Era uma vez, numa manhã de Dezembro, na Califórnia

by Fabrizia Posada

Por mais pesadas que fossem suas pálpebras, Walt se esforçava para levantá-las todas as manhãs.
Vagarosamente, as pupilas de Walt se adaptaram ao clarão que entrava pela janela à direita de sua cama. Ele insistira para que as cortinas fossem mantidas abertas apesar da claridade que machucava-lhe os olhos. Walt passara a acordar todos os dias numa silenciosa explosão de luz que, aos poucos, se dissolvia e revelava algumas cores pálidas. O espetáculo cromático era enriquecido pelos sopros agudos ouvidos nos mesmos instantes que as batidas de coração.
O céu estava muito azul e não havia nenhuma nuvem. As palmeiras, compridas e irrequietas, se erguiam impressionantemente no céu. O vento estava lá, Walt conseguia ver. As paredes brancas o impediam de senti-lo; a janela não era grande o suficiente.
Ouviu-se um estalo seguido pelo som de passos apressados.
– Bom dia, senhor!
Nancy era uma enfermeira rechonchuda cujo sorriso parecia estar incrustado em sua face. Ela entrou no quarto carregando uma bandeja.
– Como se sente nesta linda manhã?
As conversas com com o paciente eram, na verdade, monólogos. Ela o fazia por força do hábito ou, talvez, para aliviar um possível desconforto, pois sabia que o homem não responderia.
As pernas e articulações de Walt latejavam, mas ele não queria dizer. Ele sabia que Nancy não poderia ajudá-lo se ele permanecesse quieto. Contudo, para ele, a dor era parte de seu corpo assim como um membro.
O pior daquela doença não era a agonia, a languidez ou a monotonia. O que mais atingia Walt era o motivo de estar preso a uma cama de hospital: ele fora fraco. O cigarro era seu confidente e maior vilão. Walt tentou, mas não conseguiu se esconder por toda vida. O tabaco o traiu, roubando-lhe os pulmões e a discrição. Agora, todos sabiam. Walt não era mais o homem que fora um dia.
Nancy apoiou a bandeja na mesinha ao lado da cama e preparou uma seringa. Ela abriu o traje de Walt na altura do peito e esfregou um algodão umedecido. Depois, aplicou uma injeção que fez com que a pele do homem formigasse e os cantos da sua boca se contorcessem. A enfermeira ajeitou seu paciente, reorganizou alguns itens que trazia em sua bandeja e se despediu.
– Senhor, retornarei mais à noite. Descanse bem, sim?

Pouco tempo após ter observado Nancy deixar o quarto em suas costumeiras saltitadas, Walt notou um canto que lhe pareceu novo. Ele já conhecia bem os cantos do quarto. Havia o canto das mensagens floridas, que era destinado a agrupar os presentes que Walt recebia; o canto da luz e dos fios, cujos farrapos que pendiam da almofada da poltrona, quase imperceptíveis se não fosse a ajuda da sombra, lhe chamavam mais atenção que a cremosidade do bonito couro caramelo que a forrava; o canto vizinho da porta, sem beleza ou graça; e o canto da mesinha com o rádio, que era até esteticamente interessante. Porém, daquela vez, naquele quarto, com toda certeza, havia um canto a mais: o canto do furo.
Walt encarou o canto novo. Ele fechou um olho e manteve o outro aberto, concentrado, tentando alcançar a nova descoberta como se a visão pudesse aproximá-lo um pouco mais. Era um furo do tamanho de um punho fechado. Talvez, por isso, não deveria ser chamado de furo, e sim de buraco. Contudo, ele era muito circular e perfeito; era um furo, sim, sem dúvidas, mas um dos grandes. Se a perna de Walt não doesse tanto e se o fôlego não lhe falhasse, ele certamente já teria se levantado para examinar o estranho orifício na parede.
Ruídos cortantes chegaram aos ouvidos do homem. O interior do furo estava sendo arranhado insistentemente e soava como a cortante corda mi de um violino.
– Olá? — Walt tentou projetar sua voz com a maior intensidade que lhe era possível.
Um focinho preto brotou na parede e farejou o ambiente no qual havia adentrado. Com esforço aparente, depois de alguns instantes, o resto da cabeça apareceu. A criatura tinha orelhas pontudas, olhos negros e toda a cara era escura e triangular como a de um medíocre gato de rua. Ela falou:
– Oh! É-é-é o senhor mesmo!
Walt espremeu os olhos para tentar enxergar melhor. A luminária do quarto estava acesa, mas sua luz não alcançava o canto do furo.
– Sim, acredito que eu ainda seja quem normalmente sou. Quem é você, amigo?
– Raymond. — O visitante piscou. — Eu estava mesmo procurando o senhor.
– Foi você que abriu esse furo na parede, Raymond?
– Sim. Eu o fiz hoje mesmo, ha não muito tempo atrás.
A criatura olhou ao seu redor, piscando várias vezes. Walt gostaria de vê-la mais de perto. Como se Raymond tivesse sido capaz de adivinhar, começou a se debater para sair de vez do orifício. Ele tentou com afinco, como era notável pelos seus grunhidos aflitivos. Depois de conseguir remover todo seu corpo peludo da parede com a ajuda dos polegares pontiagudos, Raymond revelou suas enormes asas translúcidas e seus pés ossudos. Ele planou suavemente até o pé da cama de Walt, mas sua graciosidade andava de mãos dadas com seu desassossego.
Raymond piscava os olhinhos freneticamente e vestia um colete azul cobalto, que contrastava com os pelos castanhos do corpo. Ele tateou um de seus bolsos com a asa esquerda, buscou um par de óculos redondos com a garra do polegar e os apoiou no focinho. Seus olhos negros duplicaram de tamanho.
– Senhor, venho de um lugar que pode ser muito ou pouco diferente daqui, dependendo do ângulo em que se olhar. Nós todos esperamos por você há bastante tempo. Mal podemos esperar pela sua chegada.
– E você poderia me dizer que lugar é esse, por gentileza?
– E-e-eu não posso! Mas o senhor deveria vir comigo. Pode parecer cedo, ma-mas, na verdade, não é tanto.
– Mas não passo por aquele furo! Sou muito grande.
– Se o senhor me permite dizer, o senhor ainda não tentou.
– Essa não seria uma tarefa fácil, amigo. Sinto muita dor na minha perna direita e não posso me arriscar em atividades exaustivas.
– Senhor, pelo que posso ver, de seu corpo saem duas pernas ao invés de uma só. O senhor poderia tentar usar a esquerda.
– Ora, mas não é assim que funciona! Preciso das minhas duas pernas assim como você precisa das suas duas asas.
Os olhinhos de Raymond piscaram, piscaram novamente, e mais uma vez. Ele estava irrequieto.
– Veja, caro Raymond… Sinto muito lhe decepcionar, mas este não é o melhor momento. Se tivéssemos nos conhecido em outra época, eu certamente me juntaria a você sem titubear. Por mais incrível que possa parecer, esta cama de hospital exerce um tremendo poder sobre mim.
– Pelo modo como diz, senhor, parece-me que o problema está na cama e não no senhor.
– Prefiro que pense desta maneira.
Raymond coçou a cabeça e pensou por alguns instantes. Depois, ajeitou o colete e se empertigou.
– Co-compreendo, senhor. Receio que terei de esperar um bocadinho mais. Revejo o senhor em breve, sim?
Raymond abriu as asas e disparou na direção do novo canto. Apesar da dificuldade que a princípio sentira para conseguir passar pelo furo, desta vez, atravessou-o com a precisão de uma flecha ao perfurar um alvo.

Já estava tarde e a Lua se encontrava no céu.
Walt percebeu que estava novamente só e ficou triste, pois sentia-se estranhamente bem-humorado e disposto após a visita inesperada. Se Nancy aparecesse no quarto naquele instante, Walt certamente a impressionaria com sua motivação para socializar. A ida de Raymond fizera com que o quarto voltasse a parecer um berço de melancolia.
Walt estava com um pé na realidade e outro no mundo dos sonhos. Quando percebia que estava prestes a cair no sono, sua consciência retomava o controle e o mantinha acordado. Walt se sentia ansioso, como se algo borbulhasse dentro de si. Ele pressentia alguma coisa e isso o afligia justamente por não dar ideia do que aquela coisa poderia ser.
O furo na parede continuava no seu canto, intacto e redondo. Walt o fitou. Pacientemente, o homem tentou relembrar de cada detalhe do acontecimento que havia vivenciado pouco tempo atrás. Lembrou-se de Raymond e de como ele era elegante e educado, apesar de tímido, e estas eram todas características um tanto incomuns para uma criatura como ele. Pensou em como Raymond havia sido obstinado por ter construído aquele furo por si só, provavelmente desafiando certas autoridades e transgredido ordens, simplesmente por almejar adiantar seu encontro com alguém com quem sonhava conhecer. O furo não era apenas um furo: era um túnel que trouxera uma criatura de algum mundo misterioso. Afinal, era isso que inquietava Walt, e a epifania o fizera enrijecer na cama: ele seria levado a algum lugar, e isso aconteceria em breve. Ele pressentia; ele havia percebido e interpretado os sinais. Ele compreendia.
O quarto, que estava imerso em penumbra, mudou de cor. As paredes se contorceram graciosamente, fazendo com que as sombras deslizassem sobre sua superfície. Aquele efeito era consequência da luz prateada bruxuleante que vinha pelo corredor, se aproximando do quarto e engatinhando por debaixo da porta.
O coração de Walt acelerou por curiosidade, não por medo. Quanto a porta abriu, ele prendeu a respiração em um reflexo de ansiedade. Era apenas Nancy, porém, que em seguida entrou no quarto com as bochechas rosadas e canelas roliças de sempre. Contudo, a luz prateada emanava dela, envolvendo-a numa aura mágica.
A enfermeira atravessou o cômodo com serenidade estampada no rosto. Ela sorriu e seus olhos cintilaram. Diante da expressão de Walt, Nancy se manifestou:
– É claro que, mesmo em um momento como este, o senhor não deixaria de mostrar coragem em seu olhar.
Nancy tirou um vidrinho de dentro do uniforme. Dentro do frasco, havia uma substância muito reluzente de cor azul não como o céu, mas como as íris vibrantes dos olhos que repousam nas asas das borboletas.
– Desculpe-me pela demora, senhor, mas era necessário. O senhor estava passando por uma transformação. — Era como se Nancy conseguisse ler a mente do homem que estava à sua frente. Ele realmente queria entender melhor o que estava acontecendo.
– Nancy, por favor, você não precisa mais me chamar de senhor. Eu sou Walt.
– Oh, mas faço questão! O senhor ocupa um posto inestimável. Se não fosse o senhor, eu não existiria.
Walt deu-lhe um sorriso vacilante. Por dentro, ele sentia arcos roçarem cordas e trombones serem soprados. Nancy deve ter percebido a preocupação no semblante do seu paciente e falou:
– Você está pronto. Será perfeito, eu prometo. Confia em mim?

O sol começava a queimar no horizonte e o laranja tomava conta da caixa d’água, vista ao longe através da janela. Walt contemplou a torre e ela o encarou de volta, assim como o retrato do seu primogênito, que a estampava. O sol queimava assim como o homem; queimava nele e com ele. Tambores rufavam dentro da sua caixa torácica.
Ele foi arremessado pela janela com um assobio, depois outro e mais outro. Ele abriu os braços. No fundo, o bumbo marcava as notas mais graves e os pratos pontuavam as mais agudas. Numa pirueta, Walt se jogou na direção da torre e ergueu a mão. Seu filho estava ali, esperando, e agarrou a mão que lhe fora oferecida. Walt sorriu, aliviado. Ele não era apenas sua criação, era um velho amigo. Walt estava feliz que não ficaria sozinho naquele momento tão importante, independente de qualquer coisa que houvesse feito no passado que não fosse motivo de orgulho.
– Confia em mim?
O rato soltou uma gargalhada e saltou para perto de seu criador. Juntos, explodiram em mil cores e sons, viajando para um lugar inimaginável até pelas mentes responsáveis pelas fantasias mais incríveis da história.