Psiqué

8 de JANEIRO, 2015

Ela envolveu habilmente seu cabelo ensolarado entre os dedos e prendeu três mechas quando julgou ser a hora certa. Uma longa trança descia pelas suas costas. Ela acariciava seu novo penteado enquanto seus olhos contemplavam a noite emoldurada pela janela, como um quadro.

A luz da lua e das estrelas não era suficiente para revelar as cores fortes das flores do jardim. Durante o dia elas eram de uma beleza surreal, que arrancava olhares mesmo daqueles que se dizem indiferentes a este tipo de encanto. As flores atraiam vários visitantes, os quais eventualmente notavam a moça melancólica lá no alto, olhando para fora com semblante de espera.

Enquanto olhava pela sua janela, ela só pensava naquele que queria encontrar. Aguardava por horas e horas. Tentava ver seu rosto nas estrelas e lembrar da voz que ouviu em seus sonhos. Ela pensava nele todos os dias, o tempo todo. Era fácil como respirar. E era fácil esquecer. Isso ela não queria. O medo do esquecimento gerava uma aflição tão grande que a fazia duvidar do que era realmente a verdade. Parecia que fora há tanto tempo; a sua mente poderia estar pregando peças. Ela poderia estar morando em uma fantasia. Talvez presa em um pesadelo como esses em que aquele que dorme não consegue acordar mesmo quando se dá conta de que está dentro de um sonho, então começa a se desesperar com a impotência de estar ali, sem poder fazer nada além de viver o momento.

E assim ela vivia, sempre próxima à janela, se agarrando às suas memórias mais preciosas… Lembranças daquele que foi, será ou poderia ter sido o amor da sua vida.

Enquanto isso, as pessoas no jardim se questionavam.

“É possível se apaixonar pelo desconhecido?”

“É preciso ser visível para ser real?”

“É preciso ser real para existir?”

“É preciso ser recíproco para ser verdadeiro?”

“Para ser verdadeiro é preciso se entregar à loucura?”

Ela não precisava responder. Ela era o sim personificado e gritado. Ela não precisava dar esclarecimentos ou desculpas aos indivíduos que a observavam. Todos eles esperavam o dia em que ela se daria conta da sua insanidade. Eles contavam com sua desistência e com um despertar que nunca viria a acontecer.

Uma vez exposta ao amor — o amor puro, ou o amor cru — não há como voltar atrás. O dano está feito.


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