Pipoca de beira de estrada

15 de JULHO, 2014

– E então, moça, vai querer uma pipoca?

Não, ela não queria. Sua boca tinha gosto de viagem; comer algo só iria piorar as coisas ainda mais. Ela odiava viajar de carro. O trecho que estavam fazendo não era tão longo — duraria menos que um dia –, mas, para ela, só bastava demorar mais que uma hora para ser um desagrado.
Ela olhou para o pipoqueiro e sorriu como quem diz “não, obrigada”.
A paisagem à sua frente era bonita. Podia-se ver a serra moldar o horizonte com seu verde escuro e azulado contrastando com o céu cinzento. Sim, para ela, o céu cinzento podia ser belo. A fazia sentir parte de uma história. Fugir do real. 
Perdida entre as nuvens tão distantes, mal ouviu o tio abrir a porta da loja de conveniência e avisar que ia ao banheiro.
Ela acordou do transe com a visão levemente comprometida pela luz. Olhou para o pipoqueiro, de boné virado para trás, camiseta, bermuda e chinelo, e deu-se conta da beira de estrada em que estava. Tudo parecia estranhamente familiar. Seria familiar de alguns segundos atrás, um déjà-vu?, ou o lugar realmente fazia parte de lembranças há muito esquecidas? Não sabia dizer.
A lojinha com cara de chalé, construída estrategicamente numa curva suave de estrada, entre o asfalto e um bosque montanhoso…
Seus sentidos estavam apurados, havia o cheiro forte de vegetação; as pedrinhas do chão que entravam no seu tênis e incomodavam. Contraste bonito, esse do tênis vermelho e o chão cinza. Um cinza diferente do céu, contudo. Ela levantou o olhar para comparar, e a luz novamente machucou seus olhos.
O aroma da madeira que vinha da loja se misturava com o das árvores atrás dela e também com o da cerquinha de madeira na qual ela estava encostada. O cheiro da pipoca também era bom… 
Ela conhecia o pipoqueiro de algum lugar. Lembrava do seu rosto, mas ele não combinava com aquelas roupas de garoto. Ele era jovem antes, já não deveria ter envelhecido? Ou ele era ainda mais jovem? Sua mente estava a pregar peças.

- Moça? Você podia levar uma pipoca pro seu passeio.

Ela não havia percebido que logo após ter notado o caminhozinho que adentrava a floresta bem atrás do pipoqueiro, ela contornou o carrinho de pipoca, seu dono e ainda passou por baixo da cerquinha de madeira. Ela piscou algumas vezes ao olhar para o rapaz.

– É; acho que vou aceitar, sim.
 — Fica dois reais.

Ela encontrou uma nota de exatos dois reais no seu short — um daqueles momentos mágicos em que convenientemente se descobre dinheiro esquecido nos bolsos — e seguiu seu rumo, agora segurando um saquinho de pipoca.
A terra era macia sob seus pés. As árvores eram um pouco altas, de tronco largo e folhas chorosas. Ela se sentia refrescada enquanto percorria o caminho. Havia som de vento, de nuvens, de mato e insetos. Ela sentia os últimos pularem na altura de seus joelhos e os percebia passar rapidamente pelo seu campo de visão, mesmo sem olhar diretamente para eles. Ela não ligava, eles eram simpáticos. Alguns galhos a sua volta se agitavam e faziam surgir micos que a acompanhavam no ritmo do seu caminhar. 
– Quer uma pipoca? — um dos micos assentiu com a cabeça. — Só uma. Eu paguei por ela. — Ela atirou e o mico apanhou, habilmente. Depois, ele voltou por onde saiu. Alguns outros continuaram a acompanhando, mas ela não jogou mais nada. 
Por entre as árvores, ela viu uma casinha simples e desgastada. Sua porta tinha um coração vazado e estava aberta. Conforme ela andava, viu que atrás da casa havia um balanço e nele estava sentada uma garotinha de cabelos castanhos muito compridos e cacheados. Ela sorria, mas parecia que estava segurando uma gargalhada. Havia um espaço adorável entre seus dentes da frente.

– Do que você está rindo?

As bochechas da garotinha apertaram mais o seu sorriso.

– São os vaga-lumes. Ali, atrás de você.

Ela se virou e notou que era verdade: mesmo estando sob plena luz do dia, lá estavam eles, saindo do oco de uma árvore: vários vaga-lumes se espalhavam pelo ar como purpurina soprada. Seu corpo não se moveu, mas seus olhos acompanharam fielmente o rastro esverdeado que adentrou a floresta até desaparecer. Um sorriso se formou em seu rosto e ela tornou a se virar, mas a menina não estava mais lá. O balanço no qual a garotinha estava sentada continuou ali, mas congelado como se nunca tivesse sido tocado. Ela pensou em procurá-la dentro da casa com a porta de coração, mas acabou não o fazendo.
Ela viu ninhos de pato cheios de ovinhos, olhos esculpidos nas árvores, tobogãs que davam em lugar nenhum e lagos que surgiam num piscar de olhos. Ela chegou a reencontrar a menina, que desta vez andava sobre os galhos das árvores, ainda mais acima que os micos. Tudo aquilo parecia morar em algum canto distante da sua memória, que há muito deixara de ser lembrado.
Quando se recuperou de tantas distrações que bagunçavam sua mente, ela notou que quase se esquecera da sua pipoca. Ela abaixou o olhar para o saquinho nas suas mãos, porém, ali só restavam grãos de milho secos.

No final, quando se deu conta, ela já estava de volta à lojinha de beira de estrada, o pipoqueiro remexia sua pipoca, o tio gritava para dizer que deveriam continuar a viagem. 
O pipoqueiro estendeu uma lixeira de plástico. Ela amassou seu saquinho e o jogou fora. Deu um sorriso de despedida para o garoto, que retribuiu.
Depois da porta do do carro pela qual entrou já estar fechada e de estar devidamente sentada, ela se permitiu vagar novamente pelos seus pensamentos. Se ateve ao sorriso do pipoqueiro — um sorriso que segurava uma gargalhada. Um sorriso como se compreendesse tudo mas ao mesmo tempo não soubesse de nada.


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