Percepções

2 de ABRIL, 2014

A noite brilhava, bela. As estrelas não davam folga em seu frenético esconde-esconde e o grande olho do céu observava o mundo, arregalado. O olho olhava e era olhado de volta.
Não havia nada de especial naquele momento, aparentemente. Tratava-se de uma noite comum, em que as criaturas que dormem de dia acordam e simplesmente vivem.

Eu estava fazendo isso, apenas vivendo.

Olhei a Lua e ela me olhou incessantemente. Senti-me até mais fantástica diante de tamanho interesse, “O que tenho de tão admirável?”. Estava apenas fazendo o que faço sempre.
Esses pensamentos me vinham no meio de uma clareira. Era ali que sentia as minhas energias recarregarem, minhas mãos brilharem, meus pulmões inflarem, meus pés soltarem. Era como dançar. E era o que eu fazia todas as noites: abria os olhos, levantava e deixava a luz me tocar. Jamais seria a luz do Sol — ele esconde as sombras de que preciso para me desprender do chão. Assim eu dançava, quase que flutuando, mas meus dedos ainda tocavam a Terra apesar da minha mente estar em um lugar longe dali.

Eu seria trazida de volta, porém.
Na hora não entendi o porquê de ter sentido aquela tontura. Desequilibrei-me, esqueci o próximo passo e o gesto seguinte. Estava de joelhos, desamparada.
A natureza soava diferente; algo havia mudado.

Segui na direção de onde sentia partir a anomalia. Não havia uma trilha ou um caminho fácil; tive que me espremer por entre arbustos e saltar por grandes raízes de árvore. Estas últimas passaram a se multiplicar e a se dobrar umas sobre as outras, cada vez mais emaranhadas, mas também quebradiças. Tive que me concentrar para não pisar nos lugares errados. Enquanto meus pensamentos se distraiam, eu me aproximava do centro daquela teia.
Quase que sem perceber, ergui o olhar para o cenário à minha frente. No ponto em que todas as raízes se encontravam, jazia uma moça. Não era uma moça qualquer, no entanto. Uma aura cintilante emanava da sua pele, de seu cabelo, de seus olhos. Ela era como se a própria Lua estivesse na minha frente. Seu semblante, apesar de fascinante, era de cortar o coração. A palavra “tristeza” seria apenas uma pequena superfície, uma maneira muito pobre de explicá-lo. Dois filetes cristalinos partiam dos seus olhos e seguiam pelo seu corpo até empapar o chão sob ela.
“Por que você está chorando?”, perguntei.
A moça não ergueu o rosto para responder. Seu corpo todo se contraiu um pouco mais, como se ela tivesse se lembrado da resposta da pergunta que eu havia feito, mas havia levado um longo tempo tentando esquecê-la outrora.
“Não sei dizer… Não consigo entender”.
Ela me olhou. Seus olhos eram negros.
“Apenas choro incessantemente até me esvaziar”.
Eu não soube bem como reagir. Tive medo de me aproximar e assustá-la, ou então de não fazer isso e a fazer se sentir abandonada. Eu não devia me esquecer, porém, que a Lua havia me levado até ali. Ela havia me fitado de volta, mesmo que tenha levado tanto tempo para reagir ao meu olhar. Eu não podia negar o caminho que me era oferecido.
Tenho pés flutuantes, então os usei para me colocar mais perto da moça sem quebrar as extremidades das raízes. Quando me agachei ao seu lado, ela tornou a me olhar.
Ela enfiou o dedo em uma raiz, que a atravessou como se ela fosse areia.
“Somos tão frágeis… E sei que posso ser desfeita assim como surgi. Tenho medo do que pode acontecer”. 
“Mas talvez isso precise acontecer”, eu disse.
Ela me olhou sem entender.
“Eu não quero desaparecer”.
“Você não vai. Você vai sempre existir, pelo menos enquanto a Lua brilhar.”
Isso não pareceu acalmá-la.
“E depois? Não posso simplesmente sumir, não consigo aceitar… Não consigo entender”.
“Não sei o que acontecerá depois; eu provavelmente não estarei aqui. Mas para mim não importa aquilo que eu não posso entender. Sei que tem coisas que, mesmo que eu me esforce muito, jamais descobrirei… Por isso eu faço o que faço sempre. Olho a Lua e ela me olha de volta”.
“Não entendo”.
Sorri para ela. Jamais compreenderíamos uma a outra.

Mais tarde, tudo ocorreu da maneira como eu havia imaginado. As lágrimas da moça não cessaram, mas seu brilho passou a ofuscar. Não pude deixar de me inquietar com o seu semblante, que permanecia o mesmo. Ela não parecia ter se assustado com o que estava acontecendo. Suas formas sumiam aos poucos, até que nada mais restasse além das raízes que a serviram de assento.
Eu havia deixado de vê-la, mas ela poderia tornar a aparecer assim que fosse decidido que ela deveria se dirigir a mim numa outra vez.
Os raios no céu deixavam indícios de que o Sol iria surgir. Me ergui e me afastei do emaranhado de raízes, mas olhei de relance algumas vezes para me certificar de que conseguiria encontrar aquele lugar novamente.
Retornei para a minha parte habitual da floresta, na qual aguardaria pacientemente pela próxima noite. Então, eu faria o que faço sempre: acordo e simplesmente vivo.


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