Filosofia

A porta rangeu muito alto depois de empurrada. Eu não me lembrava de que ela pesava tanto. O ar se encheu de poeira e se tornou ainda mais carregado de lembranças.

O mundo pareceu tão pequeno.
Na verdade, eu sei que não é. Sei que ele é enorme, cheio de gente e lugares pra conhecer. Mas, mesmo assim, parece pequeno. Isso acontece porque tudo depende de como faço os meus olhos funcionarem.

Eu posso escolher o que quero ver. Escolho quais cores vestir, aonde quero ir. Posso até escolher alguns amigos desse jeito. Posso escolher em que tipo de mundo eu quero viver. Sim, eu posso. Só não posso escolher como funciona o coração. Ele atrapalha tudo.

Mas atrapalha, mesmo? O que é o certo para ser atrapalhado? Foram os olhos que escolheram? Quem disse o que é certo e o que é errado?

Foi a boca. A boca que me beijou. A boca que te beijou de volta.

A boca não fala agora, mas pensa. Pensa bem alto, na verdade, com aquele pensamento que machuca, e a dor faz chorar. Dor por quê?, eu me pergunto. É uma dor escolhida e masoquista.

Não gosto de sofrer. Gosto menos ainda de te ver assim. É isso eu que escolhi, mas escolhi pra fazer o certo. O certo de quem? Quem disse?

Ninguém… Ou todo mundo, indiretamente. Intrometidos.
Tudo o que vemos interfere no que pensamos. Aí o ver deixa de ser minha escolha, e a boca não pensa mais. Bocas não pensam, de qualquer forma…
Mas deveriam. Se elas pensassem, não diríamos besteiras, ou então não temeríamos tanto dizer aquilo que precisamos dizer. Ela nunca teria medo de beijar quem tem vontade. Tipo você.

Só que eu escolhi fechar os olhos pra você, pelo menos agora. Ainda mais depois de toda essa poeira que levantei, a mesma que me fez lacrimejar.


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