Limbo

18 de JANEIRO, 2015

O Sol iluminava o céu, mas não a floresta. Ao nível dos olhos estava escuro, mas não escuro como noite. Era da cor do limbo.

Seus passos estavam gélidos. Até mesmo as árvores pareciam se encolher em seus próprios troncos por causa do frio. Estavam secas, magras e altas. Ele se sentiu pequeno em meio a elas.

Era um dia muito frio para andar no parque. Mas ele gostava, mesmo assim. Era o que ele precisava. A frieza do ambiente se refletia na frieza dele. Ambos estavam assim, sem vontade de acolher. Sem vontade de calor humano. Cada um por si.

Ele apenas continuava, seguindo os caminhos da floresta. Para isso não era preciso pensar muito. Ele estava cansado de pensar, e isso se refletia nele. Seus pés se arrastavam e raspavam o gelo. Seu rosto congelava e adormecia em algumas partes, mas ele não se incomodou em se aquecer. Nada disso fazia sentido, e ele nem fazia questão de que fizesse. Doía. Chega de pesar.

Um banco se aproximava. Ele resolveu sentar. Seu corpo esfriava e esfriava.

Seus sentidos passavam a desacelerar. Ele pensou em fechar os olhos, mas ao invés disso ele olhou para o céu branco. O Sol estava ali, em algum lugar, apenas como uma lanterna. Ele sorriu por dentro. Ele não queria calor, de qualquer maneira. Seu olhar desceu lentamente, seguindo as pontas nuas dos galhos, encontrando passarinhos, descendo pelos troncos, vislumbrando o gelo cintilar, descendo até as rochas que jaziam sobre a grama maltratada e sem cor. Mas, lá longe, ele viu uma flor.

Sua mente não processou a imagem por alguns minutos. Ele simplesmente olhava, lá ao longe, um ponto róseo em meio à neve.

Ele se levantou e se arrastou para fora do trajeto sugerido pela trilha. Se aproximou até pisar muito próximo daquela rosa cor-de-rosa, de caule cortado e sem espinhos, largada no chão pálido. Ele se abaixou para pegá-la.

Por um instante ele pensou que sua mente borbulhava de ideias, mas era ilusão. Era apenas uma coisa que passava pela sua cabeça, e isso acabou se mostrando mais claro do que nunca.

Ele sentiu o sangue pulsar em suas veias. Ele precisava voltar pra casa.


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