teu ônibus, teu trajeto, são os cães, os passageiros, os acidentes de trânsito, os socorristas do 192
O podre da avenida entranhou em nossos narizes, a vida que busca lá fora é tão limpa quanto campo estéril, é que temos tanta ilusão tentadora
Relutamos a aceitar que é a fumaça, a poluição, o hábito ruim de fumar ao ingerir álcool, os bares e aquela foda dispensável. É qualquer coisa que ajude a tirar a total culpa de nós mesmos
Os homens plantam uvas, alimentam as galinhas, o solo e as raposas agradecem. O que fazem os homens caminhando ao redor da montanha?
As estradinhas de terra possuem marcas de outras vidas
Pés descalços acima do solo castigado pelo Sol. Peregrino de mãos delicadas e despreparadas, o que faz perdido no meio da noite?
Teus pés buscam o Norte, pensa que teus pés estarão protegidos do castigo? Vê demais, pois nem tuas mãos estão gastas o suficiente
Peregrino, quão forte é o teu querer? Fechamos os olhos, murmuramos o que deveria ser protestado
Sabes me dizer se está saudável? A água da fonte tratou de secar
Tu dirias a mim que está pronto para a caminhada? Peregrino, eu mal sei onde estou
De encontro ao semblante teu turvo, digo-te: volte para casa, limpe teus pés, ponha tuas vestes, fecha teus olhos para essa noite que não te pertence
Peregrino, a noite que queres chamar de tua já não pertence a ninguém, você não está pronto para se aventurar
